Sonata!
Obra de Otto, Gerson, Matheus e Omaruk
Prólogo
Ele andava de um lado para outro ansioso pelo que estava por vir. Ora, após tanto tempo aguardando e preparando seu meticuloso plano essa era uma reação normal. Afinal, finalmente Ele mostraria a todos o quão ridículo é terem esquecido a beleza da harmonia, da liberdade e da sabedoria que apenas a música pode prover.Ah, mas Ele iria orquestrar um espetáculo para que todos apreciassem do fundo de suas almas.
E que espetáculo memorável esse viria a ser...
Capítulo 1: O Desfile
Toda a avenida estava apinhada de pessoas e outros seres que se espremiam e empurravam para ver um dos nomes mais importantes do planeta, Anselme III, o rei de Sonata. Seu nome era de tão grande importância que quando se locomovia para outro lugar havia sempre um desfile para venerá-lo. Havia uma restrição para mestiços e híbridos. Somente puros-sangues de Sonata poderiam vê-lo nos breves cinco minutos em que sairia de seu luxuoso carro preto para acenar para a população.
Aquele também não era um evento comum, era a primeira vez que alguém de tamanho prestígio passaria por um lugar tão pobre em toda a história de Sonata. A rua só foi recentemente pavimentada e apenas onde Anselme III passaria, de resto, o que havia de rua foi graças ao esforço de alguns que se uniram para colocar pedras no chão e fixá-las com um barro especial. Os donos das lojas e casas que havia ao redor do curso do desfile tiveram que reformar suas propriedades via decreto, e como eram pobres demais para isso, metade da rua foi presa e tiveram seus bens tomados para ‘melhoria em prol de uma cidade mais bela’, como anunciava o Governo.
O momento que todos esperavam estava próximo de chegar. Já passaram por aquela rua o Primeiro Exército Imperial, os melhores do Grande Circo, a Banda de Noitra, e três carros de segurança atrás, estava Anselme III. Os guardas que vigiavam na rua e os atiradores que cercavam a área estavam em seus devidos postos, prontos para qualquer adversidade que pudesse ocorrer. Mesmo o carro de Sua majestade era envolto de espessas camadas de vidro especial capazes de deter quase toda magia ou forma bélica que existisse.
O sino badalou o meio-dia. Uma música surgia de algum lugar longínquo e foi preenchendo o ar. Era bela e suave. E todos passaram a gostar dela e se sentirem emocionados e energizados pela magistral sinfonia...
O teto solar do carro de Sua majestade abriu para que ele pudesse se exibir. Sorrindo, o velho e rico rei apareceu de cima seu carro enquanto esperava pela explosão dos fogos de artifício, mas nada apareceu. Ao passo que o rei acenava, a bela música foi aumentando e se tornando cada vez mais aguda. E logo ficou alto e estridente o suficiente ao ponto de obrigar todos que estavam ali – incluindo o rei - a taparem os ouvidos. O som foi se expandindo. As pessoas já estavam ajoelhadas ao chão, abafando o som, agonizadas e torcendo para que ele cessasse logo, mas ele parecia não ter fim. E logo alcançou uma nota tão alta que todas as vidraças das casas e lojas ao redor foram sendo estilhaçadas na mais perfeita ordem.
E quando finalmente alcançou o carro de Anselme III, o vidro de seu carro estourou. Agora desprotegido, o rei pôde visualizar por um momento uma janela não muito longe de um pequeno e pobre prédio. Nele, um de seus supostos atiradores, mirava a arma para sua cabeça, e disparava. No mesmo momento em que o rei desvanecia, a música cessou e os fogos finalmente explodiram em alegria no ar. E assim o rei caiu por cima dos estilhaços de seu carro, morto.
As pessoas choravam, os secretários e ministros se desesperavam, mas a realidade era uma só, e ali estava, na forma de uma tragédia recaída sobre aquele que um dia foi o símbolo máximo de poder e nobreza. O sangue de Anselme III significava mais do que a sua vida, era o pilar principal de todo um reino, e com as bases fragilizadas, bastaria um simples descuido para que toda a estrutura ruísse. Exatamente como planejado...
Capítulo 2: Silêncio!
- Isso não pode ser tolerado!
O primeiro-ministro Thomas Vancoor estava com o rosto rubro, num misto de desespero e raiva que lhe dava um aspecto de quem estava prestes a ter um enfarte. Apontou com o dedo trêmulo para o General Kriegmann.
- Exijo explicações! Como pode deixar que um assassino se infiltrasse entre a tropa de elite da segurança real, cometesse um ato de tamanha ousadia e escapasse sem deixar vestígios? Ou o sujeito tem super poderes ou você é ainda mais incompetente do que eu pensava! E não me faça dizer em qual das duas opções eu aposto!
Kriegmann mantinha-se irredutível, com a postura de um verdadeiro militar. Estava acostumado com os insultos por parte de Vancoor, com quem não tinha um histórico muito invejável.
- Estou tão confuso quanto o senhor. Tinha certeza de que a segurança estava impecável.
- Por que não foram imediatamente atrás do atirador?
- Fizemos isso, senhor... Porém não encontramos sequer rastro dele. Além disso, revisando os planos de segurança percebi que não havia nenhum de nossos homens posicionado naquele local.
- E aquela melodia? De onde veio?
- Também não sabemos.
Vancoor sentou em sua cadeira e colocou as mãos no rosto. Ergueu o olhar e disse ao general:
- Devo entender que esse sujeito surgiu do nada, assassinou o nosso rei e desapareceu no ar?
- Infelizmente é algo muito próximo disso, senhor.
Vancoor levantou-se e olhou pela janela. A cidade inteira estava de luto pela morte de Anselme III. Tudo havia acontecido muito depressa. O som estridente, o tiro, a ruína. Todos se sentiam impotentes diante do criminoso.
- O mínimo que podemos fazer é prestar as devidas homenagens ao rei. - Disse, com a sombra do fracasso cobrindo o rosto. - Amanhã realizaremos um concerto no Grande Teatro de Sonata, e, a partir daquele momento, todo tipo de música será proibido até que encontremos o culpado.
O general concordou e retirou-se. Vancoor estava tão preocupado que nem sequer notou a pequena figura alada que saiu de seu esconderijo atrás da cortina e precipitou-se para fora da janela.
***
A pequena fada seguiu sobrevoando os telhados do reino. As ruas ainda estavam movimentadas, apesar de já passar da meia-noite, mas todos os que passavam tinham um ar de tristeza em seus rostos. Seguiu em direção a um edifício onde alguém a esperava. Uma garota ruiva, de cabelo não muito longo e de olhos cor de esmeralda. A fada pousou sobre seu ombro e lhe transmitiu aquilo que havia presenciado:
- Vancoor deve estar ficando louco! Vai realizar um concerto amanhã e depois proibir qualquer tipo de música, a menos que encontrem o culpado.
- Ora, Pó-de-Estrela, você sabe que Tommy nunca bateu muito bem. Aquele velho já é caduco de nascença.
- O que vai fazer?
- Bom, se há um criminoso, há recompensa pra quem o encontrar. Acho que essa é a grande chance de fazer o nome Celine Rosso ser conhecido pelos quatro cantos de Sonata. Fama e fortuna, minha amiguinha, nada menos do que eu mereço.
- Mas se nem mesmo o governo conseguiu encontrar esse cara, como você pretende fazer isso sozinha?
- Ah, Pó-de-Estrela, o seu problema é ser pessimista demais. É tudo uma questão de vontade.
- Se você diz...
- Bom, a noite é uma criança. Vamos encantar um pouco essas ruas antes que essas pessoas morram de tristeza.
Celine pegou seu violino, desceu até a rua e começou a tocar, ao mesmo tempo em que caminhava pelas ruas menos movimentadas. Uma alma vermelha com sua melodia encantadora.
***
Chegou enfim a noite do concerto. As pessoas se agitavam em frente ao Grande Teatro, algumas fadas voavam agitadas, com seus risinhos característicos. Celine entrou no auditório e sentou-se na fileira mais perto da porta, onde tinha uma visão maior do auditório em si. A parte do espetáculo que a interessava não estava no palco.
Aos poucos a orquestra foi entrando, e assim que todos estavam calados em seus lugares, o maestro deu o sinal para o início de um réquiem em homenagem ao falecido rei. A música era incrivelmente bela e incrivelmente triste. Logo quase todos os presentes estavam com lágrimas escorrendo dos olhos.
Porém, algo inesperado aconteceu.
O maestro percebeu que havia um violinista a mais do que o esperado. Isso seria preocupante, mas o mais assustador é que o violinista em questão estava sentado num canto mal-iluminado do palco, e usava uma máscara branca e uma cartola. O maestro fazia o possível para não esboçar nenhuma reação, mas o suor frio lhe escorria nas têmporas e na testa. Como se não bastasse o assombro, o violinista começou a sair de sincronia com o restante da orquestra. Tocava uma melodia completamente diferente, que ia ficando mais aguda a cada compasso. A platéia percebeu a presença da figura misteriosa e ficou paralisada. Todo o Grande Teatro parou para contemplar a melodia macabra. Logo o som se tornou tão agudo que todos cobriram seus ouvidos e esboçaram expressões de dor. Celine estava de joelhos no chão, se esforçando para não gritar.
De repente ouviu-se o som abafado de um tiro. Todos se assustaram, e ninguém sabia de onde havia se originado o disparo. Tudo o que se sabia é que havia atingido alguém da primeira fila. Celine correu para tentar encontrar algo que a ajudasse a encontrar o criminoso, mas não havia sinal de quem havia disparado a arma, e o violinista misterioso havia desaparecido. Celine correu para ver quem havia sido atingido pelo disparo.
Um corpo jazia imóvel encima do banco. Do peito o sangue escorria para fora da camisa pelo buraco aberto pelo tiro. Havia acertado no coração. O rosto contorcido, provavelmente pela perturbação que estava sentindo por causa da música aguda tocada pelo misterioso homem da máscara branca.
Em pouco tempo, várias pessoas chegaram próximas ao corpo. Os guardas presentes no Grande Teatro tentavam, inutilmente, remover a multidão. Quando Celine chegou, já não mais conseguia espaço para vê-lo. Espremeu-se entre todas as pessoas que murmuravam palavras incompreensíveis. Todos cochichavam ao mesmo tempo. Alguns exclamavam. A maioria parecia apavorado.
"De novo..."
"Mais um morto..."
"Uma música novamente..."
"Como com sua majestade..."
Os trechos de palavras chegavam aos poucos aos ouvidos de Celine, que as ignorava. Quando finalmente conseguiu enxergar o rosto da vítima, parou perplexa. O rosto do homem era totalmente ignorado por ela. Não era ninguém que conhecia, e tinha certeza que não se tratava de ninguém importante para o reino. Mas o lugar em que ele estava sentado, Celine sabia, era o lugar reservado para o Primeiro Ministro.
* * *
O concerto terminou prematuramente. Todos foram convidados a sair do Grande Teatro, não sem antes serem meticulosamente revistados. Mas todos sabiam que era inútil. O assassino provavelmente já tinha saído muito antes. Quando o Primeiro Ministro chegou minutos depois, surpreso, disse que tinha saído para resolver alguns problemas que haviam surgido. E que não fazia idéia de quem era o morto ou de como ele havia parado ali.
Capítulo 3: A Feiticeira e Seu Fantoche
Sonata possuía diversos bairros. E em cada bairro do reino, para preservar a ordem local, havia uma construção de vigília onde diversos guardas reais resolviam os problemas que vinham a encontrar. Esses locais eram denominados Sede da Ordem, onde trabalhavam os Vigias da Ordem. As Sedes da Ordem estavam abaixo das outras diversas organizações militares. Cada sede tinha um comandante, que respondiam as ordens do General Kriegmann. Geralmente, seus trabalhos eram monótonos. Os meios de punição radicais de Sonata provocavam medo naqueles que pensassem em algum momento a cometer alguma infração. Os maiores casos registrados eram de pequenos roubos. Como foi o caso na manhã anterior ao concerto.
Era um bairro pobre de Sonata, Alexandria. O mesmo bairro onde havia acontecido o assassinato de Anselme III. Um guarda trazia pela mão um garoto de treze anos que havia sido pego roubando frutas em um mercado. Ele arrastava o menino de cabelos pretos que tentava a todo custo se desvencilhar das mãos pesadas do homem. Era inútil. Nem se fosse mais velho ele conseguiria se soltar do pesado Vigia da Ordem que havia sido treinado para prender um homem adulto forte se necessário.
Eles andavam na manhã fria em direção à Sede da Ordem que ficava algumas quadras longe do mercado onde o furto havia ocorrido. O vigia ofegava, pois se o menino era fraco, era do mesmo modo veloz. E só após alguns minutos um tropeção fez com que fosse pego.
Chegaram até a Sede rápido. As ruas de Alexandria estavam desertas. E quietas. A música havia sido oficialmente proibida após o concerto pelo Primeiro Ministro. E era verdade quando diziam que o povo de Sonata tinha música no sangue. No silêncio total, não se animavam nem para sair de casa.
Havia uma pessoa em frente à Sede. Estava vestida com um manto preto, sentada em um caixote em frente ao prédio, com a cabeça abaixada e o capuz do manto sobre ela. O vigia olhou curioso para a figura ao se aproximar.
- Quem é você? O que está fazendo aqui? - ele perguntou, desconfiado.
Uma voz feminina de uma jovem mulher saiu de dentro do capuz que cobria sua cabeça:
- Estou esperando alguém...
- Pois vá esperar em outro lugar. Você não tem permissão para ficar aqui.
- A pessoa que estou esperando, já está saindo - falando isso, a mulher com o capuz apontou para a porta da Sede.
A porta abriu-se e nela apareceu uma garota, de por volta de quinze anos de idade, os cabelos loiros ondulados. Tinha uma venda preta nos olhos, feita de pano e carregava uma espada ensangüentada na mão direita.
A reação do vigia foi automática. Atirou o menino que havia prendido no chão e tentou alcançar sua arma que estava na cintura. Mas não houve tempo. A espada atravessou seu peito furando instantaneamente seu coração. A menina retirou a espada do cadáver, que despencou sem vida na calçada.
A mulher com o manto preto levantou-se e tocou o ombro da jovem com a venda nos olhos. Como se a tivesse dirigindo, levou-a para o lado e começou a andar. Parou ao ver o menino no chão, e a marca em sua mão. Um trevo de quatro folhas azul.
- Você - ela falou. - Você é de Clover também?
O garoto levantou a cabeça e olhou para a mulher. Acenou positivamente. A mulher com o manto negro abaixou-se e ofereceu a mão ao garoto. Ele segurou e ela o ajudou a levantar.
- Também vivia em Clover. Morei lá até... - ela baixou o rosto.
- Quem é você? - perguntou o menino, desconfiado.
- Eu? Meu nome é Morgana.
Ela então atirou o capuz para trás e longos e lisos cabelos pretos, brilhantes, caíram pelas costas do manto. Tinha um rosto bonito, embora uma cicatriz o percorresse do lado direito. Ela sorriu.
- Sou Nick - falou o menino, agora intimidado. - Meus pais estão mortos. Eu tinha que roubar para... - ele olhou para o corpo no chão. E então para a menina de cabelos loiros. - Você o matou. Por quê?
- Porque precisávamos - respondeu Morgana. - Não adianta perguntar nada a Sara. Ela não vai responder. Ela só fará aquilo que eu ache que ela deva fazer.
Nick baixou o rosto, encarando os pés no chão. Morgana era muito bonita, mas também o assustava de algum modo. Ele queria sair correndo dali, mas também não havia para onde ir. Ah não ser roubar de novo.
- Quer trabalhar para mim? - perguntou então Morgana.
O menino olhou para Sara pensativo. A menina que não se movia e tinha uma venda nos olhos de alguma forma o assustava também. Mas a voz de Morgana era bastante gentil. De modo que ele não resistiu e concordou com a cabeça.
Morgana sorriu gentilmente e começou a seguir em frente. Nick foi atrás.
* * *
Morgana estava em uma peça escura. Estava ajoelhada e com a cabeça baixa. Alguém a encarava por detrás de uma mesa cheia de folhas na frente dela.
- Como foi? - uma voz masculina perguntou.
- Estão todos mortos, meu senhor. A Sede da Ordem do bairro Alexandria não existe mais.
- Ótimo.
O homem então se inclinou para frente na mesa, e o rosto do general Kriegmann foi iluminado pela luz. Ele pegou um caderno a seu lado e começou a fazer anotações. Quando parou, levantou-se da mesa e encaminhou-se até onde Morgana estava ajoelhada e Sara estava em pé, imóvel.
- A morte do rei foi um presente dos céus. Gostaria realmente de saber quem foi o culpado, para agradecê-lo. Agora o sonho pelo qual meu pai morreu finalmente será possível.
Morgana ficou calada.
- Anselme III era amado pelo povo - continuou o general. - Até aqueles que não têm sangue puro de Sonata que ele desprezava o amavam. Com ele vivo nada poderia ser feito. Mas agora... - Kriegmann chegou perto de Sara e começou a alisar o cabelo da menina. - Agora, enquanto o Primeiro Ministro está no comando será mais fácil. O povo nem mesmo o conhece, é um estranho total. Quando um número considerável das Sedes da Ordem cair, o caos se instalará no reino. Será o momento de o Primeiro Ministro usar toda a força militar, aumentando ainda mais o caos. E é dentro do caos que nascem as revoluções.
- Então o senhor tomará o poder - murmurou Morgana.
- Exato. - o general a olhou, indiferente. - Diga, sua bruxa, quem é aquele garoto parado em frente à porta?
- Ele havia sido preso por um dos vigias que matamos, meu senhor.
- E por que o trouxe e não o matou? Ele é um cidadão puro de Sonata?
- Não senhor. Ele é... de Clover.
O rosto do general assumiu uma expressão de nojo.
- Mais um maldito parasita - falou. E então para Morgana. - Não esqueça, bruxa, para quem trabalha. Estou trabalhando muito para isso. É o melhor para Sonata. O sonho de meu pai. E sacrifiquei muita coisa por isso - olhou para Sara com um rosto triste. - Como minha pequena Sara. Minha própria filha.
- Entendo, meu senhor.
- Agora tenho que cuidar de outras coisas. Não se esqueça do que deve fazer. - ele começou a andar de volta para a mesa, e dirigiu-se para a porte além dela. - Apenas se o Primeiro Ministro tivesse morrido ontem.
- Meu senhor - falou Morgana, levantando a cabeça um pouco. - Tem certeza que não sabe quem foi o assassino de sua majestade?
- O que disse, bruxa? - perguntou o general sem se virar.
- Nada não senhor - Morgana sorriu.
Após o general sair, Morgana rapidamente foi até a mesa, pegou uma folha em branco e começou a escrever algo. Depois de terminar, virou-se para Sara. A menina estava parada como sempre. E com um gesto da feiticeira, ela se moveu.
* * *
Nick estava agachado, esperando na frente da porta no fim do beco exatamente como Morgana havia mandado. Brincava com insetos que passavam no chão tentando se distrair. Assustou-se quando a porta abriu repentinamente e dela saiu Morgana.
Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, a mulher jogou um envelope na sua mão. Ele olhou para o papel branco confuso quando ela colocou uma mão encima da outra. Quando separou as mãos, havia uma velha fada encima de uma delas.
- Você corre bastante, não? - perguntou Morgana.
Nick assentiu.
- Então siga essa fada. Ela vai encontrar uma garota. Quando ver essa garota, entregue este envelope a ela. Se bem a conheço, ela está procurando pelo culpado pela morte do rei. A encontrei uma vez, mas sei que ela é bem capaz.
Nick tentou falar, mas Morgana continuou:
- Há um palpite que tenho sobre esse caso. Acho que pode ajudá-la. E com isso, ela pode me ajudar. Só, você não deve falar que fui eu quem mandou a carta. Ela provavelmente quer me matar e rasgaria a carta na mesma hora. Diga que a carta foi mandada por um homem chamado Kelvin. E não importa para você quem é ele. Agora vá! Rápido!
Nick viu a fada começar a se mover na rua. Mas antes de segui-la, perguntou.
- E qual o nome dessa garota?
Morgana olhou para ele e falou, com um sorriso:
- Celine Rosso.
Capitulo 4 - Stradivarius e Guarnierius
Vindo de uma cidade desconhecida do norte, onde o frio predomina e a noite é eterna, um viajante solitário caminhava em direção aos portões principais da grande capital da música, Sonata. O viajante entrou na cidade acreditando encontrar uma cidade feliz, mas se enganou profundamente. Apesar de ser umas das mais belas cidades do mundo, Sonata não tinha alegria no ar, o viajante podia sentir isso.
- Senhor, precisamos do seu nome, depois da série de atos terroristas que ocorreram aqui, estamos registrando todas as pessoas que entram e saem da cidade, por segurança. - Falou a mulher que trajava um uniforme azul com o símbolo do governo de Sonata no peito, e longos cabelos castanhos amarrados em forma de rabo de cavalo. Ela era encarregada da segurança dos portões.
- Ah sim, meu nome é Spalla Stradivarius, quer ver minha identificação? - Tirou uma pequena identificação de uma de suas bolsas.
- Obrigado senhor Stradivarius, pode prosseguir e tenha uma boa estadia em Sonata. - Respondeu a jovem mulher enquanto tomava notas rotineiras na prancheta.
Andando pelas ruas de um bairro comercial de Sonata, tirou seu violino de seu estojo, olhou em volta, e colocou o estojo no chão. Era uma oportunidade de receber alguma gorjeta, nunca se sabe quando os moradores são generosos. E logo começou uma linda melodia em Pizzicato. De um em um os cidadãos que se encontravam no comércio se depararam com a melodia. Seus rostos mostravam paz de espírito e se sentiam de um jeito que simples palavras não podiam descrever. Mas não demorou muito até que essa calmaria fosse quebrada...
- Ei, você! O que pensa que está fazendo? A Ordem de Sonata proíbe a música! Você está preso por desobedecer o Primeiro Ministro Thomas Vancoor! - O soldado então corre para prender Spalla está, mas a multidão o atrapalha.
- Senhoras e senhores, preciso ir, ocorreram certos imprevistos em minha estadia aqui. Obrigado a todos. - Spalla guarda seu violino e corre na direção oposta do soldado, ele sente os projéteis das armas vindo em sua direção, mas se desvia deles com maestria. Ele corre em direção por entre os becos escuros e gélidos dos mercados, quando subitamente sente algo no ar... Uma aura especial.
Vendo que já se afastou dos guardas o bastante, Spalla corre a procura o ser que deixou aquela aura por onde passou. Ele o encontra, era apenas uma criança, mas prefere esperar de longe e ver o que se passa.
A criança corria pela rua estreita seguindo uma pequenina fada, carregava na mão uma carta e na outra uma marca curiosa. Na correria, acabou se deparando com o bando de soldados que procuravam o misterioso homem que tocara violino.
- Ei criança! Acho que conheço você de algum lugar... - Disse o guarda - Sim, é o pequeno ladrão que os comerciantes estavam reclamando! Venha cá! - Falando isso, um dos três guardas segurou o braço do menino. - Não vai escapar dessa vez, garoto.
Spalla queria permanecer no anonimato, mas não podia deixar o garoto sofrer por sua culpa. Jogou-se para a frente e gritou:
- Ei, vocês! Larguem esse menino!
- É você! O violinista de mais cedo! - Gritou outro soldado enfurecido. Spalla chutou o solado no rosto fazendo com que caisse ao chão desmaiado. Os outros dois soldados correram para agarrar Spalla, mas ele foi mais rápido. Puxou seu violino e começou a tocar uma melodia que os fez ficarem tontos e caírem ao chão.
- Como odeio usar a música para isso...
- Obrigado por me salvar, moço. - Falou o garoto, agradecido - Mas eu tenho que ir agora.
- Um momento. Antes me diga, garoto. Qual seu nome?
- Meu nome é Nick, senhor...
- Nos encontraremos novamente Nick. Até logo.
Falando isso, Spalla Stradivarius saiu apressado para uma rua na direção oposta. Ele pensava "Tenho certeza que ele é de Clover... ele tem a marca. Vejamos isso mais tarde, tenho coisas primárias no momento".
Spalla estava preocupado com o tempo. Para onde ia atrasos eram inadmissíveis. Puxou do bolso um relógio antigo que não possuía ponteiros, em vez disso, um número da primeira fileira que representava as horas e um da segunda que mostrava os minutos estavam acessas em seus devidos algarismos romanos; e marcavam 17:47.
- Oh, droga. – Disse Stradivarius. E se antes corria, agora passava como um raio entre os bairros apertados de Alexandria. Por pouco não derrubou uma humilde venda de frutas numa das ruas.
Não demorou muito e ele encontrou o que procurava. Era uma loja de violinos, de parede de pedra, uma janelinha redonda (que mostravam belas amostras de violinos) e uma porta de mesmo estilo. Ao lado da porta balançava uma pequena placa de madeira com desenho de violino e a escrita belamente entalhada: Stradivarius.
A porta estava sendo fechada, e Stradivarius pôs um pé no canto da porta para impedir que isso acontecesse.
- Pontual como sempre. – Disse Spalla.
Então um velho senhor que usava bengala e mantinha uma expressão carrancuda abriu lentamente a porta e disse:
- Atrasado como sempre.
- Oh, você sabe, intervenções do destino.
- Fechamos as seis em ponto. – Falava grosseiramente.
- Ah, mas claro que teria um tempo extra para um querido sobrinho. Além do mais, se meu relógio estiver certo, cheguei um minuto antes das seis. – E dizendo isso, entrou rapidamente pela porta. E sem ao menos pedir licença, retirou sua jaqueta e a pôs no cabide ao lado da porta.
- Cinco anos desde minha última visita... Aqui continua muito bem cuidado. Bem cuidado demais, eu diria.
- Não me venha com falsos elogios. Chegue logo ao ponto.
- Aconteceu uma pequena tragédia, querido tio. Guarnierus está ferida.
A expressão zangada do Sr. Stradivarius cedeu lugar a um olhar de espanto e incredulidade.
- O que você fez com Guarnierus?! Sabes bem que esta é minha melhor obra! Ouse destruí-la que lhe retiro todos os dentes com um machado de ogro, os colo novamente apenas para retirá-los mais uma vez! – ele gritava.
- Dê-me isto logo! – E bateu com a bengala na cabeça de Spalla, talvez mais forte do que devesse. Spalla massageou a cabeça, abriu seu estojo e a deu para seu tio, que com uma expressão preocupada a pôs sobre o balcão, colocou os óculos que estavam guardados em seu bolso, e pôs a examiná-la.
- Você abusou da terceira corda!
- Foram batalhas difíceis...
- Os ouvidos estão todos arranhados!
- Foram batalhas difíceis...
- O cavalete está amassado!
- Foram batalhas... – E dito isto o velho por mais uma vez bateu em sua cabeça com a bengala. Spalla voltou a massageá-la. O velho voltava a falar.
- Você não sabe o amor que um luthier emprega no artesanato de um violino! Guarnierus é uma peça especial. Não foi só um trabalho meu como também de nosso falecido Guarnierus! A mágica desse violino sobrepuja todas as outras criações de que tenho ciência!
- É possível consertá-la? – Disse Spalla verdadeiramente preocupado. Apesar de desleixado ele também mantêm um carinho muito grande por seu instrumento.
- Não posso.
A resposta acertou Spalla como um soco no estomago.
- Não brinques comigo, querido tio. Sei que você é o melhor luthier de todo este mundo!
- Mas dessa vez, eu realmente temo não ser possível.
- E por quê?
- Estou quase sem dinheiro, sobrinho. E desde que a música em Alexandria foi proibida quase não tenho tido clientes. Temo ter que me mudar daqui pouco tempo.
- Não permitirei que isso ocorra. Tens vivido aqui por mais tempo que eu tenho vivido nesse planeta. Por tudo o que me fizeste, te trareis o dinheiro.
- Não me venhas com promessas tolas!
- Não é tolice alguma. Você disse que a música foi proibida e que por isso está sem dinheiro, não é? Então te prometo que ou te trago dinheiro ou trago a música de volta a este reino.
- Palavras estúpidas. Não podes...
- Não duvides, tio. Farei todo o possível.
E pela primeira vez o Sr. Stradivarius mostrou alguma emoção.
- Sei que não tem onde ficar. Por hoje durma aqui. E deixe também Guarnierus, vou ver o que posso fazer.
Por um momento os olhos de Spalla encheram de lágrimas. Mas ele tratou logo de enxugá-las, e como se aquele momento confraternizador nem tivesse acontecido abriu a porta e saiu dizendo:
- Obrigado, querido tio! Volto mais tarde!
O Sr. Stradivarius foi apressadamente até a porta e disse:
- Aonde vai com tanta pressa, sobrinho ingrato?!
E da rua, Spalla respondeu gritando:
- Preciso procurar por um garoto que vi mais cedo! Até logo!
E o Sr. Stradivarius suspirou resignado.
Capítulo 5: A carta
Celine chegou cansada em casa. Se é que poderia considerar aquele prédio de bêbados uma casa. Naquela mesma noite, pouco antes de entrar, se deparou com a figura mais asquerosa e de certo uma das odiáveis de sua lista.
- Bom dia, minha senhora. – dizia o bêbado, impedindo a sua passagem.
Se a simples presença dele a deixava possessa, imagine chamá-la de senhora?
- Todo dia perto de você é um mal dia, Kelvin! Eu não sou sua e muito menos sou senhora! Agora saia da frente e me deixe passar!
- Oh, puxa – Soluçou por causa da cerveja que tomou em demasia – Hã... Eu posso te acompanhar até seu quarto?
- Como ousa!?
- Ora, vamos... Não será tão ruim assim ter uma boa companhia, será?
Aquilo havia tomado sua última gota de paciência. Celine o empurrou para o lado, ele caiu sobre o balcão, e de tão bêbado que estava, permaneceu por lá.
Celine odiava ter de morar ali. Aquele velho e pequeno prédio possuía apenas três andares. O primeiro era ocupado por um bar bastante freqüentado e os outros dois andares eram lotados de apartamentos de apenas um cômodo. Dois lances de escada acima ela chegou ao seu quarto no terceiro andar.
Era um lugar ruim, mas era tudo o que ela podia pagar – bom, isso era apenas provisório, pois ela bem sabia que logo seria a mais rica e famosa de toda a Sonata.
Celine estava bastante animada. O assassinato de Anselme III trouxe a ela a oportunidade que precisava. Ela pensava sobre as peripécias do assassino mascarado, que mais uma vez fez sua “arte”. Ele é alguém muito habilidoso, mas ela tinha suas habilidades, e se capturasse o assassino de certo seria recompensada com uma boa quantia em dinheiro.
Ao mesmo tempo em que estava tomada pela ansiedade, estava também louca para dormir. Pó-de-Estrela – que havia chego primeiro do concerto - já estava dormindo em sua gaveta almofadada quando ela chegou. E após pouco tempo, Celine seguiu o mesmo caminho. Atirou-se na cama e pôs-se a dormir.
***
Acordou no outro dia revigorada. Pó-de-Estrela havia acordado primeiro, e como fada ligeira que era, já havia preparado o café-da-manhã de Celine. Muitas vezes Celine se indagava como podia Pó-de-Estrela fazer um bolo sendo ela pequena demais para bater a massa. Após comerem, ambas desceram apressadas escadas abaixo. O térreo estava uma imundice, como de costume. E Celine abriu a porta com força.
Do outro lado da porta uma velha fada apontava na direção do prédio. Então, um garoto que carregava uma carta tirou seus olhos da fada e quando ia bater na porta, ela abriu bruscamente e acabou o empurrando. Ele caiu de bunda no chão.
- Oh, por Zíra! Me desculpe, pobre garoto!
- Não foi nada. – Ele disse, enquanto se levantava com a ajuda de Celine.
- Se machucou?
- Não. – Celine ficou um pouco conturbada. O garoto parecia faminto.
- Olha, tome... – pegou de um pedaço de bolo da sacola que carregava no cinto, o mesmo que Pó-de-Estrela havia feito naquela manhã – pegue esse bolo. Desculpe-me por tudo.
- Não se preocupe com isso.
- Qual o seu nome, garoto?
- Meu nome é Nick.
- Então, Nick. Mais uma vez me desculpe, mas preciso ir agora.
- Você conhece Celine Rosso? – Disse apressadamente.
- Eu sou Celine.
- Ah, sim. – Ele estendeu a mão que segurava a carta. – Isto é para você.
Celine pegou a carta e olhou rapidamente.
- Não há remetente. De quem é?
- É do Kelvin.
Celine emborreceu-se, mas não queria magoar o garoto.
- Pois bem, Nick. Fez um ótimo trabalho em me entregar. Obrigado.
- De nada. Obrigado pelo bolo.
Ela sorriu gentilmente e beijou-o a bochecha. Nick corou e disse desajeitadamente:
- Hã, sim... Obrigado e... Preciso ir. Tchau! – E pôs-se a correr. Celine ficou pasma com a velocidade do garoto. Mas agora que ele se foi, pôde fazer o que queria. E amassou a carta e jogou-a para o lado.
- Agora vamos, Pó-de-Estrela. Teremos um dia cheio.
E seguiram caminho.
***
Stradivarius tentava se lembrar onde havia se encontrado com o garoto. Sua memória não era muito invejável. Felizmente, após sucessivas tentativas ele chegou ao local. Mas não havia nada lá além do mesmo pobre prédio que vira na outra vez.
- Mas que diabo...
Spalla olhava ao redor. Não havia movimento ou muito que fazer. Quando viu um pedaço de papel em um canto, quase caindo em um bueiro. Lembrou-se então que o garoto carregava consigo uma carta, e curioso que era decidiu pegá-la com o pretexto de devolvê-la ao dono.
Estranhamente, não havia remetente no envelope. “Deve ser uma carta de amor”, ele pensou. E descaradamente retirou o lacre e pôs-se a ler o que estava escrito. Eis o que dizia:
"Celine Rosso.
Espero que ainda lembre-se de mim. Meu nome é Kelvin, nos conhecemos cinco anos atrás. De fato, você era apenas uma menina naquele tempo, e talvez haja coisas que não gostaria de relembrar da ocasião do nosso encontro. Mas com os acontecimentos atuais de Sonata, incluindo o assassinato de sua majestade, sinto-me na obrigação de partilhar conhecimentos com alguém.
De fato, é um assunto deveras delicado para levar ao primeiro ministro. De modo que lembrei da linda garotinha de treze anos que tanto me ajudou naquele tempo. Se naquela época, já era uma menina inteligente, suponho que agora pode me ser de grande ajuda. Eu peço que venha me encontrar, no antigo depósito bélico de Sonata, aqui em Alexandria. Venha amanhã pela manhã. Estarei esperando por você.
PS: Agradeça devidamente ao menino que lhe entregou essa carta. Ele é um mensageiro a meu serviço. Um garoto muito prestativo que possui uma fada que pode levá-lo a qualquer lugar. Não sei se você lembra, mas não me dou muito bem com coisas mágicas.
Ass.: Kelvin.”
Spalla terminou a carta confuso. Leu-a mais de uma vez parado em frente ao prédio pensando se o que havia encontrado era importante ou um texto sem sentido. Havia sido informado que houve acontecimentos indesejados no reino ao chegar, mas ninguém havia mencionado a morte do rei. Não que isso lhe importasse. A única coisa que lhe dizia respeito é que não poderia mais tocar suas músicas no lugar que mais deveria se sentir em casa para tocá-las.
Continuou olhando, e coçou a cabeça por alguns momentos. O menino Nick era então um mensageiro do tal de Kelvin. De modo que se Spalla queria encontrá-lo, o meio mais fácil seria indo ao lugar que a carta mandava.
Também não fazia idéia de quem era Celine Rosso. Mas acreditava que ela tivesse jogado a carta ali, por algum motivo. Ou, talvez, pensou ser mais provável, havia perdido. De qualquer forma, resolveu guardar o envelope no bolso e ir ao local marcado assim que o próximo dia chegar. Se esse Kelvin soubesse onde estaria Nick, Spalla consideraria ajudá-lo no que for preciso. Mesmo que fosse só encontrar a menina para quem a carta foi destinada e entregar-lhe o recado.
Ele desceu a rua, foi em busca de um hotel que conhecia da última vez que esteve no reino.
Capítulo 6: Início do Caos
O hotel Montaza ficava no bairro Suez, um bairro localizado ao lado de Alexandria. Assim como Alexandria era um dos bairros mais pobres de Sonata, Suez era um dos mais ricos. Era o maior centro comercial do reino, com lojas de todos os tipos, luxuosas, que atraiam a atenção de clientes ricos. Tal como era o Hotel Montaza. O conhecido maior e mais luxuoso hotel do reino todo. Visto com olhos desejosos por aqueles sem condições de encomendar um quarto por um dia; frequentado pelos mais ricos turistas que vão passar algum tempo na capital da música.
O hotel era uma construção ampla com mais de dez andares. Contava com o melhor da tecnologia para conceder aos clientes um conforto e satisfação que não encontrariam em local algum dentro das terras de Sonata. Era um prédio vermelho com uma grande porta de vidro na entrada que abria automaticamente quando alguém se aproximava. Acima da entrada, havia uma forma de espada de grande tamanho com os letreiros escritos na lâmina vermelha: HOTEL MONTAZA.
Era noite quando Spalla chegou em frente à incrível construção e lançou um olhar para o letreiro de identificação. Aprovando com um aceno e cabeça, encaminhou-se para a porta de vidro que abriu para sua entrada. Diferente dos outros clientes que iam diretamente para o balcão de registro do Hotel, Spalla dirigiu-se para o restaurante que ficava a frente. Ao invés de sentar-se em uma das mesas, porém, seguiu para o bar nos fundos. No caminho, ouviu pedaços de conversas dos clientes que apreciavam seu jantar:
“Você ouviu? A Sede da Ordem de Alexandria foi dizimada esta manhã, dizem que não ficou ninguém vivo.”
“Particularmente, concordo com o primeiro ministro. Se algo foi feita pela música, ela deve ser proibida para evitar que o mesmo aconteça novamente.”
“Ouvi dizer que um vendedor de instrumentos musicais foi preso hoje à tarde por deixar a música ambiente de sua loja ligada."
Quando finalmente chegou ao bar, uma bela jovem de pele meio morena e cabelos castanhos lisos caídos na altura dos ombros veio recebê-lo. Ela sorriu. No entanto, quando viu o rosto de Spalla, o sorriso desapareceu.
- Minha querida Mariani Wine, como você cresceu. - disse Spalla sentando-se na cadeira em frente ao balcão do bar. - Está trabalhando para seu pai agora, é?
- O que deseja, senhor Spalla? - disse ela asperamente.
- Um copo de cerveja, por favor. E uma boa conversa, se possível.
Mariani encheu um copo de cerveja e colocou-o com força encima do balcão na frente de Spalla, um pouco de cerveja derramou na madeira polida.
- Conversa está em falta no momento, senhor.
- Ora, ora, senhorita Wine, quanta frieza - Spalla pegou o copo e começou a beber aos poucos. - Preferia aquela doce menina que encontrei há cinco anos.
- O que você realmente quer, Spalla?
- Ora, o que eu quero? Sua companhia já é o bastante no momento, bela dama. Eu senti saudades, você sabia?
- O que você realmente quer, Spalla? - repetiu Mariani com a voz mais firme.
Spalla colocou o copo de cerveja sobre o balcão e sorriu. Olhou para os olhos castanhos claros de Mariani e falou:
- É, bem, você sabe. Pretendo ficar um tempo no reino e. sabe, preciso de um ligar para passar as noites...de novo...
- E você pretende pagar uma estadia no Hotel? O balcão de registro não é aqui.
- Bom, é... eu pensei se uma velha amiga me daria uma ajuda novamente. Você sabe, como há cinco anos. Você pode falar com seu pai e...
- Impossível! Você sabe muito bem que não há como conseguir uma vaga no hotel sem reserva.
- Ah, quanto a isso, tudo bem. Essa noite pretendo ficar no meu tio. Mas, você sabe, ele está passando por dificuldades financeira, e eu não gostaria de ser mais um peso para ele.
Mariani suspirou.
- Spalla, o que faz você pensar que poderá ficar aqui de graça?
- O mesmo que me fez pensar que fiquei da última vez...
- A última vez foi porque achei que estávamos noivos. Se quer um hotel para passar a noite, vá procurar em outro lugar.
Spalla fez uma expressão desanimada.
- Mariani, você, não me diga. Você realmente acreditou que iríamos nos casar?
- E por que não acreditaria? - Mariani encheu um copo de cerveja e começou ela mesma a tomar.
- Você era... uma criança.
- Eu tinha dezesseis anos.
- Pois então, uma criança.
Mariani bebeu um grande gole da cerveja. Estava agora com raiva. Olhou para o rosto de Spalla e falou:
- Você faz muito isso? Só porque eu tinha dezesseis anos você achou que podia me iludir da maneira que quisesse? Falar coisas bonitas e promessas vazias só para que eu peça a meu pai para deixar você ficar de graça? Pois esqueça, senhor Spalla. Durma na sarjeta se for o caso. Aqui você não vai ficar. E além do mais, agora estou noiva de verdade, e amo ele. Não vai mais me enganar.
- Eu... - Spalla não conseguiu falar nada.
Largou o copo com ainda metade da bebida encima do balcão e levantou-se do banco. Baixou a cabeça, desanimado e virou-se para ir embora. No entanto, parou, e de costas para Mariani, lhe disse:
- Você tem razão. Eu sou um idiota mesmo. Me desculpe por tudo, fui muito egoísta. Mas... eu realmente gosto de você. Não posso dizer que amo você, pois ainda lhe conheço pouco. Não poderia fazê-la feliz se estivéssemos juntos. Por isso deixei você ir. Mas realmente a estimo. Não gostaria de perder sua amizade, já que é uma pessoa muito querida para mim. Mas realmente, você tem toda razão. Eu a magoei. Tem todo o direito de me odiar. Irei para a casa do meu tio essa noite, amanhã procurarei outro lugar. Ou talvez durma na sarjeta, como você sugeriu. Sinto muito mesmo, senhorita Wine. Espero sinceramente que seu noivo a faça muito feliz.
Spalla começou a andar a passos lentos em direção a saída. No entanto, quando havia dado dois passos, Mariani chamou.
- Spalla!
Ele parou, sorriu, mas não se virou na direção da atendente do bar.
- Volte amanhã à tarde. Falarei com meu pai. Tentarei arrumar um quarto para você parar por algum tempo.
Quando se virou para ela, o rosto de Spalla estava sério de novo. Ele inclinou-se levemente para frente.
- Muitíssimo obrigado, senhorita Wine - falou, com um tom de voz agradecido. - Sou-lhe muito grato. Espero que você tenha muita felicidade nessa vida, pois é o que uma moça de bom coração merece.
- Outra coisa, senhor Spalla - agora Mariani falava sorrindo. - Eu menti. Não estou noiva de ninguém.
Spalla postou-se reto novamente. Sorriu, virou-se e saiu.
* * *
Era cinco da manhã quando Morgana saiu com Sara de dentro da Sede da Ordem do bairro Suez. Ela ainda vestia o manto com capuz escuro e Sara carregava a espada ensanguentada. O cabelo da menina também estava manchado de vermelho com o sangue que espirrou de um dos vigias no momento em que a espada passou por sua garganta.
Morgana deu uma olhava para trás para ver os corpos mortos no chão, embaixo da luz ligada da peça naquela madrugada escura. Sorriu e começou a andar a passos leves pela calçada, descendo a rua. Todas as magníficas lojas de Suez estavam fechadas naquele horário. Ninguém para testemunhar à feiticeira e seu fantoche caminhar pela rua, saindo da cena de seu crime. Havia somente uma testemunha. E quando passaram por um beco ali perto, Morgana chamou-a.
- Nick - ela falou, gentilmente. - Pode sair agora.
Nick saiu do beco. Vestia as mesmas roupas do dia anterior e parecia assustado. Havia resolvido que seguiria Morgana onde ela quisesse e trabalharia para ela. Mas sentiu as mãos tremendas quando viu a espada ensaguentada de Sara e seus louros cabelos manchados de vermelho forte.
- Nick, receberei uma visita essa manhã. As coisas podem ficar um tanto... complicadas. Então vá para algum e espere abrir para tomar café da manhã. Quando puder voltar, mandarei a fada lhe buscar.
Ela tirou do manto um saco com algumas moedas e jogou-o para o menino. Ele sorriu e saiu correndo, pensando qual o lugar que deveria servir o café da manhã mais gostoso.
Morgana esperou ele desaparecer na esquina e virou-se para o outro lado. Olhou para o cabelo sujo de sangue de Sara.
- Precisamos lavar isso. Além do mais, preciso ir encontrar Celine. Vai ser complicado...
* * *
Morgana deixou Sara sentada em uma cadeira ao lado de uma mesa no antigo depósito bélico de Sonata. Trouxe uma bacia de água morna e colocou encima da mesa. Gentilmente começou a lavar os cabelos da menina imóvel, tirando a tintura vermelha do sangue. Já estava subindo o sol e alguns poucos entravam por frestas do velho prédio. Morgana olhava para a porte fechada enquanto lavava os cabelos de Sara.
Quando terminou, ela largou a bacia no chão e ficou em pé na frente da menina com a venda nos olhos. Morgana retirou suavemente a venda e os olhos azuis sem vida de Sara passaram a fitar o vazio na frente dela. A mão de Morgana tocou a testa da menina com um dedo e fez um pequeno arranhão com a unha. Um filete de sangue começou a escorrer pelo seu rosto.
A feiticeira pegou um pingo do sangue e colocou em um pequeno recipiente de plástico.
- Para alguma emergência - murmurou.
Pegou então a bacia que estava no chão para lavar o rosto de Sara que havia se sujado de sangue. Quando passou as mãos na testa dela, o pequeno arranhão fechou-se.
* * *
Spalla parou em frente ao antigo depósito bélico. Antes não tinha idéia de onde ficava, mas seu tio explicou-lhe, sem perguntar o motivo do sobrinho querer saber a localização do local. Era um prédio de concreto velho, em meio às lojas pobres de Alexandria. Era sete da manhã, o sol já havia nascido e preenchido as ruas com luz e calor. Embora o tempo estivesse razoavelmente frio.
Como acontecia desde que o rei foi assassinado, as ruas estavam tristes. Nem uma única melodia era ouvida, nem pessoas conversavam. Todos decidiram por ficar trancados dentro de casa do que sair para um reino silencioso. Spalla os entendia. Também amava música e sentia falta dela naquele momento. Queria muito fazer algo para ajudar Sonata a voltar a ser alegre como uma vez ele viu. Mas para isso, precisaria achar o assassino do rei, e não tinha nem por onde começar. De modo que decidiu focalizar em outro objetivo: O menino de Clover.
Chegou à porta e imaginou se não seria algum tipo de armadilha. Estava totalmente desarmado, seu violino havia ficado com o tio. Não havia pensado na possibilidade de uma armadilha até o momento em que viu o prédio. O visual rústico e sombrio do prédio dava a macabra impressão de que estaria em uma emboscada se entrasse. Kelvin poderia ser um ladrão, ou um assassino qualquer. Celine poderia ser só a vitima.
Mas desse modo, Spalla percebeu que se entrasse, não seria atacado por não ser a vítima esperada. E realmente precisava encontrar o menino de Clover.
Colocou a mão na porta e a empurrou. Era pesada. O ar frio da manhã logo cedeu lugar a um calor que havia lá dentro. Estava escuro, somente uma luminosidade nos fundos da peça. Partículas de poeira voavam em desordem por todo o ambiente e Spalla sentiu vontade de espirrar por um breve momento.
A luminosidade era uma pequena lareira acesa no chão no fim do depósito. Havia uma mesa e cadeiras em frente a ela. Em uma das cadeiras sentava uma jovem garota de cabelos loiros e uma venda preta nos olhos. Encima da mesa sentava uma mulher com as pernas cruzadas, encarando Spalla. Era bonita, apesar da cicatriz do lado direito do rosto. Estava vestindo um manto escuro e tinha longos cabelos pretos que brilhavam na luz do fogo.
Spalla admirou-se. Deu alguns passos para frente, para melhor ser ouvido.
- Ei - ele acenou.
Morgana nada falou e continuou a encará-lo. Spalla retirou então do bolso a carta e ergueu-a na para cima.
- Isso - ele falou. - Você é Kelvin?
Morgana sorriu, e perguntou em um tom sarcástico:
- O que você acha?
- Bom, sinceramente, eu acho que não.
- Também tenho a impressão de que você não é Celine.
Morgana desceu da mesa e deu alguns passos para frente, permanecendo na frente de Spalla. Ela colocou a mão no ombro do violinista.
- Você sabe - ela falou, ainda sorrindo. - Se me conhecesse, saberia que não é sábio deixar que eu faça isto?
- Por quê? - quis saber Spalla.
- Sou Morgana. Uma feiticeira. Minha magia é feita através do sangue. Conseguindo uma gota de seu sangue, poderia fazer seu coração explodir, e então controlar seu cadáver. Tal como acontece com meu lindo fantoche - apontou com a mão para Sara sentada na cadeira.
Spalla afastou-se.
- Ah, bom, sim, entendo - ele sorriu. - Mas é uma feiticeira muito bonita, me desculpe a sinceridade. Eu realmente não consigo imaginar uma dama tão bela fazendo algo horrível como matar alguém.
- Não? - Morgana virou-se de volta para a direção da mesa. - O que me diz de duas Sedes da Ordem inteiras? Alexandria e Suez?
- Você? Foi você?
- De fato, fui... - Morgana sentou-se na mesa de novo. - Um belo trabalho, você não achou?
- Você - Spalla deu um passo decidido para sempre. - Você assassinou o rei também?
Morgana o olhou, divertida com a pergunta do homem. Jogou com uma das mãos os cabelos para trás.
- Não. Meus últimos crimes são somente as Sedes da Ordem. Anselme III encontrou seu fim por meios que desconheço. Deixando isso de lado, senhor, o que faz aqui? Como falei, creio que não seja Celine Rosso.
- Achei esta carta jogada no chão.
- E a leu?
- Sinto muito, bela dama...
- Meu nome é Morgana. Chamar-me de qualquer outro modo é um desrespeitoso
- Sinto muito, Morgana. Mas, você sabe. Eu vi essa carta nas mãos de um menino. E eu estava a sua procura.
- Um menino, é? Você quer dizer Nick. Infelizmente, ele saiu. E não vai voltar até que eu mande. De qualquer forma, o que a carta estava fazendo no chão? Celine Rosso não a leu?
Spalla deu de ombros.
- Será que ela desconfiou de algo? - Morgana entrou em estado pensativo.
Spalla continuou a observá-la. Algo na mulher havia chamado sua atenção desde o momento em que a viu. Não conseguia identificar o que era. Algo em sua presença. Algo que lembrava ter sentido muito recentemente. Não eram os poderes mágicos. Spalla era inútil quando se tratava de sentir as habilidades de outras pessoas. Na verdade, o violinista tinha uma habilidade um pouco incomum. Ele podia sentir a energia vital de cada ser humano. Com isso, podia dizer de onde aquela pessoa vinha, visto que em cada local do mundo, as pessoas nasciam com características particulares, sentidas somente em sua energia vital.
De repente, o que lhe chamou a atenção de Spalla clareou-se em sua mente. Era fraco, mas estava lá. Ele ficou animado.
- Com licença - ele falou, dando um passo a frente. - Sinto que fui muito rude em ainda não ter me apresentado, bela da... hã, Morgana. Sou Spalla Stradivarius. Sou um violista, no momento sem violino. E sem poder tocá-lo por aqui de qualquer modo.
- O que quer? - perguntou Morgana, irritada.
- Não pude deixar de perceber. Você é de Clover, certo? Assim como o menino, Nick.
- Sou - Morgana o olhou, curiosa. - Como descobriu?
- Tenho uma... habilidade, Morgana. Eu posso sentir. De qualquer modo, fico feliz por ter encontrado alguém de lá. Você sabe, eu conheci alguém de Clover uma vez, e queria saber sobre essa pessoa. Saber se poderia encontrá-la de novo e...
- Impossível - Morgana o interrompeu. - Clover não existe mais.
- Eu sei disso, mas...
- Quase todo mundo de Clover está morto. Eu e Nick seremos provavelmente os únicos de lá que você encontrará em sua vida.
Spalla pareceu desanimado. Olhou para a mulher e imaginou porque sua presença demonstrava traços tão fracos de sua morada em Clover. Nunca havia visto algo parecido antes. É como se ela tivesse nascido em dois lugares diferente. Então lembrou.
- Sua marca. O trevo azul. Eu poderia ver?
Morgana desceu da mesa. Deu alguns passos para frente e o encarou, séria.
- Esta marca não existe mais.
- Como assim?
- Ela se foi - e ao falar isso, Morgana colocou a mão na cicatriz ao lado direito do rosto.
- Ah! - exclamou Spalla. - Mas, aqueles que possuem a marca no rosto são...
- Parece que entende muito de Clover - Morgana o examinou bem. - Você pode me ser ainda mais útil do que Celine. Diga-me, o que sabe sobre a magia de Clover?
- Clover é, muitos dizem, o berço de toda a magia moderna. Quase toda magia avançada usada em todo o mundo hoje teve sua origem lá. Antes de o lugar ser destruído, era o local para onde todos aqueles que queriam aprender algum tipo de arte mágica iam. Era onde ficava localizada a melhor escola de magia do mundo. Eu mesmo estudei lá com o violino por algum tempo. Meu tio só pode se tornar o que é hoje pelo ensinamento que recebeu de lá.
- Isso é certo - falou Morgana, tinha um ar um tanto arrogante agora. - É bom ouvir as opiniões de alguém neutro, de fora de Sonata, de vez em quando. Alguém que não está cego pela idéia de sangue puro do reino. Além disso, você será sim, muito útil. Pois o que eu tinha para dizer a Celine diz respeito a Clover. E você não quer me matar como ela.
- Mas sinto dizer, isso não é do meu interesse.
- Não é do seu interesse que a música volte a ser tocada em Sonata?
Spalla ficou em silêncio. Lembrou-se da promessa que fez ao tio. Mas mesmo isso não o fez livrar-se da insegurança que tinha em fazer qualquer tipo de trato com aquela feiticeira. Algo em Morgana não inspirava confiança.
- Precisa de um estimulo melhor? - Morgana perguntou, chegou muito perto de Spalla e falou em voz baixa. - Você deve saber, pois eu tinha a marca no rosto. Mas direi para confirmar. Não havia ninguém em Clover que conhecesse o povo de lá mais do que eu. Não faço idéia de quem é a pessoa que você procura, mas se ela vivia em Clover, eu provavelmente sei algo sobre ela.
Spalla pôs-se a pensar. De fato, sabia que Morgana poderia ajudá-lo. Sabia muito de Clover para saber que alguém na posição dela provavelmente sabia o destino de cada um dos habitantes. Mas ainda sentia receio em fazer um acordo com uma feiticeira tão pouco confiável.
- O que eu deveria fazer? Que tipo de trato quer firmar?
Morgana afastou-se dele.
- Simples negócios. Você sabe, eu trabalho para alguém. Alguém que não posso lhe contar quem é ainda. De modo que tenho muito pouca liberdade para fazer qualquer coisa sozinha. Logo no momento que ouvi a música que matou Anselme III, eu percebi. Eu a conhecia. Mas não sabia o que fazer até encontrar Nick, alguém que seria um ótimo mensageiro.
Morgana voltou a sentar-se na mesa.
- Eu simplesmente irei lhe guiar, e você descobrirá o verdadeiro assassino. Claramente, eu lembro que a música que tornou possível o assassinato do rei foi produzida em Clover. Inclusive, eu conheci seu criador. Não sei quem a está usando agora, embora seu criador me falou naquele tempo que era o único que tinha capacidade de usá-la. Bom, é impossível que seja ele, já que morreu alguns anos atrás. Ele não era de Clover. Só estudou lá, como muitos.
- Bom, e o que eu deveria fazer?
- Eu conheço o filho dele. Ele mora em Sonata no momento. Se alguém pode saber quem está usando essa magia, é o filho do criador. Então, Spalla, o que quero saber é, vai trabalhar junto comigo? Por uma informação sobre a pessoa que procura e pela volta da música em Sonata?
Spalla pensou em um breve instante, mas agora as dúvidas não mais estavam nele. Acenou positivamente com a cabeça e afirmou.
- Farei o que pedir, então. Me diga onde ele mora e irei lá ter uma conversa com ele.
Morgana sorriu.
* * *
Em Damanhur, um bairro um tanto longe de Alexandria e Suez, um casal caminhava pelas ruas desertas às onze da manhã. A mulher carregava uma sacola de compras que haviam feito em um supermercado e o homem andava alguns passos a frente dela, de mãos vazias, olhando para as casas ao redor.
- Você lembra do que eu falei para você quando o rei morreu, Cassidy? - perguntou o homem, que era alto, tinha os cabelos pretos espalhados desordenados pela cabeça e vestia um terno e calças pretas. Ele tinha vinte e seis anos e andava despreocupadamente bem no meio da estrada vazia.
- Lembro, Clyde - respondeu, sorrindo, Cassidy. Era uma jovem de vinte e quatro anos. Tinha os cabelos castanhos compridos. O rosto tinha traços leves que lhe davam uma expressão infantil. Usava óculos e vestia uma camisa e uma saia que ia até as canelas brancas. Carregava a sacola pesada de compras com as duas mãos. - Lembro que você disse: "Isso virará problema, Cassidy. Sei que irá virar. Sonata já está na corda bamba por muito tempo. Um pequeno desequilíbrio e tudo irá desabar. Muita gente vai se aproveitar dessa situação, Cassidy, escuta o que eu digo." Então eu disse: "Será que um tom fraco de vermelho ficaria bom aqui? Ou talvez um tom forte?" Então você disse: "Ora dane-se, sua idiota. Você e seus malditos desenhos. Não está nem prestando atenção no que estou falando." Então eu disse: "Estou sim, você disse: "Isso virará pro...
- Certo, entendi. Cale a boca, por favor - pediu Clyde. - Sua memória está perfeita como sempre, mas isso irrita, sabia? Sua idiota.
- Desculpe Clyde - Cassidy baixou a cabeça e continuou a andar.
- Mas você tem que prestar atenção no que falo. Não só ouvir. Veja só, Cassidy. Vancoor proibiu a música. A Sede da Ordem de Alexandria foi dizimada ontem, e acredito que isso é só o começo. Já começou. Você sabe no que isso vai se tornar?
- Não.
- Mas você é burra mesmo, sua idiota! Isso vai ser um caos. O povo de Sonata precisa de música. É questão de tempo até algumas pessoas tentarem mudar isso. E então, quem controlaria uma revolta popular?
- Os Vigias da Ordem? - tentou Cassidy, insegura.
- Normalmente seria. Mas você é tonta como sempre e não percebeu o que vai acontecer. Cada vez mais Sedes da Ordem serão destruídas. E quando o caos começar, não haverá ninguém para detê-lo a não ser o Exército Imperial. O que é um problema. O exército é treinado especialmente para matar. Não saberiam como lidar com civis.
- Então é esse o plano do assassino?
- Não, sua idiota! Como pode ser tão ignorante? Ouça o que digo! Eu disse, muita gente irá se aproveitar disso. O assassino do rei o matou de um modo. A Sede da Ordem caiu de maneira diferente. São dois casos diferentes. Este é o problema. O governo não poderá acabar com tudo. Quando trabalhei para Anselme III, percebi que o governo todo de Sonata tem idéias diferentes. As idéias de Vancoor eram diferentes da de sua majestade. As idéias de Kriegmann eram diferentes da de Vancoor. E todos lutaram por aquilo que acreditam até o fim. É esse o caos. Este reino está em instabilidade no momento. Será que me entendeu agora, idiota?
Cassidy deu de ombros. Clyde suspirou.
- Mas - a voz de Cassidy fez-se ouvir. - É triste mesmo. Esse silêncio. - ela olhou para a rua toda deserta, podia até mesmo andar no meio da estrada, como fazia. - Mas sinto mais pena dos músicos.
- Dos músicos? - indagou Clyde.
- É. Se eu fosse proibida de desenhar ou pintar, não sei o que faria.
Clyde acenou com a cabeça, em sinal de aprovação. Ele realmente achava Cassidy inteligente. Mas se preocupava com sua ingenuidade. Ela tinha uma memória fotográfica e desenhava perfeitamente. Mas fora de seus desenhos, lhe faltava imaginação. Ele a xingava porque se importava com ela, porque gostava dela. E Cassidy sabia disso.
Alguns metro à frente, ela voltou a falar.
- Ei, ei, Clyde. A música foi proibida, mas e se eu quisesse somente cantarolar. O que aconteceria?
- Imbecil. Vancoor falou qualquer tipo de música. Ele é doido, provavelmente até isso impediria.
- Mas, mas, eu posso tentar, não?
- Que seja. Só não me arrume problemas, idiota.
E a partir daquela parte do caminho, Cassidy começou a cantarolar o tempo todo. Clyde não se importou, apesar de não demonstrar aprovação. Ele achava, afinal, a voz de sua esposa linda. E aquela voz o acompanhando para o caminho até em casa era relaxante. Logo chegariam, e ele estava morrendo de fome.
Perto de casa, porém, um Vigia da Ordem estava passando. Ao ver Cassidy cantarolando, fez um sinal com a mão.
- Ei, você, sua idiota! Está proibido música em Sonata. Você não sabe?
Cassidy parou assustada, mas Clyde parou e ficou na frente da mulher. Seus olhos mostravam que havia ficado irritado.
- Caro senhor - falou, dirigindo-se ao vigia. - Peço que não insulte minha esposa de modo algum, por favor.
- Hein? - exclamou o vigia. - Você pede o quê? Quem você pensa que é? Garoto inútil!
- Peço que retire o que disse a ela, por favor. Ou terei que tomar uma decisão que não me alegra muito.
O Vigia sacou sua arma da cintura e apontou-a para o peito de Clyde. Suas mãos tremiam de raiva. E os olhos faiscavam.
- É muita ousadia, garoto! Você quer morrer aqui agora.
Cassidy no mesmo instante investiu para cima do Vigia, tentando separar sua mão da arma. Ele era mais forte, porém, e a empurrou para o lado. A sacola de compras foi jogada longe e a jovem mulher caiu no chão e bateu o braço no asfalto. Sangue começou a escorrer pelo machucado e ela fez uma expressão de dor.
O Vigia sorriu. E o sorriso só desapareceu quando ele voltou a olhar para Clyde. O rosto dele exibia uma cólera que o Vigia nunca havia visto em ninguém antes.
- Você ousou machucar ela? - a voz dele era raivosa. - Ousou derramar sangue de Cassidy? Ousou feri-la? Fazer algo que nem eu nunca teria coragem? Desculpe-me, mas não tenho escolha.
Sem tempo para dar risada da ousadia do civil, o Vigia sentiu o punho de Clyde em seu rosto. Não chegou a sentir dor, pois apagou no momento em que recebeu o golpe com uma força que nunca havia sentido antes. Seu corpo caiu na estrada e ficou desacordado no chão.
Clyde ficou em pé fitando-o, com o rosto ainda retorcido de raiva. Mas a voz de sua esposa o chamou para fora de sua cólera.
- Ahhhh! - ela gritou.
- O que houve? - gritou de volta Clyde, virando-se assustado.
Cassidy estava já em pé, com a sacola na mão e olhava para dentro dela.
- Os ovos quebraram. Todos eles. Desculpa Clyde, não poderei fazer panquecas para o almoço. - ela o olhou com um rosto triste.
- O quê!? - exclamou Clyde. - Não pode ser! Vamos voltar ao mercado! Vamos comprar mais!
- O mercado já está quase fechando. Não dá tempo!
- Droga! Sua idiota! Por que não segurou essa sacola direito, sua imbecil?
- Desculpe!
- Ahhh! Maldito Vancoor! Vamos embora logo.
E os dois seguiram para o caminho de casa. Quando Cassidy passou por Clyde, porém, ele olhou para seu braço que havia parado de sangrar e perguntou se ela estava bem. Cassidy sorriu e disse que estava ótima. Havia algo mais sobre Cassidy além de sua memória. Sua resistência era incrível.
* * *
Kriegmann chegou à porta do escritório de Vancoor. Era meio-dia e meia e ele havia almoçado apressadamente. Achava que Vancoor devia pedir para vê-lo em horas mais conveniente. Mas sabia que o Primeiro Ministro tinha manias estranhas. E não que isso fosse durar muito afinal.
Ao seu lado havia um homem com a pele clara e cabeça calva. Usava uma jaqueta azul forte por cima da camisa preta que vestia. Tinha o rosto firme, aparentando também ser alguém de muita inteligência. Era jovem, porém. Tinha vinte e quatro anos e era novo no trabalho que exercia. Embora muitos dissessem que era o melhor.
Kriegmann abriu a porta e foi até a mesa onde Vancoor estava sentado, lendo alguns relatórios. A mesa do primeiro ministro estava desarrumada, como estava quase todas as vezes que o general esteve lá.
- Pontualidade é uma virtude, general. - falou Vancoor, asperamente. - Mas está aqui agora. Quero ser informado do que está sendo feito para o caso do assassinato de Anselme III. E por que ainda não encontraram o culpado.
- Sim, senhor - respondeu o general, em sua postura firme. - Inspetor Hercule aqui ao meu lado está investigando o caso. Trouxe-o para que fale diretamente ao senhor.
- Pois então, ande logo, fale - ordenou o primeiro ministro.
- Pois não, senhor Primeiro Ministro - respondeu Hercule em uma postura tão firme quando Kriegmann. - Infelizmente ainda não tenho idéia de como ele conseguiu se infiltrar no desfile de sua majestade e no réquiem. Também não sabemos como ele saiu desses lugares despercebidamente.
- Ou seja, não descobriram nada.
- Não é bem assim, senhor. Descobri algo sobre a música. A que tocou no réquiem e no assassinato. Aquela música se trata de uma magia muito complexa e avançada. Que, como tantas outras, originou-se em Clover.
Vancoor fez uma careta.
- Clover de novo? Não estão todos mortos?
- Estão, senhor. Mas o homem que desenvolveu essa magia não era natural de Clover. Sendo que não estava junta na... bom, você sabe.
- Então é isso! - afirmou Vancoor. - É ele o assassino!
- Infelizmente é impossível, senhor. Ele está morto. Morreu há alguns anos atrás.
Vancoor desanimou.
- Então, não descobriram nada útil.
- Senhor. Se me permite discordar. Descobrimos o paradeiro de seu filho. Ele está aqui em Sonata.
- Isso é bom. E, alguém já foi mandado ao seu encontro?
- Não senhor. Na verdade, eu espero ir pessoalmente.
- E por que ainda não foi?
- Porque General Kriegmann me chamou para falar com o senhor logo depois que descobri sobre isso.
Vancoor olhou irritado para Kriegmann, ignorando o fato de que ele que o havia chamado primeiramente.
- Pois então, esqueça isso. Vá fazer seu trabalho. E traga boas notícias.
- Pois não senhor. Mas se me permite somente constatar algo.
- Fale...
- A magia de que estamos falando tem alto alcance. E defesa nenhuma pode detê-la. De fato, ela pode ser tocada fora do reino e chegar vivamente aqui. De modo que acho que a proibição da música em Sonata seja no momento um tanto inú...
- Se me permite interromper, Primeiro Ministro - Kriegmann falou rapidamente. - Inspetor Hercule está equivocado. Ele é um grande inspetor, é claro. Mas ainda é inexperiente. Acho que romper a proibição nesse momento é facilitar as coisas para o assassino agir livremente, sem ser identificado.
- Kriegmann tem razão - falou Vancoor, com uma careta por ter concordado com o general. - A proibição continuará até que esse assassino seja encontrado. E espero que isso seja logo. Agora estão dispensados.
- Sim senhor - falaram os dois, e viraram-se para sair.
- Antes que vá - Vancoor falou. - Qual todo seu nome, inspetor?
- Rosso, senhor. Sou o Inspetor Hercule Rosso.
Continua...

