Quarta-feira, Maio 6

Sonata!

Sonata!




Obra de Otto, Gerson, Matheus e Omaruk


Prólogo

Ele andava de um lado para outro ansioso pelo que estava por vir. Ora, após tanto tempo aguardando e preparando seu meticuloso plano essa era uma reação normal. Afinal, finalmente Ele mostraria a todos o quão ridículo é terem esquecido a beleza da harmonia, da liberdade e da sabedoria que apenas a música pode prover.

Ah, mas Ele iria orquestrar um espetáculo para que todos apreciassem do fundo de suas almas.

E que espetáculo memorável esse viria a ser...


Capítulo 1: O Desfile

Toda a avenida estava apinhada de pessoas e outros seres que se espremiam e empurravam para ver um dos nomes mais importantes do planeta, Anselme III, o rei de Sonata. Seu nome era de tão grande importância que quando se locomovia para outro lugar havia sempre um desfile para venerá-lo. Havia uma restrição para mestiços e híbridos. Somente puros-sangues de Sonata poderiam vê-lo nos breves cinco minutos em que sairia de seu luxuoso carro preto para acenar para a população.

Aquele também não era um evento comum, era a primeira vez que alguém de tamanho prestígio passaria por um lugar tão pobre em toda a história de Sonata. A rua só foi recentemente pavimentada e apenas onde Anselme III passaria, de resto, o que havia de rua foi graças ao esforço de alguns que se uniram para colocar pedras no chão e fixá-las com um barro especial. Os donos das lojas e casas que havia ao redor do curso do desfile tiveram que reformar suas propriedades via decreto, e como eram pobres demais para isso, metade da rua foi presa e tiveram seus bens tomados para ‘melhoria em prol de uma cidade mais bela’, como anunciava o Governo.

O momento que todos esperavam estava próximo de chegar. Já passaram por aquela rua o Primeiro Exército Imperial, os melhores do Grande Circo, a Banda de Noitra, e três carros de segurança atrás, estava Anselme III. Os guardas que vigiavam na rua e os atiradores que cercavam a área estavam em seus devidos postos, prontos para qualquer adversidade que pudesse ocorrer. Mesmo o carro de Sua majestade era envolto de espessas camadas de vidro especial capazes de deter quase toda magia ou forma bélica que existisse.

O sino badalou o meio-dia. Uma música surgia de algum lugar longínquo e foi preenchendo o ar. Era bela e suave. E todos passaram a gostar dela e se sentirem emocionados e energizados pela magistral sinfonia...

O teto solar do carro de Sua majestade abriu para que ele pudesse se exibir. Sorrindo, o velho e rico rei apareceu de cima seu carro enquanto esperava pela explosão dos fogos de artifício, mas nada apareceu. Ao passo que o rei acenava, a bela música foi aumentando e se tornando cada vez mais aguda. E logo ficou alto e estridente o suficiente ao ponto de obrigar todos que estavam ali – incluindo o rei - a taparem os ouvidos. O som foi se expandindo. As pessoas já estavam ajoelhadas ao chão, abafando o som, agonizadas e torcendo para que ele cessasse logo, mas ele parecia não ter fim. E logo alcançou uma nota tão alta que todas as vidraças das casas e lojas ao redor foram sendo estilhaçadas na mais perfeita ordem.

E quando finalmente alcançou o carro de Anselme III, o vidro de seu carro estourou. Agora desprotegido, o rei pôde visualizar por um momento uma janela não muito longe de um pequeno e pobre prédio. Nele, um de seus supostos atiradores, mirava a arma para sua cabeça, e disparava. No mesmo momento em que o rei desvanecia, a música cessou e os fogos finalmente explodiram em alegria no ar. E assim o rei caiu por cima dos estilhaços de seu carro, morto.

As pessoas choravam, os secretários e ministros se desesperavam, mas a realidade era uma só, e ali estava, na forma de uma tragédia recaída sobre aquele que um dia foi o símbolo máximo de poder e nobreza. O sangue de Anselme III significava mais do que a sua vida, era o pilar principal de todo um reino, e com as bases fragilizadas, bastaria um simples descuido para que toda a estrutura ruísse. Exatamente como planejado...


Capítulo 2: Silêncio!

- Isso não pode ser tolerado!

O primeiro-ministro Thomas Vancoor estava com o rosto rubro, num misto de desespero e raiva que lhe dava um aspecto de quem estava prestes a ter um enfarte. Apontou com o dedo trêmulo para o General Kriegmann.

- Exijo explicações! Como pode deixar que um assassino se infiltrasse entre a tropa de elite da segurança real, cometesse um ato de tamanha ousadia e escapasse sem deixar vestígios? Ou o sujeito tem super poderes ou você é ainda mais incompetente do que eu pensava! E não me faça dizer em qual das duas opções eu aposto!

Kriegmann mantinha-se irredutível, com a postura de um verdadeiro militar. Estava acostumado com os insultos por parte de Vancoor, com quem não tinha um histórico muito invejável.

- Estou tão confuso quanto o senhor. Tinha certeza de que a segurança estava impecável.

- Por que não foram imediatamente atrás do atirador?

- Fizemos isso, senhor... Porém não encontramos sequer rastro dele. Além disso, revisando os planos de segurança percebi que não havia nenhum de nossos homens posicionado naquele local.

- E aquela melodia? De onde veio?

- Também não sabemos.

Vancoor sentou em sua cadeira e colocou as mãos no rosto. Ergueu o olhar e disse ao general:

- Devo entender que esse sujeito surgiu do nada, assassinou o nosso rei e desapareceu no ar?

- Infelizmente é algo muito próximo disso, senhor.

Vancoor levantou-se e olhou pela janela. A cidade inteira estava de luto pela morte de Anselme III. Tudo havia acontecido muito depressa. O som estridente, o tiro, a ruína. Todos se sentiam impotentes diante do criminoso.

- O mínimo que podemos fazer é prestar as devidas homenagens ao rei. - Disse, com a sombra do fracasso cobrindo o rosto. - Amanhã realizaremos um concerto no Grande Teatro de Sonata, e, a partir daquele momento, todo tipo de música será proibido até que encontremos o culpado.

O general concordou e retirou-se. Vancoor estava tão preocupado que nem sequer notou a pequena figura alada que saiu de seu esconderijo atrás da cortina e precipitou-se para fora da janela.

***

A pequena fada seguiu sobrevoando os telhados do reino. As ruas ainda estavam movimentadas, apesar de já passar da meia-noite, mas todos os que passavam tinham um ar de tristeza em seus rostos. Seguiu em direção a um edifício onde alguém a esperava. Uma garota ruiva, de cabelo não muito longo e de olhos cor de esmeralda. A fada pousou sobre seu ombro e lhe transmitiu aquilo que havia presenciado:

- Vancoor deve estar ficando louco! Vai realizar um concerto amanhã e depois proibir qualquer tipo de música, a menos que encontrem o culpado.

- Ora, Pó-de-Estrela, você sabe que Tommy nunca bateu muito bem. Aquele velho já é caduco de nascença.

- O que vai fazer?

- Bom, se há um criminoso, há recompensa pra quem o encontrar. Acho que essa é a grande chance de fazer o nome Celine Rosso ser conhecido pelos quatro cantos de Sonata. Fama e fortuna, minha amiguinha, nada menos do que eu mereço.

- Mas se nem mesmo o governo conseguiu encontrar esse cara, como você pretende fazer isso sozinha?

- Ah, Pó-de-Estrela, o seu problema é ser pessimista demais. É tudo uma questão de vontade.
- Se você diz...

- Bom, a noite é uma criança. Vamos encantar um pouco essas ruas antes que essas pessoas morram de tristeza.

Celine pegou seu violino, desceu até a rua e começou a tocar, ao mesmo tempo em que caminhava pelas ruas menos movimentadas. Uma alma vermelha com sua melodia encantadora.

***

Chegou enfim a noite do concerto. As pessoas se agitavam em frente ao Grande Teatro, algumas fadas voavam agitadas, com seus risinhos característicos. Celine entrou no auditório e sentou-se na fileira mais perto da porta, onde tinha uma visão maior do auditório em si. A parte do espetáculo que a interessava não estava no palco.

Aos poucos a orquestra foi entrando, e assim que todos estavam calados em seus lugares, o maestro deu o sinal para o início de um réquiem em homenagem ao falecido rei. A música era incrivelmente bela e incrivelmente triste. Logo quase todos os presentes estavam com lágrimas escorrendo dos olhos.

Porém, algo inesperado aconteceu.

O maestro percebeu que havia um violinista a mais do que o esperado. Isso seria preocupante, mas o mais assustador é que o violinista em questão estava sentado num canto mal-iluminado do palco, e usava uma máscara branca e uma cartola. O maestro fazia o possível para não esboçar nenhuma reação, mas o suor frio lhe escorria nas têmporas e na testa. Como se não bastasse o assombro, o violinista começou a sair de sincronia com o restante da orquestra. Tocava uma melodia completamente diferente, que ia ficando mais aguda a cada compasso. A platéia percebeu a presença da figura misteriosa e ficou paralisada. Todo o Grande Teatro parou para contemplar a melodia macabra. Logo o som se tornou tão agudo que todos cobriram seus ouvidos e esboçaram expressões de dor. Celine estava de joelhos no chão, se esforçando para não gritar.

De repente ouviu-se o som abafado de um tiro. Todos se assustaram, e ninguém sabia de onde havia se originado o disparo. Tudo o que se sabia é que havia atingido alguém da primeira fila. Celine correu para tentar encontrar algo que a ajudasse a encontrar o criminoso, mas não havia sinal de quem havia disparado a arma, e o violinista misterioso havia desaparecido. Celine correu para ver quem havia sido atingido pelo disparo.

Um corpo jazia imóvel encima do banco. Do peito o sangue escorria para fora da camisa pelo buraco aberto pelo tiro. Havia acertado no coração. O rosto contorcido, provavelmente pela perturbação que estava sentindo por causa da música aguda tocada pelo misterioso homem da máscara branca.

Em pouco tempo, várias pessoas chegaram próximas ao corpo. Os guardas presentes no Grande Teatro tentavam, inutilmente, remover a multidão. Quando Celine chegou, já não mais conseguia espaço para vê-lo. Espremeu-se entre todas as pessoas que murmuravam palavras incompreensíveis. Todos cochichavam ao mesmo tempo. Alguns exclamavam. A maioria parecia apavorado.

"De novo..."

"Mais um morto..."

"Uma música novamente..."

"Como com sua majestade..."

Os trechos de palavras chegavam aos poucos aos ouvidos de Celine, que as ignorava. Quando finalmente conseguiu enxergar o rosto da vítima, parou perplexa. O rosto do homem era totalmente ignorado por ela. Não era ninguém que conhecia, e tinha certeza que não se tratava de ninguém importante para o reino. Mas o lugar em que ele estava sentado, Celine sabia, era o lugar reservado para o Primeiro Ministro.

* * *

O concerto terminou prematuramente. Todos foram convidados a sair do Grande Teatro, não sem antes serem meticulosamente revistados. Mas todos sabiam que era inútil. O assassino provavelmente já tinha saído muito antes. Quando o Primeiro Ministro chegou minutos depois, surpreso, disse que tinha saído para resolver alguns problemas que haviam surgido. E que não fazia idéia de quem era o morto ou de como ele havia parado ali.

Capítulo 3: A Feiticeira e Seu Fantoche

Sonata possuía diversos bairros. E em cada bairro do reino, para preservar a ordem local, havia uma construção de vigília onde diversos guardas reais resolviam os problemas que vinham a encontrar. Esses locais eram denominados Sede da Ordem, onde trabalhavam os Vigias da Ordem. As Sedes da Ordem estavam abaixo das outras diversas organizações militares. Cada sede tinha um comandante, que respondiam as ordens do General Kriegmann. Geralmente, seus trabalhos eram monótonos. Os meios de punição radicais de Sonata provocavam medo naqueles que pensassem em algum momento a cometer alguma infração. Os maiores casos registrados eram de pequenos roubos. Como foi o caso na manhã anterior ao concerto.

Era um bairro pobre de Sonata, Alexandria. O mesmo bairro onde havia acontecido o assassinato de Anselme III. Um guarda trazia pela mão um garoto de treze anos que havia sido pego roubando frutas em um mercado. Ele arrastava o menino de cabelos pretos que tentava a todo custo se desvencilhar das mãos pesadas do homem. Era inútil. Nem se fosse mais velho ele conseguiria se soltar do pesado Vigia da Ordem que havia sido treinado para prender um homem adulto forte se necessário.

Eles andavam na manhã fria em direção à Sede da Ordem que ficava algumas quadras longe do mercado onde o furto havia ocorrido. O vigia ofegava, pois se o menino era fraco, era do mesmo modo veloz. E só após alguns minutos um tropeção fez com que fosse pego.

Chegaram até a Sede rápido. As ruas de Alexandria estavam desertas. E quietas. A música havia sido oficialmente proibida após o concerto pelo Primeiro Ministro. E era verdade quando diziam que o povo de Sonata tinha música no sangue. No silêncio total, não se animavam nem para sair de casa.

Havia uma pessoa em frente à Sede. Estava vestida com um manto preto, sentada em um caixote em frente ao prédio, com a cabeça abaixada e o capuz do manto sobre ela. O vigia olhou curioso para a figura ao se aproximar.
- Quem é você? O que está fazendo aqui? - ele perguntou, desconfiado.

Uma voz feminina de uma jovem mulher saiu de dentro do capuz que cobria sua cabeça:

- Estou esperando alguém...

- Pois vá esperar em outro lugar. Você não tem permissão para ficar aqui.

- A pessoa que estou esperando, já está saindo - falando isso, a mulher com o capuz apontou para a porta da Sede.

A porta abriu-se e nela apareceu uma garota, de por volta de quinze anos de idade, os cabelos loiros ondulados. Tinha uma venda preta nos olhos, feita de pano e carregava uma espada ensangüentada na mão direita.

A reação do vigia foi automática. Atirou o menino que havia prendido no chão e tentou alcançar sua arma que estava na cintura. Mas não houve tempo. A espada atravessou seu peito furando instantaneamente seu coração. A menina retirou a espada do cadáver, que despencou sem vida na calçada.

A mulher com o manto preto levantou-se e tocou o ombro da jovem com a venda nos olhos. Como se a tivesse dirigindo, levou-a para o lado e começou a andar. Parou ao ver o menino no chão, e a marca em sua mão. Um trevo de quatro folhas azul.

- Você - ela falou. - Você é de Clover também?

O garoto levantou a cabeça e olhou para a mulher. Acenou positivamente. A mulher com o manto negro abaixou-se e ofereceu a mão ao garoto. Ele segurou e ela o ajudou a levantar.

- Também vivia em Clover. Morei lá até... - ela baixou o rosto.

- Quem é você? - perguntou o menino, desconfiado.

- Eu? Meu nome é Morgana.

Ela então atirou o capuz para trás e longos e lisos cabelos pretos, brilhantes, caíram pelas costas do manto. Tinha um rosto bonito, embora uma cicatriz o percorresse do lado direito. Ela sorriu.

- Sou Nick - falou o menino, agora intimidado. - Meus pais estão mortos. Eu tinha que roubar para... - ele olhou para o corpo no chão. E então para a menina de cabelos loiros. - Você o matou. Por quê?
- Porque precisávamos - respondeu Morgana. - Não adianta perguntar nada a Sara. Ela não vai responder. Ela só fará aquilo que eu ache que ela deva fazer.

Nick baixou o rosto, encarando os pés no chão. Morgana era muito bonita, mas também o assustava de algum modo. Ele queria sair correndo dali, mas também não havia para onde ir. Ah não ser roubar de novo.

- Quer trabalhar para mim? - perguntou então Morgana.

O menino olhou para Sara pensativo. A menina que não se movia e tinha uma venda nos olhos de alguma forma o assustava também. Mas a voz de Morgana era bastante gentil. De modo que ele não resistiu e concordou com a cabeça.

Morgana sorriu gentilmente e começou a seguir em frente. Nick foi atrás.

* * *

Morgana estava em uma peça escura. Estava ajoelhada e com a cabeça baixa. Alguém a encarava por detrás de uma mesa cheia de folhas na frente dela.

- Como foi? - uma voz masculina perguntou.

- Estão todos mortos, meu senhor. A Sede da Ordem do bairro Alexandria não existe mais.

- Ótimo.

O homem então se inclinou para frente na mesa, e o rosto do general Kriegmann foi iluminado pela luz. Ele pegou um caderno a seu lado e começou a fazer anotações. Quando parou, levantou-se da mesa e encaminhou-se até onde Morgana estava ajoelhada e Sara estava em pé, imóvel.

- A morte do rei foi um presente dos céus. Gostaria realmente de saber quem foi o culpado, para agradecê-lo. Agora o sonho pelo qual meu pai morreu finalmente será possível.

Morgana ficou calada.

- Anselme III era amado pelo povo - continuou o general. - Até aqueles que não têm sangue puro de Sonata que ele desprezava o amavam. Com ele vivo nada poderia ser feito. Mas agora... - Kriegmann chegou perto de Sara e começou a alisar o cabelo da menina. - Agora, enquanto o Primeiro Ministro está no comando será mais fácil. O povo nem mesmo o conhece, é um estranho total. Quando um número considerável das Sedes da Ordem cair, o caos se instalará no reino. Será o momento de o Primeiro Ministro usar toda a força militar, aumentando ainda mais o caos. E é dentro do caos que nascem as revoluções.

- Então o senhor tomará o poder - murmurou Morgana.

- Exato. - o general a olhou, indiferente. - Diga, sua bruxa, quem é aquele garoto parado em frente à porta?

- Ele havia sido preso por um dos vigias que matamos, meu senhor.

- E por que o trouxe e não o matou? Ele é um cidadão puro de Sonata?

- Não senhor. Ele é... de Clover.

O rosto do general assumiu uma expressão de nojo.

- Mais um maldito parasita - falou. E então para Morgana. - Não esqueça, bruxa, para quem trabalha. Estou trabalhando muito para isso. É o melhor para Sonata. O sonho de meu pai. E sacrifiquei muita coisa por isso - olhou para Sara com um rosto triste. - Como minha pequena Sara. Minha própria filha.

- Entendo, meu senhor.

- Agora tenho que cuidar de outras coisas. Não se esqueça do que deve fazer. - ele começou a andar de volta para a mesa, e dirigiu-se para a porte além dela. - Apenas se o Primeiro Ministro tivesse morrido ontem.

- Meu senhor - falou Morgana, levantando a cabeça um pouco. - Tem certeza que não sabe quem foi o assassino de sua majestade?

- O que disse, bruxa? - perguntou o general sem se virar.

- Nada não senhor - Morgana sorriu.

Após o general sair, Morgana rapidamente foi até a mesa, pegou uma folha em branco e começou a escrever algo. Depois de terminar, virou-se para Sara. A menina estava parada como sempre. E com um gesto da feiticeira, ela se moveu.

* * *

Nick estava agachado, esperando na frente da porta no fim do beco exatamente como Morgana havia mandado. Brincava com insetos que passavam no chão tentando se distrair. Assustou-se quando a porta abriu repentinamente e dela saiu Morgana.

Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, a mulher jogou um envelope na sua mão. Ele olhou para o papel branco confuso quando ela colocou uma mão encima da outra. Quando separou as mãos, havia uma velha fada encima de uma delas.

- Você corre bastante, não? - perguntou Morgana.

Nick assentiu.

- Então siga essa fada. Ela vai encontrar uma garota. Quando ver essa garota, entregue este envelope a ela. Se bem a conheço, ela está procurando pelo culpado pela morte do rei. A encontrei uma vez, mas sei que ela é bem capaz.

Nick tentou falar, mas Morgana continuou:

- Há um palpite que tenho sobre esse caso. Acho que pode ajudá-la. E com isso, ela pode me ajudar. Só, você não deve falar que fui eu quem mandou a carta. Ela provavelmente quer me matar e rasgaria a carta na mesma hora. Diga que a carta foi mandada por um homem chamado Kelvin. E não importa para você quem é ele. Agora vá! Rápido!

Nick viu a fada começar a se mover na rua. Mas antes de segui-la, perguntou.

- E qual o nome dessa garota?

Morgana olhou para ele e falou, com um sorriso:

- Celine Rosso.

Capitulo 4 - Stradivarius e Guarnierius

Vindo de uma cidade desconhecida do norte, onde o frio predomina e a noite é eterna, um viajante solitário caminhava em direção aos portões principais da grande capital da música, Sonata. O viajante entrou na cidade acreditando encontrar uma cidade feliz, mas se enganou profundamente. Apesar de ser umas das mais belas cidades do mundo, Sonata não tinha alegria no ar, o viajante podia sentir isso.

- Senhor, precisamos do seu nome, depois da série de atos terroristas que ocorreram aqui, estamos registrando todas as pessoas que entram e saem da cidade, por segurança. - Falou a mulher que trajava um uniforme azul com o símbolo do governo de Sonata no peito, e longos cabelos castanhos amarrados em forma de rabo de cavalo. Ela era encarregada da segurança dos portões.

- Ah sim, meu nome é Spalla Stradivarius, quer ver minha identificação? - Tirou uma pequena identificação de uma de suas bolsas.

- Obrigado senhor Stradivarius, pode prosseguir e tenha uma boa estadia em Sonata. - Respondeu a jovem mulher enquanto tomava notas rotineiras na prancheta.
Andando pelas ruas de um bairro comercial de Sonata, tirou seu violino de seu estojo, olhou em volta, e colocou o estojo no chão. Era uma oportunidade de receber alguma gorjeta, nunca se sabe quando os moradores são generosos. E logo começou uma linda melodia em Pizzicato. De um em um os cidadãos que se encontravam no comércio se depararam com a melodia. Seus rostos mostravam paz de espírito e se sentiam de um jeito que simples palavras não podiam descrever. Mas não demorou muito até que essa calmaria fosse quebrada...

- Ei, você! O que pensa que está fazendo? A Ordem de Sonata proíbe a música! Você está preso por desobedecer o Primeiro Ministro Thomas Vancoor! - O soldado então corre para prender Spalla está, mas a multidão o atrapalha.

- Senhoras e senhores, preciso ir, ocorreram certos imprevistos em minha estadia aqui. Obrigado a todos. - Spalla guarda seu violino e corre na direção oposta do soldado, ele sente os projéteis das armas vindo em sua direção, mas se desvia deles com maestria. Ele corre em direção por entre os becos escuros e gélidos dos mercados, quando subitamente sente algo no ar... Uma aura especial.

Vendo que já se afastou dos guardas o bastante, Spalla corre a procura o ser que deixou aquela aura por onde passou. Ele o encontra, era apenas uma criança, mas prefere esperar de longe e ver o que se passa.

A criança corria pela rua estreita seguindo uma pequenina fada, carregava na mão uma carta e na outra uma marca curiosa. Na correria, acabou se deparando com o bando de soldados que procuravam o misterioso homem que tocara violino.

- Ei criança! Acho que conheço você de algum lugar... - Disse o guarda - Sim, é o pequeno ladrão que os comerciantes estavam reclamando! Venha cá! - Falando isso, um dos três guardas segurou o braço do menino. - Não vai escapar dessa vez, garoto.

Spalla queria permanecer no anonimato, mas não podia deixar o garoto sofrer por sua culpa. Jogou-se para a frente e gritou:

- Ei, vocês! Larguem esse menino!

- É você! O violinista de mais cedo! - Gritou outro soldado enfurecido. Spalla chutou o solado no rosto fazendo com que caisse ao chão desmaiado. Os outros dois soldados correram para agarrar Spalla, mas ele foi mais rápido. Puxou seu violino e começou a tocar uma melodia que os fez ficarem tontos e caírem ao chão.

- Como odeio usar a música para isso...

- Obrigado por me salvar, moço. - Falou o garoto, agradecido - Mas eu tenho que ir agora.

- Um momento. Antes me diga, garoto. Qual seu nome?

- Meu nome é Nick, senhor...

- Nos encontraremos novamente Nick. Até logo.

Falando isso, Spalla Stradivarius saiu apressado para uma rua na direção oposta. Ele pensava "Tenho certeza que ele é de Clover... ele tem a marca. Vejamos isso mais tarde, tenho coisas primárias no momento".

Spalla estava preocupado com o tempo. Para onde ia atrasos eram inadmissíveis. Puxou do bolso um relógio antigo que não possuía ponteiros, em vez disso, um número da primeira fileira que representava as horas e um da segunda que mostrava os minutos estavam acessas em seus devidos algarismos romanos; e marcavam 17:47.

- Oh, droga. – Disse Stradivarius. E se antes corria, agora passava como um raio entre os bairros apertados de Alexandria. Por pouco não derrubou uma humilde venda de frutas numa das ruas.

Não demorou muito e ele encontrou o que procurava. Era uma loja de violinos, de parede de pedra, uma janelinha redonda (que mostravam belas amostras de violinos) e uma porta de mesmo estilo. Ao lado da porta balançava uma pequena placa de madeira com desenho de violino e a escrita belamente entalhada: Stradivarius.

A porta estava sendo fechada, e Stradivarius pôs um pé no canto da porta para impedir que isso acontecesse.

- Pontual como sempre. – Disse Spalla.

Então um velho senhor que usava bengala e mantinha uma expressão carrancuda abriu lentamente a porta e disse:

- Atrasado como sempre.

- Oh, você sabe, intervenções do destino.

- Fechamos as seis em ponto. – Falava grosseiramente.

- Ah, mas claro que teria um tempo extra para um querido sobrinho. Além do mais, se meu relógio estiver certo, cheguei um minuto antes das seis. – E dizendo isso, entrou rapidamente pela porta. E sem ao menos pedir licença, retirou sua jaqueta e a pôs no cabide ao lado da porta.

- Cinco anos desde minha última visita... Aqui continua muito bem cuidado. Bem cuidado demais, eu diria.

- Não me venha com falsos elogios. Chegue logo ao ponto.

- Aconteceu uma pequena tragédia, querido tio. Guarnierus está ferida.

A expressão zangada do Sr. Stradivarius cedeu lugar a um olhar de espanto e incredulidade.

- O que você fez com Guarnierus?! Sabes bem que esta é minha melhor obra! Ouse destruí-la que lhe retiro todos os dentes com um machado de ogro, os colo novamente apenas para retirá-los mais uma vez! – ele gritava.

- Dê-me isto logo! – E bateu com a bengala na cabeça de Spalla, talvez mais forte do que devesse. Spalla massageou a cabeça, abriu seu estojo e a deu para seu tio, que com uma expressão preocupada a pôs sobre o balcão, colocou os óculos que estavam guardados em seu bolso, e pôs a examiná-la.

- Você abusou da terceira corda!

- Foram batalhas difíceis...

- Os ouvidos estão todos arranhados!

- Foram batalhas difíceis...

- O cavalete está amassado!

- Foram batalhas... – E dito isto o velho por mais uma vez bateu em sua cabeça com a bengala. Spalla voltou a massageá-la. O velho voltava a falar.

- Você não sabe o amor que um luthier emprega no artesanato de um violino! Guarnierus é uma peça especial. Não foi só um trabalho meu como também de nosso falecido Guarnierus! A mágica desse violino sobrepuja todas as outras criações de que tenho ciência!

- É possível consertá-la? – Disse Spalla verdadeiramente preocupado. Apesar de desleixado ele também mantêm um carinho muito grande por seu instrumento.

- Não posso.

A resposta acertou Spalla como um soco no estomago.

- Não brinques comigo, querido tio. Sei que você é o melhor luthier de todo este mundo!

- Mas dessa vez, eu realmente temo não ser possível.

- E por quê?

- Estou quase sem dinheiro, sobrinho. E desde que a música em Alexandria foi proibida quase não tenho tido clientes. Temo ter que me mudar daqui pouco tempo.

- Não permitirei que isso ocorra. Tens vivido aqui por mais tempo que eu tenho vivido nesse planeta. Por tudo o que me fizeste, te trareis o dinheiro.

- Não me venhas com promessas tolas!

- Não é tolice alguma. Você disse que a música foi proibida e que por isso está sem dinheiro, não é? Então te prometo que ou te trago dinheiro ou trago a música de volta a este reino.

- Palavras estúpidas. Não podes...

- Não duvides, tio. Farei todo o possível.

E pela primeira vez o Sr. Stradivarius mostrou alguma emoção.

- Sei que não tem onde ficar. Por hoje durma aqui. E deixe também Guarnierus, vou ver o que posso fazer.
Por um momento os olhos de Spalla encheram de lágrimas. Mas ele tratou logo de enxugá-las, e como se aquele momento confraternizador nem tivesse acontecido abriu a porta e saiu dizendo:

- Obrigado, querido tio! Volto mais tarde!

O Sr. Stradivarius foi apressadamente até a porta e disse:

- Aonde vai com tanta pressa, sobrinho ingrato?!

E da rua, Spalla respondeu gritando:
- Preciso procurar por um garoto que vi mais cedo! Até logo!

E o Sr. Stradivarius suspirou resignado.


Capítulo 5: A carta

Celine chegou cansada em casa. Se é que poderia considerar aquele prédio de bêbados uma casa. Naquela mesma noite, pouco antes de entrar, se deparou com a figura mais asquerosa e de certo uma das odiáveis de sua lista.

- Bom dia, minha senhora. – dizia o bêbado, impedindo a sua passagem.
Se a simples presença dele a deixava possessa, imagine chamá-la de senhora?

- Todo dia perto de você é um mal dia, Kelvin! Eu não sou sua e muito menos sou senhora! Agora saia da frente e me deixe passar!

- Oh, puxa – Soluçou por causa da cerveja que tomou em demasia – Hã... Eu posso te acompanhar até seu quarto?

- Como ousa!?

- Ora, vamos... Não será tão ruim assim ter uma boa companhia, será?

Aquilo havia tomado sua última gota de paciência. Celine o empurrou para o lado, ele caiu sobre o balcão, e de tão bêbado que estava, permaneceu por lá.

Celine odiava ter de morar ali. Aquele velho e pequeno prédio possuía apenas três andares. O primeiro era ocupado por um bar bastante freqüentado e os outros dois andares eram lotados de apartamentos de apenas um cômodo. Dois lances de escada acima ela chegou ao seu quarto no terceiro andar.

Era um lugar ruim, mas era tudo o que ela podia pagar – bom, isso era apenas provisório, pois ela bem sabia que logo seria a mais rica e famosa de toda a Sonata.

Celine estava bastante animada. O assassinato de Anselme III trouxe a ela a oportunidade que precisava. Ela pensava sobre as peripécias do assassino mascarado, que mais uma vez fez sua “arte”. Ele é alguém muito habilidoso, mas ela tinha suas habilidades, e se capturasse o assassino de certo seria recompensada com uma boa quantia em dinheiro.

Ao mesmo tempo em que estava tomada pela ansiedade, estava também louca para dormir. Pó-de-Estrela – que havia chego primeiro do concerto - já estava dormindo em sua gaveta almofadada quando ela chegou. E após pouco tempo, Celine seguiu o mesmo caminho. Atirou-se na cama e pôs-se a dormir.
***
Acordou no outro dia revigorada. Pó-de-Estrela havia acordado primeiro, e como fada ligeira que era, já havia preparado o café-da-manhã de Celine. Muitas vezes Celine se indagava como podia Pó-de-Estrela fazer um bolo sendo ela pequena demais para bater a massa. Após comerem, ambas desceram apressadas escadas abaixo. O térreo estava uma imundice, como de costume. E Celine abriu a porta com força.

Do outro lado da porta uma velha fada apontava na direção do prédio. Então, um garoto que carregava uma carta tirou seus olhos da fada e quando ia bater na porta, ela abriu bruscamente e acabou o empurrando. Ele caiu de bunda no chão.

- Oh, por Zíra! Me desculpe, pobre garoto!

- Não foi nada. – Ele disse, enquanto se levantava com a ajuda de Celine.

- Se machucou?

- Não. – Celine ficou um pouco conturbada. O garoto parecia faminto.

- Olha, tome... – pegou de um pedaço de bolo da sacola que carregava no cinto, o mesmo que Pó-de-Estrela havia feito naquela manhã – pegue esse bolo. Desculpe-me por tudo.

- Não se preocupe com isso.

- Qual o seu nome, garoto?

- Meu nome é Nick.

- Então, Nick. Mais uma vez me desculpe, mas preciso ir agora.

- Você conhece Celine Rosso? – Disse apressadamente.

- Eu sou Celine.

- Ah, sim. – Ele estendeu a mão que segurava a carta. – Isto é para você.

Celine pegou a carta e olhou rapidamente.

- Não há remetente. De quem é?

- É do Kelvin.

Celine emborreceu-se, mas não queria magoar o garoto.

- Pois bem, Nick. Fez um ótimo trabalho em me entregar. Obrigado.

- De nada. Obrigado pelo bolo.

Ela sorriu gentilmente e beijou-o a bochecha. Nick corou e disse desajeitadamente:

- Hã, sim... Obrigado e... Preciso ir. Tchau! – E pôs-se a correr. Celine ficou pasma com a velocidade do garoto. Mas agora que ele se foi, pôde fazer o que queria. E amassou a carta e jogou-a para o lado.

- Agora vamos, Pó-de-Estrela. Teremos um dia cheio.

E seguiram caminho.

***
Stradivarius tentava se lembrar onde havia se encontrado com o garoto. Sua memória não era muito invejável. Felizmente, após sucessivas tentativas ele chegou ao local. Mas não havia nada lá além do mesmo pobre prédio que vira na outra vez.

- Mas que diabo...

Spalla olhava ao redor. Não havia movimento ou muito que fazer. Quando viu um pedaço de papel em um canto, quase caindo em um bueiro. Lembrou-se então que o garoto carregava consigo uma carta, e curioso que era decidiu pegá-la com o pretexto de devolvê-la ao dono.

Estranhamente, não havia remetente no envelope. “Deve ser uma carta de amor”, ele pensou. E descaradamente retirou o lacre e pôs-se a ler o que estava escrito. Eis o que dizia:
"Celine Rosso.

Espero que ainda lembre-se de mim. Meu nome é Kelvin, nos conhecemos cinco anos atrás. De fato, você era apenas uma menina naquele tempo, e talvez haja coisas que não gostaria de relembrar da ocasião do nosso encontro. Mas com os acontecimentos atuais de Sonata, incluindo o assassinato de sua majestade, sinto-me na obrigação de partilhar conhecimentos com alguém.

De fato, é um assunto deveras delicado para levar ao primeiro ministro. De modo que lembrei da linda garotinha de treze anos que tanto me ajudou naquele tempo. Se naquela época, já era uma menina inteligente, suponho que agora pode me ser de grande ajuda. Eu peço que venha me encontrar, no antigo depósito bélico de Sonata, aqui em Alexandria. Venha amanhã pela manhã. Estarei esperando por você.

PS: Agradeça devidamente ao menino que lhe entregou essa carta. Ele é um mensageiro a meu serviço. Um garoto muito prestativo que possui uma fada que pode levá-lo a qualquer lugar. Não sei se você lembra, mas não me dou muito bem com coisas mágicas.

Ass.: Kelvin.”

Spalla terminou a carta confuso. Leu-a mais de uma vez parado em frente ao prédio pensando se o que havia encontrado era importante ou um texto sem sentido. Havia sido informado que houve acontecimentos indesejados no reino ao chegar, mas ninguém havia mencionado a morte do rei. Não que isso lhe importasse. A única coisa que lhe dizia respeito é que não poderia mais tocar suas músicas no lugar que mais deveria se sentir em casa para tocá-las.

Continuou olhando, e coçou a cabeça por alguns momentos. O menino Nick era então um mensageiro do tal de Kelvin. De modo que se Spalla queria encontrá-lo, o meio mais fácil seria indo ao lugar que a carta mandava.

Também não fazia idéia de quem era Celine Rosso. Mas acreditava que ela tivesse jogado a carta ali, por algum motivo. Ou, talvez, pensou ser mais provável, havia perdido. De qualquer forma, resolveu guardar o envelope no bolso e ir ao local marcado assim que o próximo dia chegar. Se esse Kelvin soubesse onde estaria Nick, Spalla consideraria ajudá-lo no que for preciso. Mesmo que fosse só encontrar a menina para quem a carta foi destinada e entregar-lhe o recado.

Ele desceu a rua, foi em busca de um hotel que conhecia da última vez que esteve no reino.


Capítulo 6: Início do Caos

O hotel Montaza ficava no bairro Suez, um bairro localizado ao lado de Alexandria. Assim como Alexandria era um dos bairros mais pobres de Sonata, Suez era um dos mais ricos. Era o maior centro comercial do reino, com lojas de todos os tipos, luxuosas, que atraiam a atenção de clientes ricos. Tal como era o Hotel Montaza. O conhecido maior e mais luxuoso hotel do reino todo. Visto com olhos desejosos por aqueles sem condições de encomendar um quarto por um dia; frequentado pelos mais ricos turistas que vão passar algum tempo na capital da música.

O hotel era uma construção ampla com mais de dez andares. Contava com o melhor da tecnologia para conceder aos clientes um conforto e satisfação que não encontrariam em local algum dentro das terras de Sonata. Era um prédio vermelho com uma grande porta de vidro na entrada que abria automaticamente quando alguém se aproximava. Acima da entrada, havia uma forma de espada de grande tamanho com os letreiros escritos na lâmina vermelha: HOTEL MONTAZA.

Era noite quando Spalla chegou em frente à incrível construção e lançou um olhar para o letreiro de identificação. Aprovando com um aceno e cabeça, encaminhou-se para a porta de vidro que abriu para sua entrada. Diferente dos outros clientes que iam diretamente para o balcão de registro do Hotel, Spalla dirigiu-se para o restaurante que ficava a frente. Ao invés de sentar-se em uma das mesas, porém, seguiu para o bar nos fundos. No caminho, ouviu pedaços de conversas dos clientes que apreciavam seu jantar:

“Você ouviu? A Sede da Ordem de Alexandria foi dizimada esta manhã, dizem que não ficou ninguém vivo.”

“Particularmente, concordo com o primeiro ministro. Se algo foi feita pela música, ela deve ser proibida para evitar que o mesmo aconteça novamente.”

“Ouvi dizer que um vendedor de instrumentos musicais foi preso hoje à tarde por deixar a música ambiente de sua loja ligada."
Quando finalmente chegou ao bar, uma bela jovem de pele meio morena e cabelos castanhos lisos caídos na altura dos ombros veio recebê-lo. Ela sorriu. No entanto, quando viu o rosto de Spalla, o sorriso desapareceu.

- Minha querida Mariani Wine, como você cresceu. - disse Spalla sentando-se na cadeira em frente ao balcão do bar. - Está trabalhando para seu pai agora, é?

- O que deseja, senhor Spalla? - disse ela asperamente.

- Um copo de cerveja, por favor. E uma boa conversa, se possível.

Mariani encheu um copo de cerveja e colocou-o com força encima do balcão na frente de Spalla, um pouco de cerveja derramou na madeira polida.

- Conversa está em falta no momento, senhor.

- Ora, ora, senhorita Wine, quanta frieza - Spalla pegou o copo e começou a beber aos poucos. - Preferia aquela doce menina que encontrei há cinco anos.

- O que você realmente quer, Spalla?

- Ora, o que eu quero? Sua companhia já é o bastante no momento, bela dama. Eu senti saudades, você sabia?

- O que você realmente quer, Spalla? - repetiu Mariani com a voz mais firme.

Spalla colocou o copo de cerveja sobre o balcão e sorriu. Olhou para os olhos castanhos claros de Mariani e falou:

- É, bem, você sabe. Pretendo ficar um tempo no reino e. sabe, preciso de um ligar para passar as noites...de novo...

- E você pretende pagar uma estadia no Hotel? O balcão de registro não é aqui.

- Bom, é... eu pensei se uma velha amiga me daria uma ajuda novamente. Você sabe, como há cinco anos. Você pode falar com seu pai e...

- Impossível! Você sabe muito bem que não há como conseguir uma vaga no hotel sem reserva.

- Ah, quanto a isso, tudo bem. Essa noite pretendo ficar no meu tio. Mas, você sabe, ele está passando por dificuldades financeira, e eu não gostaria de ser mais um peso para ele.

Mariani suspirou.

- Spalla, o que faz você pensar que poderá ficar aqui de graça?

- O mesmo que me fez pensar que fiquei da última vez...
- A última vez foi porque achei que estávamos noivos. Se quer um hotel para passar a noite, vá procurar em outro lugar.

Spalla fez uma expressão desanimada.

- Mariani, você, não me diga. Você realmente acreditou que iríamos nos casar?

- E por que não acreditaria? - Mariani encheu um copo de cerveja e começou ela mesma a tomar.

- Você era... uma criança.

- Eu tinha dezesseis anos.

- Pois então, uma criança.

Mariani bebeu um grande gole da cerveja. Estava agora com raiva. Olhou para o rosto de Spalla e falou:

- Você faz muito isso? Só porque eu tinha dezesseis anos você achou que podia me iludir da maneira que quisesse? Falar coisas bonitas e promessas vazias só para que eu peça a meu pai para deixar você ficar de graça? Pois esqueça, senhor Spalla. Durma na sarjeta se for o caso. Aqui você não vai ficar. E além do mais, agora estou noiva de verdade, e amo ele. Não vai mais me enganar.

- Eu... - Spalla não conseguiu falar nada.

Largou o copo com ainda metade da bebida encima do balcão e levantou-se do banco. Baixou a cabeça, desanimado e virou-se para ir embora. No entanto, parou, e de costas para Mariani, lhe disse:

- Você tem razão. Eu sou um idiota mesmo. Me desculpe por tudo, fui muito egoísta. Mas... eu realmente gosto de você. Não posso dizer que amo você, pois ainda lhe conheço pouco. Não poderia fazê-la feliz se estivéssemos juntos. Por isso deixei você ir. Mas realmente a estimo. Não gostaria de perder sua amizade, já que é uma pessoa muito querida para mim. Mas realmente, você tem toda razão. Eu a magoei. Tem todo o direito de me odiar. Irei para a casa do meu tio essa noite, amanhã procurarei outro lugar. Ou talvez durma na sarjeta, como você sugeriu. Sinto muito mesmo, senhorita Wine. Espero sinceramente que seu noivo a faça muito feliz.

Spalla começou a andar a passos lentos em direção a saída. No entanto, quando havia dado dois passos, Mariani chamou.

- Spalla!

Ele parou, sorriu, mas não se virou na direção da atendente do bar.
- Volte amanhã à tarde. Falarei com meu pai. Tentarei arrumar um quarto para você parar por algum tempo.

Quando se virou para ela, o rosto de Spalla estava sério de novo. Ele inclinou-se levemente para frente.

- Muitíssimo obrigado, senhorita Wine - falou, com um tom de voz agradecido. - Sou-lhe muito grato. Espero que você tenha muita felicidade nessa vida, pois é o que uma moça de bom coração merece.

- Outra coisa, senhor Spalla - agora Mariani falava sorrindo. - Eu menti. Não estou noiva de ninguém.

Spalla postou-se reto novamente. Sorriu, virou-se e saiu.

* * *

Era cinco da manhã quando Morgana saiu com Sara de dentro da Sede da Ordem do bairro Suez. Ela ainda vestia o manto com capuz escuro e Sara carregava a espada ensanguentada. O cabelo da menina também estava manchado de vermelho com o sangue que espirrou de um dos vigias no momento em que a espada passou por sua garganta.

Morgana deu uma olhava para trás para ver os corpos mortos no chão, embaixo da luz ligada da peça naquela madrugada escura. Sorriu e começou a andar a passos leves pela calçada, descendo a rua. Todas as magníficas lojas de Suez estavam fechadas naquele horário. Ninguém para testemunhar à feiticeira e seu fantoche caminhar pela rua, saindo da cena de seu crime. Havia somente uma testemunha. E quando passaram por um beco ali perto, Morgana chamou-a.

- Nick - ela falou, gentilmente. - Pode sair agora.

Nick saiu do beco. Vestia as mesmas roupas do dia anterior e parecia assustado. Havia resolvido que seguiria Morgana onde ela quisesse e trabalharia para ela. Mas sentiu as mãos tremendas quando viu a espada ensaguentada de Sara e seus louros cabelos manchados de vermelho forte.

- Nick, receberei uma visita essa manhã. As coisas podem ficar um tanto... complicadas. Então vá para algum e espere abrir para tomar café da manhã. Quando puder voltar, mandarei a fada lhe buscar.
Ela tirou do manto um saco com algumas moedas e jogou-o para o menino. Ele sorriu e saiu correndo, pensando qual o lugar que deveria servir o café da manhã mais gostoso.

Morgana esperou ele desaparecer na esquina e virou-se para o outro lado. Olhou para o cabelo sujo de sangue de Sara.

- Precisamos lavar isso. Além do mais, preciso ir encontrar Celine. Vai ser complicado...

* * *

Morgana deixou Sara sentada em uma cadeira ao lado de uma mesa no antigo depósito bélico de Sonata. Trouxe uma bacia de água morna e colocou encima da mesa. Gentilmente começou a lavar os cabelos da menina imóvel, tirando a tintura vermelha do sangue. Já estava subindo o sol e alguns poucos entravam por frestas do velho prédio. Morgana olhava para a porte fechada enquanto lavava os cabelos de Sara.

Quando terminou, ela largou a bacia no chão e ficou em pé na frente da menina com a venda nos olhos. Morgana retirou suavemente a venda e os olhos azuis sem vida de Sara passaram a fitar o vazio na frente dela. A mão de Morgana tocou a testa da menina com um dedo e fez um pequeno arranhão com a unha. Um filete de sangue começou a escorrer pelo seu rosto.

A feiticeira pegou um pingo do sangue e colocou em um pequeno recipiente de plástico.

- Para alguma emergência - murmurou.

Pegou então a bacia que estava no chão para lavar o rosto de Sara que havia se sujado de sangue. Quando passou as mãos na testa dela, o pequeno arranhão fechou-se.

* * *

Spalla parou em frente ao antigo depósito bélico. Antes não tinha idéia de onde ficava, mas seu tio explicou-lhe, sem perguntar o motivo do sobrinho querer saber a localização do local. Era um prédio de concreto velho, em meio às lojas pobres de Alexandria. Era sete da manhã, o sol já havia nascido e preenchido as ruas com luz e calor. Embora o tempo estivesse razoavelmente frio.
Como acontecia desde que o rei foi assassinado, as ruas estavam tristes. Nem uma única melodia era ouvida, nem pessoas conversavam. Todos decidiram por ficar trancados dentro de casa do que sair para um reino silencioso. Spalla os entendia. Também amava música e sentia falta dela naquele momento. Queria muito fazer algo para ajudar Sonata a voltar a ser alegre como uma vez ele viu. Mas para isso, precisaria achar o assassino do rei, e não tinha nem por onde começar. De modo que decidiu focalizar em outro objetivo: O menino de Clover.

Chegou à porta e imaginou se não seria algum tipo de armadilha. Estava totalmente desarmado, seu violino havia ficado com o tio. Não havia pensado na possibilidade de uma armadilha até o momento em que viu o prédio. O visual rústico e sombrio do prédio dava a macabra impressão de que estaria em uma emboscada se entrasse. Kelvin poderia ser um ladrão, ou um assassino qualquer. Celine poderia ser só a vitima.

Mas desse modo, Spalla percebeu que se entrasse, não seria atacado por não ser a vítima esperada. E realmente precisava encontrar o menino de Clover.

Colocou a mão na porta e a empurrou. Era pesada. O ar frio da manhã logo cedeu lugar a um calor que havia lá dentro. Estava escuro, somente uma luminosidade nos fundos da peça. Partículas de poeira voavam em desordem por todo o ambiente e Spalla sentiu vontade de espirrar por um breve momento.

A luminosidade era uma pequena lareira acesa no chão no fim do depósito. Havia uma mesa e cadeiras em frente a ela. Em uma das cadeiras sentava uma jovem garota de cabelos loiros e uma venda preta nos olhos. Encima da mesa sentava uma mulher com as pernas cruzadas, encarando Spalla. Era bonita, apesar da cicatriz do lado direito do rosto. Estava vestindo um manto escuro e tinha longos cabelos pretos que brilhavam na luz do fogo.

Spalla admirou-se. Deu alguns passos para frente, para melhor ser ouvido.

- Ei - ele acenou.
Morgana nada falou e continuou a encará-lo. Spalla retirou então do bolso a carta e ergueu-a na para cima.

- Isso - ele falou. - Você é Kelvin?

Morgana sorriu, e perguntou em um tom sarcástico:

- O que você acha?

- Bom, sinceramente, eu acho que não.

- Também tenho a impressão de que você não é Celine.

Morgana desceu da mesa e deu alguns passos para frente, permanecendo na frente de Spalla. Ela colocou a mão no ombro do violinista.

- Você sabe - ela falou, ainda sorrindo. - Se me conhecesse, saberia que não é sábio deixar que eu faça isto?

- Por quê? - quis saber Spalla.

- Sou Morgana. Uma feiticeira. Minha magia é feita através do sangue. Conseguindo uma gota de seu sangue, poderia fazer seu coração explodir, e então controlar seu cadáver. Tal como acontece com meu lindo fantoche - apontou com a mão para Sara sentada na cadeira.

Spalla afastou-se.

- Ah, bom, sim, entendo - ele sorriu. - Mas é uma feiticeira muito bonita, me desculpe a sinceridade. Eu realmente não consigo imaginar uma dama tão bela fazendo algo horrível como matar alguém.

- Não? - Morgana virou-se de volta para a direção da mesa. - O que me diz de duas Sedes da Ordem inteiras? Alexandria e Suez?

- Você? Foi você?

- De fato, fui... - Morgana sentou-se na mesa de novo. - Um belo trabalho, você não achou?

- Você - Spalla deu um passo decidido para sempre. - Você assassinou o rei também?

Morgana o olhou, divertida com a pergunta do homem. Jogou com uma das mãos os cabelos para trás.

- Não. Meus últimos crimes são somente as Sedes da Ordem. Anselme III encontrou seu fim por meios que desconheço. Deixando isso de lado, senhor, o que faz aqui? Como falei, creio que não seja Celine Rosso.

- Achei esta carta jogada no chão.

- E a leu?

- Sinto muito, bela dama...

- Meu nome é Morgana. Chamar-me de qualquer outro modo é um desrespeitoso

- Sinto muito, Morgana. Mas, você sabe. Eu vi essa carta nas mãos de um menino. E eu estava a sua procura.
- Um menino, é? Você quer dizer Nick. Infelizmente, ele saiu. E não vai voltar até que eu mande. De qualquer forma, o que a carta estava fazendo no chão? Celine Rosso não a leu?

Spalla deu de ombros.

- Será que ela desconfiou de algo? - Morgana entrou em estado pensativo.

Spalla continuou a observá-la. Algo na mulher havia chamado sua atenção desde o momento em que a viu. Não conseguia identificar o que era. Algo em sua presença. Algo que lembrava ter sentido muito recentemente. Não eram os poderes mágicos. Spalla era inútil quando se tratava de sentir as habilidades de outras pessoas. Na verdade, o violinista tinha uma habilidade um pouco incomum. Ele podia sentir a energia vital de cada ser humano. Com isso, podia dizer de onde aquela pessoa vinha, visto que em cada local do mundo, as pessoas nasciam com características particulares, sentidas somente em sua energia vital.

De repente, o que lhe chamou a atenção de Spalla clareou-se em sua mente. Era fraco, mas estava lá. Ele ficou animado.

- Com licença - ele falou, dando um passo a frente. - Sinto que fui muito rude em ainda não ter me apresentado, bela da... hã, Morgana. Sou Spalla Stradivarius. Sou um violista, no momento sem violino. E sem poder tocá-lo por aqui de qualquer modo.

- O que quer? - perguntou Morgana, irritada.

- Não pude deixar de perceber. Você é de Clover, certo? Assim como o menino, Nick.

- Sou - Morgana o olhou, curiosa. - Como descobriu?

- Tenho uma... habilidade, Morgana. Eu posso sentir. De qualquer modo, fico feliz por ter encontrado alguém de lá. Você sabe, eu conheci alguém de Clover uma vez, e queria saber sobre essa pessoa. Saber se poderia encontrá-la de novo e...

- Impossível - Morgana o interrompeu. - Clover não existe mais.

- Eu sei disso, mas...

- Quase todo mundo de Clover está morto. Eu e Nick seremos provavelmente os únicos de lá que você encontrará em sua vida.
Spalla pareceu desanimado. Olhou para a mulher e imaginou porque sua presença demonstrava traços tão fracos de sua morada em Clover. Nunca havia visto algo parecido antes. É como se ela tivesse nascido em dois lugares diferente. Então lembrou.

- Sua marca. O trevo azul. Eu poderia ver?

Morgana desceu da mesa. Deu alguns passos para frente e o encarou, séria.

- Esta marca não existe mais.

- Como assim?

- Ela se foi - e ao falar isso, Morgana colocou a mão na cicatriz ao lado direito do rosto.

- Ah! - exclamou Spalla. - Mas, aqueles que possuem a marca no rosto são...

- Parece que entende muito de Clover - Morgana o examinou bem. - Você pode me ser ainda mais útil do que Celine. Diga-me, o que sabe sobre a magia de Clover?

- Clover é, muitos dizem, o berço de toda a magia moderna. Quase toda magia avançada usada em todo o mundo hoje teve sua origem lá. Antes de o lugar ser destruído, era o local para onde todos aqueles que queriam aprender algum tipo de arte mágica iam. Era onde ficava localizada a melhor escola de magia do mundo. Eu mesmo estudei lá com o violino por algum tempo. Meu tio só pode se tornar o que é hoje pelo ensinamento que recebeu de lá.

- Isso é certo - falou Morgana, tinha um ar um tanto arrogante agora. - É bom ouvir as opiniões de alguém neutro, de fora de Sonata, de vez em quando. Alguém que não está cego pela idéia de sangue puro do reino. Além disso, você será sim, muito útil. Pois o que eu tinha para dizer a Celine diz respeito a Clover. E você não quer me matar como ela.

- Mas sinto dizer, isso não é do meu interesse.

- Não é do seu interesse que a música volte a ser tocada em Sonata?

Spalla ficou em silêncio. Lembrou-se da promessa que fez ao tio. Mas mesmo isso não o fez livrar-se da insegurança que tinha em fazer qualquer tipo de trato com aquela feiticeira. Algo em Morgana não inspirava confiança.

- Precisa de um estimulo melhor? - Morgana perguntou, chegou muito perto de Spalla e falou em voz baixa. - Você deve saber, pois eu tinha a marca no rosto. Mas direi para confirmar. Não havia ninguém em Clover que conhecesse o povo de lá mais do que eu. Não faço idéia de quem é a pessoa que você procura, mas se ela vivia em Clover, eu provavelmente sei algo sobre ela.

Spalla pôs-se a pensar. De fato, sabia que Morgana poderia ajudá-lo. Sabia muito de Clover para saber que alguém na posição dela provavelmente sabia o destino de cada um dos habitantes. Mas ainda sentia receio em fazer um acordo com uma feiticeira tão pouco confiável.

- O que eu deveria fazer? Que tipo de trato quer firmar?

Morgana afastou-se dele.

- Simples negócios. Você sabe, eu trabalho para alguém. Alguém que não posso lhe contar quem é ainda. De modo que tenho muito pouca liberdade para fazer qualquer coisa sozinha. Logo no momento que ouvi a música que matou Anselme III, eu percebi. Eu a conhecia. Mas não sabia o que fazer até encontrar Nick, alguém que seria um ótimo mensageiro.

Morgana voltou a sentar-se na mesa.

- Eu simplesmente irei lhe guiar, e você descobrirá o verdadeiro assassino. Claramente, eu lembro que a música que tornou possível o assassinato do rei foi produzida em Clover. Inclusive, eu conheci seu criador. Não sei quem a está usando agora, embora seu criador me falou naquele tempo que era o único que tinha capacidade de usá-la. Bom, é impossível que seja ele, já que morreu alguns anos atrás. Ele não era de Clover. Só estudou lá, como muitos.

- Bom, e o que eu deveria fazer?

- Eu conheço o filho dele. Ele mora em Sonata no momento. Se alguém pode saber quem está usando essa magia, é o filho do criador. Então, Spalla, o que quero saber é, vai trabalhar junto comigo? Por uma informação sobre a pessoa que procura e pela volta da música em Sonata?

Spalla pensou em um breve instante, mas agora as dúvidas não mais estavam nele. Acenou positivamente com a cabeça e afirmou.
- Farei o que pedir, então. Me diga onde ele mora e irei lá ter uma conversa com ele.

Morgana sorriu.

* * *

Em Damanhur, um bairro um tanto longe de Alexandria e Suez, um casal caminhava pelas ruas desertas às onze da manhã. A mulher carregava uma sacola de compras que haviam feito em um supermercado e o homem andava alguns passos a frente dela, de mãos vazias, olhando para as casas ao redor.

- Você lembra do que eu falei para você quando o rei morreu, Cassidy? - perguntou o homem, que era alto, tinha os cabelos pretos espalhados desordenados pela cabeça e vestia um terno e calças pretas. Ele tinha vinte e seis anos e andava despreocupadamente bem no meio da estrada vazia.

- Lembro, Clyde - respondeu, sorrindo, Cassidy. Era uma jovem de vinte e quatro anos. Tinha os cabelos castanhos compridos. O rosto tinha traços leves que lhe davam uma expressão infantil. Usava óculos e vestia uma camisa e uma saia que ia até as canelas brancas. Carregava a sacola pesada de compras com as duas mãos. - Lembro que você disse: "Isso virará problema, Cassidy. Sei que irá virar. Sonata já está na corda bamba por muito tempo. Um pequeno desequilíbrio e tudo irá desabar. Muita gente vai se aproveitar dessa situação, Cassidy, escuta o que eu digo." Então eu disse: "Será que um tom fraco de vermelho ficaria bom aqui? Ou talvez um tom forte?" Então você disse: "Ora dane-se, sua idiota. Você e seus malditos desenhos. Não está nem prestando atenção no que estou falando." Então eu disse: "Estou sim, você disse: "Isso virará pro...

- Certo, entendi. Cale a boca, por favor - pediu Clyde. - Sua memória está perfeita como sempre, mas isso irrita, sabia? Sua idiota.

- Desculpe Clyde - Cassidy baixou a cabeça e continuou a andar.

- Mas você tem que prestar atenção no que falo. Não só ouvir. Veja só, Cassidy. Vancoor proibiu a música. A Sede da Ordem de Alexandria foi dizimada ontem, e acredito que isso é só o começo. Já começou. Você sabe no que isso vai se tornar?

- Não.
- Mas você é burra mesmo, sua idiota! Isso vai ser um caos. O povo de Sonata precisa de música. É questão de tempo até algumas pessoas tentarem mudar isso. E então, quem controlaria uma revolta popular?

- Os Vigias da Ordem? - tentou Cassidy, insegura.

- Normalmente seria. Mas você é tonta como sempre e não percebeu o que vai acontecer. Cada vez mais Sedes da Ordem serão destruídas. E quando o caos começar, não haverá ninguém para detê-lo a não ser o Exército Imperial. O que é um problema. O exército é treinado especialmente para matar. Não saberiam como lidar com civis.

- Então é esse o plano do assassino?

- Não, sua idiota! Como pode ser tão ignorante? Ouça o que digo! Eu disse, muita gente irá se aproveitar disso. O assassino do rei o matou de um modo. A Sede da Ordem caiu de maneira diferente. São dois casos diferentes. Este é o problema. O governo não poderá acabar com tudo. Quando trabalhei para Anselme III, percebi que o governo todo de Sonata tem idéias diferentes. As idéias de Vancoor eram diferentes da de sua majestade. As idéias de Kriegmann eram diferentes da de Vancoor. E todos lutaram por aquilo que acreditam até o fim. É esse o caos. Este reino está em instabilidade no momento. Será que me entendeu agora, idiota?

Cassidy deu de ombros. Clyde suspirou.

- Mas - a voz de Cassidy fez-se ouvir. - É triste mesmo. Esse silêncio. - ela olhou para a rua toda deserta, podia até mesmo andar no meio da estrada, como fazia. - Mas sinto mais pena dos músicos.

- Dos músicos? - indagou Clyde.

- É. Se eu fosse proibida de desenhar ou pintar, não sei o que faria.

Clyde acenou com a cabeça, em sinal de aprovação. Ele realmente achava Cassidy inteligente. Mas se preocupava com sua ingenuidade. Ela tinha uma memória fotográfica e desenhava perfeitamente. Mas fora de seus desenhos, lhe faltava imaginação. Ele a xingava porque se importava com ela, porque gostava dela. E Cassidy sabia disso.

Alguns metro à frente, ela voltou a falar.
- Ei, ei, Clyde. A música foi proibida, mas e se eu quisesse somente cantarolar. O que aconteceria?

- Imbecil. Vancoor falou qualquer tipo de música. Ele é doido, provavelmente até isso impediria.

- Mas, mas, eu posso tentar, não?

- Que seja. Só não me arrume problemas, idiota.

E a partir daquela parte do caminho, Cassidy começou a cantarolar o tempo todo. Clyde não se importou, apesar de não demonstrar aprovação. Ele achava, afinal, a voz de sua esposa linda. E aquela voz o acompanhando para o caminho até em casa era relaxante. Logo chegariam, e ele estava morrendo de fome.

Perto de casa, porém, um Vigia da Ordem estava passando. Ao ver Cassidy cantarolando, fez um sinal com a mão.

- Ei, você, sua idiota! Está proibido música em Sonata. Você não sabe?

Cassidy parou assustada, mas Clyde parou e ficou na frente da mulher. Seus olhos mostravam que havia ficado irritado.

- Caro senhor - falou, dirigindo-se ao vigia. - Peço que não insulte minha esposa de modo algum, por favor.

- Hein? - exclamou o vigia. - Você pede o quê? Quem você pensa que é? Garoto inútil!

- Peço que retire o que disse a ela, por favor. Ou terei que tomar uma decisão que não me alegra muito.

O Vigia sacou sua arma da cintura e apontou-a para o peito de Clyde. Suas mãos tremiam de raiva. E os olhos faiscavam.

- É muita ousadia, garoto! Você quer morrer aqui agora.

Cassidy no mesmo instante investiu para cima do Vigia, tentando separar sua mão da arma. Ele era mais forte, porém, e a empurrou para o lado. A sacola de compras foi jogada longe e a jovem mulher caiu no chão e bateu o braço no asfalto. Sangue começou a escorrer pelo machucado e ela fez uma expressão de dor.

O Vigia sorriu. E o sorriso só desapareceu quando ele voltou a olhar para Clyde. O rosto dele exibia uma cólera que o Vigia nunca havia visto em ninguém antes.

- Você ousou machucar ela? - a voz dele era raivosa. - Ousou derramar sangue de Cassidy? Ousou feri-la? Fazer algo que nem eu nunca teria coragem? Desculpe-me, mas não tenho escolha.
Sem tempo para dar risada da ousadia do civil, o Vigia sentiu o punho de Clyde em seu rosto. Não chegou a sentir dor, pois apagou no momento em que recebeu o golpe com uma força que nunca havia sentido antes. Seu corpo caiu na estrada e ficou desacordado no chão.

Clyde ficou em pé fitando-o, com o rosto ainda retorcido de raiva. Mas a voz de sua esposa o chamou para fora de sua cólera.

- Ahhhh! - ela gritou.

- O que houve? - gritou de volta Clyde, virando-se assustado.

Cassidy estava já em pé, com a sacola na mão e olhava para dentro dela.

- Os ovos quebraram. Todos eles. Desculpa Clyde, não poderei fazer panquecas para o almoço. - ela o olhou com um rosto triste.

- O quê!? - exclamou Clyde. - Não pode ser! Vamos voltar ao mercado! Vamos comprar mais!

- O mercado já está quase fechando. Não dá tempo!

- Droga! Sua idiota! Por que não segurou essa sacola direito, sua imbecil?

- Desculpe!

- Ahhh! Maldito Vancoor! Vamos embora logo.

E os dois seguiram para o caminho de casa. Quando Cassidy passou por Clyde, porém, ele olhou para seu braço que havia parado de sangrar e perguntou se ela estava bem. Cassidy sorriu e disse que estava ótima. Havia algo mais sobre Cassidy além de sua memória. Sua resistência era incrível.


* * *

Kriegmann chegou à porta do escritório de Vancoor. Era meio-dia e meia e ele havia almoçado apressadamente. Achava que Vancoor devia pedir para vê-lo em horas mais conveniente. Mas sabia que o Primeiro Ministro tinha manias estranhas. E não que isso fosse durar muito afinal.

Ao seu lado havia um homem com a pele clara e cabeça calva. Usava uma jaqueta azul forte por cima da camisa preta que vestia. Tinha o rosto firme, aparentando também ser alguém de muita inteligência. Era jovem, porém. Tinha vinte e quatro anos e era novo no trabalho que exercia. Embora muitos dissessem que era o melhor.
Kriegmann abriu a porta e foi até a mesa onde Vancoor estava sentado, lendo alguns relatórios. A mesa do primeiro ministro estava desarrumada, como estava quase todas as vezes que o general esteve lá.

- Pontualidade é uma virtude, general. - falou Vancoor, asperamente. - Mas está aqui agora. Quero ser informado do que está sendo feito para o caso do assassinato de Anselme III. E por que ainda não encontraram o culpado.

- Sim, senhor - respondeu o general, em sua postura firme. - Inspetor Hercule aqui ao meu lado está investigando o caso. Trouxe-o para que fale diretamente ao senhor.

- Pois então, ande logo, fale - ordenou o primeiro ministro.

- Pois não, senhor Primeiro Ministro - respondeu Hercule em uma postura tão firme quando Kriegmann. - Infelizmente ainda não tenho idéia de como ele conseguiu se infiltrar no desfile de sua majestade e no réquiem. Também não sabemos como ele saiu desses lugares despercebidamente.

- Ou seja, não descobriram nada.

- Não é bem assim, senhor. Descobri algo sobre a música. A que tocou no réquiem e no assassinato. Aquela música se trata de uma magia muito complexa e avançada. Que, como tantas outras, originou-se em Clover.

Vancoor fez uma careta.

- Clover de novo? Não estão todos mortos?

- Estão, senhor. Mas o homem que desenvolveu essa magia não era natural de Clover. Sendo que não estava junta na... bom, você sabe.

- Então é isso! - afirmou Vancoor. - É ele o assassino!

- Infelizmente é impossível, senhor. Ele está morto. Morreu há alguns anos atrás.

Vancoor desanimou.

- Então, não descobriram nada útil.

- Senhor. Se me permite discordar. Descobrimos o paradeiro de seu filho. Ele está aqui em Sonata.

- Isso é bom. E, alguém já foi mandado ao seu encontro?

- Não senhor. Na verdade, eu espero ir pessoalmente.

- E por que ainda não foi?

- Porque General Kriegmann me chamou para falar com o senhor logo depois que descobri sobre isso.
Vancoor olhou irritado para Kriegmann, ignorando o fato de que ele que o havia chamado primeiramente.

- Pois então, esqueça isso. Vá fazer seu trabalho. E traga boas notícias.

- Pois não senhor. Mas se me permite somente constatar algo.

- Fale...

- A magia de que estamos falando tem alto alcance. E defesa nenhuma pode detê-la. De fato, ela pode ser tocada fora do reino e chegar vivamente aqui. De modo que acho que a proibição da música em Sonata seja no momento um tanto inú...

- Se me permite interromper, Primeiro Ministro - Kriegmann falou rapidamente. - Inspetor Hercule está equivocado. Ele é um grande inspetor, é claro. Mas ainda é inexperiente. Acho que romper a proibição nesse momento é facilitar as coisas para o assassino agir livremente, sem ser identificado.

- Kriegmann tem razão - falou Vancoor, com uma careta por ter concordado com o general. - A proibição continuará até que esse assassino seja encontrado. E espero que isso seja logo. Agora estão dispensados.

- Sim senhor - falaram os dois, e viraram-se para sair.

- Antes que vá - Vancoor falou. - Qual todo seu nome, inspetor?

- Rosso, senhor. Sou o Inspetor Hercule Rosso.



Continua...

Domingo, Março 15

Degree of Vampire - 12º capítulo

No capítulo anterior, Dark e Natasha chegam na casa de Rufus, mestre de Dark, porém, se surpreendem ao saberem que Rufus morreu no ano passado. A filha dele, que também se chama Natasha, parece esconder algo, além de ter começado a se comportar de forma estranha após a morte de seu pai. Enquanto Dark ficava no gramado olhando o céu, chocado com a notícia, um estranho homem apareceu.

Dark vs. Natasha

O estranho homem, que está uns seis metros de distância da casa, gritou:
-Aê velho, vem logo aqui me ensinar como lutar!
Depois de alguns segundos de silêncio, sem mostrar sua cara, Natasha filha de Safira fala com um tom grosso:
-Por que quer que eu te ensine algo?
Dark pensa que o homem não acreditará que é seu mestre falando, mas ele responde mesmo assim:
-Eu quero bater em uns caras que me zoaram, mas são muito fortes.
-Por essa razão não irei fazer nada por você.
-Não me venha com brincadeiras, me ensine de uma vez.
-Então... - Natasha mostra a sua cara pela janela - Me derrote que eu pensarei no seu caso.
O homem ficou rindo e Dark estranhou completamente, pensando que ela estava brincando.
A menina pula pela janela e bate o joelho no chão, então grita:
-Argh! Ainda preciso treinar meu pouso...
-Hahahahahahaha. Você quer morrer é? Não precisa usar uma garotinha, simplesmente apareça, velho.
-Não me subestime!
Ela corre em direção ao homem e ele a pára com a mão esquerda. Safira sái pela porta e grita:
-Não lute! Está correndo perigo!
Dark se levanta e grita também:
-Fuja! Não adianta lutar!
-Isso! Moço! Fuja!
-Hã!?
A menina faz um sorrizo sínico e tira um pequeno revolver do bolso da saia. Dark se surpreende e Safira grita para ela parar. O homem se assusta. Ela o atira e começa a correr para longe, mas o que o acertou foi um metal comprido com uma ventosa. O homem ri e tira. Safira fala para não tirar, mas já era tarde. Ao ter tirado, a ventosa sai do pequeno metal e o homem é eletrizado pelo corpo inteiro. Natasha olha para o corpo caído e queimado e diz:
-Você foi derrotado por uma garotinha, pelo visto não tem chances de lutar com essas tais pessoas. - Ela vira para sua mãe - Não se preocupe, ele não está morto, mas ficará desmaiado por um tempinho. Quando acordar sairá daqui rápido, hehe.
Dark pensou:
-Mas é claro, ela é a filha do mestre...
Depois dessa luta, Dark ficou melhor, então aproveitou para fazer uma entrevista na sala de estar com Natasha, para saber mais de seu passado.
-Quando você foi mordida?
-Quando eu tinha uns oito anos.
-O que houve enquanto atacaram você e sua família?
-Estávamos dormindo, quando percebi meus pais tinham sumido.
-Como tem certeza de que foram vampiros que os atacaram?
-Quando acordei metade da casa estava esmagada, um humano normal não faria isso.
-Sabe, é estranho que você só possa ver vampiros, não percebeu nenhuma outra mudança em seu corpo?
-Meu corpo ficou mais pesado. Mas retirando o poder de ver vampiros não tenho mais traços de vampiros.
-Meu mestre também podia ver vampiros, iria perguntar porque mas vejo que não dá... Tem alguma coisa que queira me dizer?
-Eu... Poderia ser treinada?
-Hum?
-Se eu não tenho traços de vampiros mesmo podendo vê-los, será que tenho mais poderes escondidos?
-... Bem, ver vampiros é o básico de ser um. Talvez tenha certeza, mas não sei como fazer algo para te ajudar...
-Você não se lembra de como foi treinado?
-Ele só me ajudou a melhorar minhas habilidades, nad de especial, mas foi melhor do que nada.
-E esse bastão? Ele que o fez?
-Numa manhã, quando eu acordei, ele apareceu com esse bastão falando que tinha meus poderes. Não sei ao certo o que ele fez, não pensei em perguntar sobre isso na hora. E... Lembro que me senti mais leve quando acordei nesse mesmo dia.
-Então...
-Se eu soubesse o que ele fez, poderia fazer o mesmo com você e... Não.
-...?
Dark ficou calado por um tempo e saiu novamente para fora. Natasha estranhou e continuou sentada no sofá. Dark vê Natasha, filha de Safira, sentada olhando o céu. Ele senta no lado dela, ela olha torto e diz para ficar longe. Ele pergunta:
-Você me odeia, né?
-...
-Foi porque falei que foi você que roubou o fruteiro?
-Eu simplesmente te odeio.
-... Você realmente se parece com o mestre... Ah, me desculpe, não queria...
-Não ligo.
-Hum? Você não gostava dele?
-Eu também o odeio. Assim como odeio você, Safira, sua amiga, o Jango e o resto.
-Jango? O fruteiro?
-Ele sempre me acusa de roubar suas frutas podres, Safira me trata como se eu estivesse mentindo, sua amiga é boba...
-Concordo.
-... E Rufus gosta mais de você do que a mim.
-Ah, tem inveja de mim?
-Só não gosto de você.
-Para alguém que me odeia tanto, até que conversou bem.
Ela se levanta olhando com bastante raiva e aponta a mesma arma para ele. Dark pergunta:
-Você quer lutar comigo?
-Só quero que você sofra, filho da mãe.
-Para uma criança você tem um jeito bem "adulto".
Ele se torna em vampiro. Rapidamente Natasha atira a mesma bala com ventosa nele. Dark dá um pequeno riso e corre na direção dela. Ele diz:
-Não pense que irei pegar leve por ser uma garota.
-Mas está.
Ele estranha, então um pouco antes de bater nela com o bastão, o braço fica pesado e não consegue fazer o movimento. Ela continua parada e diz:
-Três segundos, tenho que melhorar.
-Meu corpo está... Ficando pesado... O que você atirou?
Ela fica quieta. Enquanto Dark, aos poucos, se ajoelhava, Natasha colocava uma bala de verdade no revolver.
-Você é realmente fraco, Rufus não deve ter te ensinado nada.
Safira ouve um barulho de um tiro, olha pela janela da cozinha e vê sua filha com a arma apontada para o chão, ela estranha, até ver a grama amassada e imagina ser Dark. Natasha, na sala, se assusta com o barulho do tiro. Imagina ser a filha de Safira, então não liga. A garota fica impressionada com Dark, que levantou a mão. Ela diz:
-O veneno deveria durar mais tempo...
-Não duvide... Dos ensinamentos de seu próprio pai.
Ela sorri e diz:
-É, talvez tenha razão. Mas mesmo assim, você é muito idiota.
O braço de Dark cai novamente, Natasha estranha, pois achou que ele tinha superado o veneno. Dark pensa:
-Se eu tentar tirar as balas, será que tomarei um choque? Aquilo realmente fará a minha parte humana em perigo, mesmo não tendo matado aquele homem. Porque essa garota não tem medo de acabar me matando? Ela não sabe que se minha parte humana morrer eu me tornarei totalmente em vampiro?
Enquanto pensa, ela coloca mais uma bala de verdade no revolver. Ele percebe e tenta levantar seu braço, mas não consegue. Ela diz:
-No último tiro você deve ter usado pouca energia que podia usar somente para levantar seu braço. Agora não terei erro. - Ela aponta a arma novamente na face dele - O que fará agora?
Dark tenta arriscar tirar a bala, mas ela diz:
-Se tirar tomará um choque tão grande que ficaria como aquele moço. Então eu o atirarei e morrerá da mesma forma. - Dark fica assustado pois soube que ela o matará mesmo - Eu sou Shadow...
-Hum...?
-E esse é meu ataque final.
-C-Como sabe que eu lutei com ele?
-Percebi pelas ataduras. Os únicos que lutam dando cortes nos seus inimigos são Shadow e Sword, mas imaginei que fosse Shadow, pois se tivesse lutado com Sword... Estaria pela metade...
-Mas... Como conhece eles?

Fim do 12º capítulo.

...

BÔNUS
Os bônus serão simplesmente textos pequenos com alguma informação ou piada. Talvez acabe tendo algum spoiler, o que tentarei não colocar.

Começando:

Ele entra numa sala com uma placa na porta "diretor". Ele vê uma estante com vários livros, pega um com o título "Dimension", abre e lê um trecho:
"- Srta. Fourtine, recebemos um alerta, parece que as tropas do D.o.V estão perto daqui. Começar plano de evacuação?
- Quem é D.o.V - Perguntou Ed."
Dark pára de ler por um instante e diz:
-D.o.V? Essa sigla não me é estranha... D.o.V... Degree of Vampire... FUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU-

Domingo, Março 1

Hope Woods - Capítulo III - Noite Na Floresta

Capítulo III - Noite Na Floresta

12 Anos Atrás

Com dez anos, Sun estava sentada sobre a humilde mesa da pequena cozinha de sua casa, desenhando em uma folha. Sua mãe lavava a louça do almoço ao seu lado, na pia. Os cabelos negros pretos amarrados, as mãos cheias de sabão. Ela olhou para a filha e sorriu. Seu pai tinha chegado a pouco tempo de uma missão. Estava sentado sobre o sofá na sala que era junto com a cozinha escorado em sua espada que tinha a lâmina em direção ao chão.
Sun havia desenhado seu pai empunhando a espada e estava pintando quando batidas soaram na porta.
- Lana Lune. Aqui é o exército de Kahn. Tem um minuto para vir até aqui fora, antes que sua casa seja invadida. Você está cercada.
Os olhos de Lana viraram-se apreensivos para a porta. Sun, sem saber o que estava acontecendo, parou de desenhar, nervosa. Seu pai, confuso, se pôs de pé e olhou para a esposa, ainda segurando a espada...
- Lana? - ele falou. - O que é isso Lana? O que aconteceu?
- Sinto muito, querido. - ela falou, sorrindo.
- Seja o que for, se entregue. Seja o que for que tenha feito, eu vou ajudá-la. Falarei diretamente com sua majestade. Por favor Lana, não...
Mas antes que ele pudesse terminar de falar, Lana rapidamente tirou uma pequena faca de sua roupa e agarrou agressivamente o braço da filha, puxando-a para perto e pousando a faca perto de seu pescoço.
- Sinto muito, Sun. - ela disse, com uma expressão triste.
Lana começou a andar em direção a porta dos fundos, carregando a filha consigo. Seu marido já havia empunhado a espada e a acompanhava vagarosamente, cauteloso, com medo de que sua filha pudesse se ferir.
- Lana, isso é loucura - ele falou. - Solte Sun. Venha comigo. Vamos ao castelo e vamos esclarecer tudo isto.
Ela meneou a cabeça negativamente.
- Me desculpe - ela disse. - Se ainda eu não tivesse... - parou para pensar por um tempo, e então retomou sorrindo: - Não, estou feliz que tenha sido assim.
Assim que chegou perto da porta, atirou Sun para sempre, fazendo o marido correr para segurá-la, permitindo sua escapatória. Sun e o pai ficaram sozinhos. Ele agachado segurando a filha. Enquanto escutavam a luta do lado de fora.

Presente

- Sinto muito comandante - Grim desculpou-se.
Sun fitou ainda por algum momento o rosto branco do cadáver de sua mãe. Depois, limpou as lágrimas que começavam a aparecer e deitou carinhosamente o corpo morto de longos cabelos negros no chão. Levantou-se, e, esfregando os olhos uma vez mais, virou-se para Grim.
- Tudo bem, esqueça. Estava morta já. Ela morreu a muito tempo.
Yuki aproximou-se, curiosa, olhando de longe todos aqueles cadáveres brancos no chão.
- Morta? - ela indagou. - O que significa isso?
Grim abriu a boca para responder, mas parou quando viu Sun se abaixar em frente da menina.
Sun a olhou, ainda com os olhos marejados. Suspirou e respondeu a pergunta da menina:
- Significa, Yuki, que ela foi embora. E nunca mais voltará.
- Mas ela está ali - discordou Yuki, apontando para o corpo.
Sun abanou a cabeça para os lados.
- Ela não está ali. Aquilo é onde ela estava. Como uma casa.
- Como o buraco?
- Mais ou menos.Yuki, uma pessoa que morre nunca mais poderá falar. Nunca mais poderá comer, andar. Fazer nada.
- E por que isso? Por que pessoas morrem?
Sun levantou e fitou as árvores a sua frente.
- Por quê? Também imagino: por quê? - ela então dirigiu-se a Grim. - De qualquer modo, vamos andando. Precisamos achar um modo de voltar para o acampamento.
E os três seguiram para dentro da floresta.

* * *

- Nos encontramos então.
E após falar isso, uma garota de cabelos vermelhos e olhos negros desceu da árvore vestindo um vestido vermelho como seus cabelos.
- Prazer em conhece-los. Ou quase isso. Dirijam-se a mim como Ártemis, se é uma bruxa que procuram.
- Impossível - Nani gritou, ainda sentada, olhando espantada para a garota.
Iwazaru também parecia espantado.
Vlad no entanto ignorou os companheiros e tomou a dianteira, com a mão escondida embaixo do grande manto preto. Órion estava bem a sua frente, em guarda, mas sem fazer uma única tentativa de ataque. Esperava pacientemente enquanto a garota seguia para seu lado.
- Encontrei uma amiga sua. Sun, eu acho. É, isso mesmo. Embora ela não tenha tido a educação de se apresentar - Ela sorriu maliciosamente. - Quanto a vocês. Alguns eu não conheço. Outros dispensam apresentações. De qualquer forma, estou sem tempo. E não quero aprender nomes de inuteis de qualquer modo. Portanto, lutem com Órion. Quero saber se me serão uteis de algum modo.
Falando isso, ela deu alguns passos para trás e esperou que Órion começasse o ataque. Vlad se pôs mais na frente, deixando claro que seria o oponente. Quando Órion avançou para o primeiro ataque, Vlad desviou e tirando a mão direita escondida em seu manto aplicou um golpe com a espada que foi barrado pela espada do oponente.
- Este modo de luta. Não é um pouco covarde? - Órion estatou.
- Não luto por honra. Tenho coisas mais importantes para proteger - falou Vlad sorrindo.
Escondeu novamente os braços dentro da manta e dessa vez quando atacou, usou o braço esquerdo. Por pouco não atingiu o inimigo. Não saber de qual dos lados viria o ataque aparentemente estava deixando Órion confuso.
O grande guerreiro recuou e estudou Vlad. Este avançou novamente, novamente atacando e sendo bloqueado com o braço esquerdo. Órion bloqueava todos os ataques de Vlad, mas não tinha oportunidade para atacar. De modo que tentava se manter distante para aproveitar alguma chance. Como era muito pesado, também achava díficil desviar-se.
A bruxa sorria de longe, ao ver a luta. Não percebendo os olhos de Nani e Iwazaru que a olhavam espantados ainda. Drake, que se aproximara dessa vez, havia ficado em guarda logo atrás do local onde a batalha acontecia.
Mais um ataque com a direita que Órion bloqueou com a espada. Vlad imaginava se, mesmo acertando, seu ataque teria algum efeito naquela armadura. Mas seus pensamentos mudaram quando errou por centimetros no último golpe e a espada do inimigo passou raspando ao seu lado. Aquele golpe teria sido fatal. A força física de Órion era impressionante.
Vlad recuou e parou,observando o inimigo. Atento a qualquer movimento seu.
- Impressionante essa força. Mas força física não é tudo, sabia? Seu ataque é muito lento. - ele sorriu.
- Força física? - Drake falou, logo atrás de Vlad. - Então deixe esse comigo.
Falando isso, ele saiu investindo com a espada em Órion.
- Não, idiota! - gritou Vlad.
Mas era tarde. Antes da espada de Drake atingir Órion, a espada de Órion havia esmagado parte da armadura preta de Drake perto da barriga, e sangue pingava no chão.Quando Órion tirou a espada, Drake se jogou ao chão, gemendo de dor. Vlad correu para salvá-lo, mas o inimigo já havia guardado a espada por um pedido da bruxa.
Vlad segurou Drake e começou a carregá-lo para o interior de uma das tendas.
- Esse é inútil - falou a garota. - Mas você, guerreiro - apontou para Vlad. - Você me pode ainda ser útil. De qualquer modo, estou indo por agora. Você virá comigo?
Ela apontou para alguém além de Vlad. E seguindo o olhar de Nani, ele percebeu que era Iwazaru, que estava de pé.
Vlad parou no caminho para a tenda e observou seu companheiro ir em direção à bruxa. Nani nada falou, mas olhava preocupada. Iwazaru parou diante da garota com os longos cabelos vermelhos e se curvou. Ela tocou sua cabeça e seus cabelos loiros e sorriu.
- É bom vê-lo de novo também, meu guerreiro, Iwazaru.
Perplexo, Vlad tentou falar. Mas percebeu que não havia o que dizer. Ainda com Drake apoiado em si, viu quando a garota, Órion e Iwazaru sumiram entre as árvores da floresta.

* * *

Estava quase anoitecendo e Grim, Sun e Yuki ainda andavam pela floresta, sem idéia de para onde seguir.
- Está escurecendo. Será melhor acharmos algum lugar para passarmos a noite logo. - estatou Sun.
Yuki continuava fascinada por tudo ao redor para perceber, mas Grim concordou com a comandante.
- Vamos encontrar algum lugar onde poderemos vigiar ao redor, seguros.
Por alguns minutos mais andaram, até Yuki chamar atenção.
- O que é aquilo? - falou ela apontando para um lugar que parecia um pequeno lago.
Ao chegarem perto, Sun colocou a mão na água e a tirou.
- Está quente. Uma fonte de água quente. Nesse lugar. É estranho.
- Podemos ficar aqui. - concordou Grim, olhando ao redor. - É um bom lugar, e parece seguro.
- Sim - Sun concordou ainda olhando para a fonte. - Esse lugar me dá vontade de... Yuki - chamou. - Quer tomar um banho?
- Banho? O que...
- Esquece, venha aqui.
Sun pegou a garota pela mão e levou-a até a água da fonte.
- Soldado Grim - ela falou. - Não preciso falar, mas, não se vire para cá.
Grim somente cravou sua espada e sentou-se no chão, olhando para a direção oposta da fonte. Já estava escuro, mas uma estranha luminosidade saia da água.Despindo-se da armadura e da roupa e ajudando Yuki a retirar seus trapos velhos e imundos, Sun entrou na água, trazendo a menina consigo, monstrando onde era raso para ela poder ficar. Sun mergulhou a cabeça, levantando de novo com os cabelos molhados. Yuki a viu e a imitou, achando aquilo engraçado. Os cabelos compridos de Yuki tamparam seu rosto. Ela começou a dar risada. Sun a observou e sorriu.
- Sabe, seria melhor lavarmos aqueles seus trapos sujos também.
Falando isso ela saiu da água para pegar a roupa de Yuki e lavá-la.
- Quando voltarmos, eu arrumo uma roupa para você. - falou, enquanto lavava aqueles panos.
- Eu vou morar com você? - perguntou Yuki, retirando os longos cabelos castanhos do rosto.
Sun parou, pensativa e espantada.
Morava sozinha, mas nunca tinha imaginado ter uma criança morando na mesma casa. Até onde sabia, não gostava de crianças.
- Eu...não sei. Quando voltarmos podemos decidir isso. Há orfanatos no reino também.
- Orfanatos?
- Esquece...
Ficaram por algum momento na água. Tempo suficiente para a roupa de Yuki ficar menos húmida. Sairam da água e vestiram as roupas de novo, Sun demorou um pouco para recolocar toda a armadura. Seus cabelos ondulados estavam agora lisos pela água.E Yuki carregava um pouco dos cabelos pesados.
- Gostaria de ter uma toalha - falou Sun, ao se sentar, perto de Grim.
- Vocês podem dormir quando quiserem, fico de guarda hoje. - ele falou.
- Você não precisa ficar a noite toda acordado, eu...
- A comandante ficou a noite acordada. Deve estar com sono.
Sun o olhou pensativa. Por fim concordou.
- Tudo bem soldado. Aceito desse modo.
Sun e Yuki deitaram em um gramado ali perto. Yuki chegou-se mais perto de Sun, embora incomodada, a comandante não falou nada. Após alguns minutos, nenhuma das duas havia dormido ainda.
- Estão sem sono? - perguntou Grim.
- Como sabia que não estava dormindo? - perguntou Sun.
- Eu percebo.
- Estava pensando em Kahn. Em meu pai. Em...
- Sua mãe?
- Sim...
- Disse que seu pai desapareceu?
- Sim. Já faz algum tempo. Foi na época que a princesa de Kahn desapareceu também. Você lembra disso?
- Snow... - Grim baixou os olhos.
- Snow, isso mesmo. A princesa desaparecida. Meu pai desapareceu naquela época. Eu tinha doze anos. Acho que deve haver alguma ligação.
Grim olhou para sua direção.
- Seu pai tinha alguma relação com a princesa Snow?
- Ele era um guerreiro do reino. Mais do que isso. Ele era a pessoa mais próxima de sua majestade. Fora sua família, é claro. Meu pai uma vez salvou a vida da filha dele.
Grim ficou pensativo. Yuki olhava e escutava a conversa, em silêncio, pela primeira vez. Sun parecia triste quando lembrava do passado. Grim, por algum motivo, também parecia.
- Minha mãe... - Sun voltou a falar. - Ela traiu Kahn. Não posso perdoá-la. Eu a odeio. A odeio. Mas...Quando vi ela lá. Daquele jeito. Eu...
Ela ficou em silêncio. Grim nada falou em consideração. Entendia o dilema de Sun. Era uma guerreira de Kahn. E era ensinada a amar o reino acima de qualquer coisa. Era essa a regra para Kahn. Uma lugar perfeito, ninguém tinha o direito de odiá-lo. Pelo menos era o que tentavam passar.
- Meu pai já esteve no exército de Kahn também - Grim falou.
- Por que ele saiu.
- Não sei direito. Mas ele não me deixava entrar. Ele só concordou porque...
Ele parou. E dessa vez foi Sun que ficou em silêncio. Havia, obviamente, algo que Grim ficava triste ao lembrar. E Sun imaginou que não era hora de perguntar o que era. E não era do assunto dela também.
A comandante olhou para o rosto já adormecido de Yuki. A menina estava em sono profundo. Provavelmente apreciando por não ter que dormir outra noite em um buraco apertado. Ela passou a mão pelo cabelo da menina, afastando uma mecha de seu rosto. Mas tirou-a logo, assustada por ter feito aquilo.
- Soldado.. - ela falou, mais baixo agora para não acordar Yuki. - Você já matou alguém? Alguém vivo, quero dizer.
Grim meneou a cabeça, negativamente.
- Eu já. Quando fui virar comandante, fui obrigada a matar um prisioneiro. É uma espécie de teste, ou algo assim. Ele estava vestindo máscara. então não vi seu rosto. Mas o que me assustou foi que...foi fácil demais. Foi simplesmente jogar a lâmina da minha espada no peito dele. Eu tinha consciência de que uma vida estava sendo perdida. Mas não era a minha, então eu não conseguia sentir a seriedade daquilo. Parecia algo tão...comum.
- Eu acho que saber se é comum ou não vale mais do que sentir - Grim falou.
- É comum. Quando alguém morre, sua vida acaba, simples. Não deveria ser algo triste para ela. Ela não vai mais sentir. Ainda assim...
- Comandante. Você devia estar falando assim?
Sun parou. Pensou e respondeu:
- Você tem razão. Era uma ordem de Kahn. Inquestionável.
- Algo assim, imagino...
- Vou dormir, soldado.
- Boa noite, comandante.

* * *

Nani estava ao lado do ferido Drake. Uma atadura amarrava seu corpo encima do ferimento. Ela o observava, desdenhosamente. Mas ainda sorria, não um sorriso satisfeito, mas irônico.
- Sou uma babá novamente então, hein...
Ignorando os gemidos do companheiro ferido, Nani saiu da tenda, bem a tempo de ver Vlad partindo.
- Ora - ela disse. - Quem está saindo no meio da noite?
- Nani... - Vlad virou-se para ela, o rosto parecia preocupado. - Estou indo atrás de Sun.
- Ah, é isso. Onde está aquela confiança que você tinha mais cedo de que sua amiguinha podia lidar com qualquer coisa?
- Até aquele momento ela podia. Mas estou preocupado agora...com Iwazaru.
- Ah...
Nani deu dois passos para frente para ver Vlad melhor.
- Se fossem só os inimigos, Sun daria um jeito. Mas Iwazaru. Ele é um soldado. Ela acha que ele está sob suas ordens. Podem usá-lo para atacá-la de surpresa. Bom, é isso que eu faria se fosse nossa inimiga afinal. E ela sabe onde Sun está. Sozinha, ela estará em problemas. Ainda se eu soubesse se Grim a encontrou.
- E suponho que devo ficar sozinha com esse peso morto enquanto isso?
- Você protege o acampamento Nani. Até que voltemos. E também...
Ele encarou Nani. Ela estava sorrindo, ele não.
- Tenho a impressão de que você sabe de algo sobre tudo isso. Mas não vai me contar, vai?
Nani balançou a cabeça negativamente.
- Então fique por aqui. Não será de ajuda nenhuma indo junto. Certifique-se que Drake se cure. Podemos precisar entrar em batalha logo.
- Contra ela? - um leve sinal de preocupação percorreu o rosto de Nani. Não precisou dizer a quem "ela" se referia.
- Sim. Algo contra?
- Será um prazer. - ela falou, sorrindo novamente.
- Então estou indo - Vlad se virou. - Tente não fazer nada até eu e comandante Sun voltarmos.
Após Vlad desaparecer entre as árvores, Nani sussurrou, com uma risada maliciosa:
- Se voltarem...

* * *

Grim começou a sacudir Sun no meio da noite:
- Comandante...comandante, acorde.
Sun abriu os olhos.
- Há alguém aqui perto. Há um vulto entre as árvores. Eu o vi umas três vezes.
Sun levantou rápido e segurou sua espada.
- Deixe isso comigo soldado, mas será melhor que venha junto para vigiar que eu não sofra nenhum ataque por trás. Agarre Yuki, não podemos deixá-la aqui.
- Devo acordá-la.
Sun olhou para a menina que dormia com uma expressão tranquila no rosto.
- Não...tente deixá-la dormindo.
Gentilmente, Grim levantou Yuki no chão e carregou-a no colo. Não conseguiu segurar todo seu cabelo, que ficou esvoaçando com o vento da noite.
Seguiram para a direção que Grim havia indicado. Sun na frente, segurando sua espada em posição de ataque. Atravessaram as árvores e penetraram em uma parte mais fechada da floresta. Grim cuidava para que nenhum galho batesse em Yuki e a acordasse. Ao mesmo tempo que cuidava para que não sofresse um ataque surpresa.
Em algum momento, Sun visualizou um vulto e seguiu correndo para sua direção. Grim a seguiu, mais cuidadoso. As árvores estavam ficando mais fechadas, e o caminho mais díficil de passar. Mas Yuki dormia em paz, mesmo no meio daquilo tudo. A luz da lua não os alcançava naquela mata fechada, e estava tudo em escuridão. Sun e Grim tentavam usar seus instintos para seguir os passos no escuro e desviar dos obstaculos à frente.
Logo enchergaram a luz da lua. Vinha de uma clareira. E o vulto estava indo para aquela direção. Correram mais rápido, tentando atacá-lo antes que chegassem na clareira. Mas logo já estavam em frente a ela e a luz da lua deixava o vulto definido.
Sun parou subitamente. Largou sua espada no chão, surpreendendo Grim. Olhou para o rapaz de cabelos escuros na sua frente, com uma roupa escura. Olhos castanhos escuros e expressão impaciente. Ele tinha uma espada na mão, e olhava para Sun sem deixar transpor o que estava sentindo. Mas provavelmente, sentia-se como ela.
- Tsuki? - ela falou, baixo, quase sem conseguir liberar sua voz.
- Sun - o homem disse. - minha irmã.


Sábado, Fevereiro 14

Degree of Vampire - 11º capítulo

Finalmente começa a segunda saga, estava ansioso para poder começá-la :D
Sobre o título, se eu fizesse em português ficaria estranho. O significado é "Triste aniversário para você".

Sad birthday to you

Os dois heróis, cansados da viagem, chegam à Vila Vaulge. Natasha pergunta aonde mora o mestre de Dark, ele responde:
-Não é bem nessa vila que ele mora, é um pouco mais para frente. Podemos aproveitar para descansarmos aqui.
-Mas... Não temos dinheiro...
-Podemos vender isso que você trouxe.
-São minhas coisas!
-Viemos só para meu mestre ver o seu poder de detectar vampiros, não para ficarmos uma noite...
-Terei que voltar para minha casa ainda hoje!?
-Sei lá, poderia ficar acordada até amanhã.
-Eu não sou uma vampira. E falando no seu mestre...
Antes dela dizer, uma menina que aparenta ter uns nove anos de idade esbarra em Dark e continua correndo. Os dois olham para frente e vêem um vendedor de frutas gritando:
-Por que continua roubando minhas frutas!? Volte aqui!
Dark ignora e continua a andar, Natasha o segue. Logo ela se lembra do que ia dizer e pergunta:
-Dark, qual o nome de seu mestre?
Sem parar de andar e sem olhar para ela, simplesmente responde:
-Rufus Runk.
Então ela percebe o quão nervoso e apressado ele está. Andaram até o final da vila, chegando numa pequena floresta. Natasha estranha e pergunta:
-Aqui que ele mora?
-Sim, ele é do tipo anti social, não gosta de muitas pessoas por perto.
Após entrarem na floresta, eles finalmente chegam numa bonita casa de madeira, com vários troncos de árvores ao lado, uma árvore no outro lado com várias flores rosas. Natasha se encanta enquanto vê a paisagem, sem perceber que Dark andava com pressa até a porta. Ele aperta a campainha e aperta os punhos. Depois de um minuto a porta é aberta por uma mulher, que aparenta ter 34 anos de idade, com uma expressão triste. Dark, sem mudar a expressão séria, pergunta:
-Me desculpe por não ter avisado que viria, mas preciso falar urgentemente com o meu mestre...
Ela olha para o lado e diz:
-Você... Poderia entrar? Preciso falar algo...
-Sim. E essa garota... Pode entrar também?
-Ela é...?
-A conheci durante uma das lutas, também preciso mostrar algo que seria do interesse do meu mestre.
-Tudo bem.
Dark olha para trás e vê Natasha com cara de boba e ainda impressionada com a vista. Ele diz:
-Venha logo sua tonta, parece que nunca viu flores na vida!
-Não me chame assim... E realmente nunca vi mesmo...
Os três se sentam nos sofás da sala de estar, A mulher fala para a Natasha:
-Oi, me chamo Safira, fico feliz que Dark tenha feito uma amizade. Eu sou a esposa do "mestre dele", que ele deve ter dito à você. Bem...
Dark, impaciente, pergunta à Safira:
-Onde está meu mestre? Ele saiu?
Ela ficou calada. Dark continuou perguntando coisas do tipo até a campainha tocar. Safira pediu para esperarem e foi para a porta. Era o mesmo vendedor de frutas da entrada da vila, segurando pelo braço da mesma menina que esbarrou em Dark. O vendedor diz à Safira:
-Me desculpe por segurar sua filha desse jeito, mas ela roubou novamente minhas frutas.
Dark fala para Natasha:
-Essa voz não me é estranha...
-Também... Me parece a voz de um senhor que derrubou dinheiro na rua e eu roubei...
Safira pergunta:
-Natasha, por que você faz essas coisas?
-Eu era pequena e não tinha noção de que era errado, mas não precisa falar como se eu continuasse com isso.
-Hã? Me desculpe, mas não foi com você.
-Não?
Dark diz:
-Ah! Tinha me esquecido completamente, a filha do meu mestre também se chama Natasha...
-Ah... Ah!?
A filha de Safira, com muita raiva, grita:
-Mas que droga! Quantas vezes tenho que dizer que eu não roubo as porcarias das frutas desse maldito!?
-Tenha modos!
-Que se danem os modos!
O homem também fica bravo e exclama:
-Não nos venha com mentiras, eu vi com meus próprios olhos você pegando uma de minhas bananas!
-Por que eu pegaria uma merd* de banana? Eu nem gosto.
-E eu vou saber?
Dark e Natasha se assustavam com o que ela dizia, então Dark se levanta para ver a menina e diz:
-Não tenho dúvidas, é realmente a garota que esbarrou em mim enquanto fugia!
A garota ficou confusa e ao mesmo tempo com mais raiva. Então o homem diz:
-Viu? Temos uma testemunha.
A garota se esforça para não chorar e grita:
-Vá para o inferno com suas frutas podres!
Ela chuta sua perna e corre para o quarto. Safira pede desculpas e fala que irá pagar pelo roubo. O homem diz que não liga para isso e fala:
-Não estou preocupado com o dinheiro, mas gostaria de saber porque ela faz essas coisas... Será que ela está querendo atenção?
-Talvez. Realmente não ando dando atenção à ela.
-Ela ainda é pequena, fico com pena por ter perdido seu pai tão de repente...
Dark se surpreende, Safira olha para Dark. Após ter se despedido do homem, Dark pergunta:
-Isso... É o que estou pensando? Ele realmente...
-Acho melhor... Explicar tudo de uma vez...
No ano anterior:
No aniversário de oito anos da filha de Rufus, festejavam na frente de casa, com vários moradores da vila. Safira conversava com umas amigas:
-Às vezes isso de não querer ficar perto de muitas pessoas me deixa preocupada.
-Você tem um marido ótimo, fique feliz com o jeito dele, apesar de ser meio chato às vezes mesmo, hahaha.
-Tem razão.
Natasha, filha de Rufus, assoprou as velas do bolo de aniversário. Toda sorridente, pegou um pedaço do bolo e diz:
-Eu vou levar esse pedaço para o papai.
Um de seus amigos disse:
-Ele parece ser assustador, mas gostaria de ver ele pelo menos uma vez.
-Ele é legal, tentarei convencer a ele vir aqui fora.
Ela correu até o quarto, mas ele não estava, estranhou e foi para o quarto de onde ele trabalhava. Ao dizer: "Papai, você vai querer um bo...", derrubou o prato com o bolo e grita. Todos correram para lá e vêem Rufus morto, com o pulso do braço esquerdo com rasgos e sangrando, como se alguém tivesse mordido. Natasha ficou tão chocada que nem chorar conseguiu.
No presente, Safira começou a chorar. Dark ficou chocado da mesma forma que a filha dela no momento.
Natasha, filha de Safira, ficou no quarto com uma cara emburrada olhando para um criado-mudo. Ela diz:
-Papai, por quê...?
Dark ficou sentado no sofá ao lado de Natasha com uma expressão triste, como se estivesse tentando não chorar. Natasha tenta falar com ele, mas a ignora. Ele fala que irá para fora tomar um ar. Safira diz à ela:
-Pensei que ele ficasse assim, por isso fiquei com medo de dizer...
-Mas ele cometeu mesmo suicídio?
-Não tinha como alguém ter entrado, assassinado e sair sem ninguém ter visto. Mas a razão que gostaria de saber...
-Ele não escreveu nenhuma carta falando do suicídio?
-Tinha uma na mesa, só não sei do que se tratava pois quando fui pegar não estava mais lá. Alguém deve ter pego.
-Quem? A Natasha?
-Talvez, mas nunca achei a carta nessa casa, ela deve ter a escondido muito bem.
-E você não tentou perguntá-la?
-Sim, mas desde aquele dia ela ficou tão seca que me ignora sempre. Até a entendo, foi bem no dia do aniversário dela... Que é hoje.
Safira acaba de se lembrar disso e se preocupa. Dark, que ficou deitado no gramado olhando o céu, continuou com a mesma expressão, até então sair lágrimas de seus olhos. No mesmo ins tante um homem de aparência forte sái das sombras da floresta e diz com um sorrizo:
-É aqui que mora o tal de Rufus? Irei fazer ele me treinar.

Fim do 11º capítulo.

...

A partir do próximo capítulo terá um bônus para essa fic, espero que gostem.

Quinta-feira, Fevereiro 5

Hope Woods - Capítulo II - A Menina Enterrada

Capítulo II - A Menina Enterrada

2 Anos Atrás

Sun estava frente a frente com seu inimigo. Se encontrava em posição de ataque aguardando quando ele começaria seu primeiro movimento. O oponente era um homem. No entanto, não era possível ver mais nada, pois ele vestia armadura e elmo. Ele mantinha a espada na mão, nervosamente analisando os movimentos de sua rival. Em posição de ataque, investiu para a frente, atacando quando se aproximou de Sun que se encontrava ainda parada. Ela abaixou-se no momento que a lâmina cortou o espaço acima de sua cabeça e com um golpe dado com o cabo de sua espada, derrubou o elmo do oponente no chão. Ele deu dois passos para trás. Sun o olhou e sorriu, correu para sua direção e girou a espada, parando a centimetros de seu pescoço.
- Ótimo - uma voz feminina falou atrás de Sun. - Muito bem Sun, como esperado.
Sun se virou e encarou a mulher de cabelos pretos na altura do ombro que se aproximava, vestindo também uma armadura e carregando uma espada na mão.
- Comandante Bela - Sun virou-se, sorrindo. - Obrigada.
- Ora, não me agradeça. É verdade. Você tem muito potencial como guerreira. E evolui rápido. Provavelmente em menos de três anos se tornará comandante também. Pode ficar com minha vaga. Seria uma ótima substituta.
- A comandante vai mesmo sair? - Perguntou Sun, guardando a espada na bainha.
- Oh sim. Sabe, fui pedida em casamento. Sempre sonhei em ter uma vida doméstica com um homem que amo. - o rosto dela estava radiante.
- Se for o caso, por que o posto de comandante?
- Por mais que eu sonhasse com isso, nunca imaginei que se tornaria verdade. Além disso, foi aqui que conheci ele afinal, por isso não me arrependo. Espero que tenhamos um filho, talvez dois, sempre quis ser mãe. Não pretende ter filhos Sun?
- Não - Sun olhou para baixo, pensativa. - Sou como minha mãe, eu acho. Ela não deveria ter tido filhos, não cometerei o mesmo erro dela.
- Ah, isso é triste...
- Além do mais - falou Sun decidida. - Não me dou bem com crianças...

Presente

Sun estava parada no buraco que abriu quando sua espada tocou a terra. Sem acreditar no que estava a sua frente, parecendo algo ilógico demais. Uma menina de aproximadamente dez anos, com cabelos pretos lisos compridos, tão compridos que tocavam a terra no chão dela. O rosto sujo de terra. Vestia trapos que visivelmente haviam sido feitos por alguém sem nenhuma experiência, também estavam imundos. Os olhos azuis claros em contraste com os cabelos pretos. Ela parecia com um rosto espantado, talvez curiosa.
Ela olhou para o alto, de onde a luz do sol entrava no buraco que era profundo. De onde estavam, era impossível alcançar a superfície.Seu rosto se iluminou em um sorriso e ela levantou a pequena mão suja de terra para cima, deixando os raios de sol passarem através dela.
- Então, isso é luz? - falou, com sua voz infantil.
Sun a olhou curiosa, mas nada disse.
- Aquilo é céu? Ali é terra? - apontando dessa vez para o chão.
- E o que seria? - perguntou Sun impaciente.
- E você é uma pessoa? - agora a menina olhava para a mulher de armadura na sua frente. - Eu sou uma pessoa também, a voz disse.
- A...voz?
- Sim, ela me falou sobre tudo. Sol, terra, céu, pessoas. Ela fala comigo todos os dias.
- Espere aí - Sun abaixou-se para ficar na altura da criança. - Quem fala com você?
- A voz.
- Uma voz? O que é essa voz?
- A voz é a voz.
Sun pensou por algum tempo, olhando confusa a menina que sorria e se impressionava com cada grão de terra que caía pelo buraco.
- Você sabe o que é um nome? - Sun perguntou então.
- Sim, a voz me ensinou.
- E essa voz tem um nome?
Dessa vez a menina que parou para pensar, olhando para Sun.
- Não - ela respondeu. - Nunca perguntei.
Sun suspirou.
- Certo. Então, você tem um nome?
- Sim. - ela respondeu radiante. - A voz me deu um nome. É Yuki!
- Ótimo Yuki, já é algo. Eu sou Sun, uma comandante de Khan. Me diga, de onde você é?
- De onde como?
- Como...por exemplo...onde mora sua mãe?
- O que é mãe?
Sun levantou e encostou as costas na parede de terra atrás de si.
- Onde você vive então? - perguntou, impaciente.
- Aqui...
- Quando diz aqui, você fala... - Sun olhou para o pequeno buraco e fez um gesto abrangendo ele todo. - Aqui? Esse buraco?
- É...Não sabia o que era na verdade. Mas agora que a luz chegou reconheço coisas que a voz me falou.
- Você está mesmo querendo dizer que viveu a vida toda aqui? Sem ver nada? Só falando com essa...essa tal de...voz?
- É... - Yuki sorria enquanto falava.
Atordoada, Sun passou a olhar a menina e percebeu que realmente ela não parecia conhecer nada. Agora ela tinha se abaixado vendo duas formigas andar pela terra com verdadeira admiração. Os cabelos da menina se arrastando pelo chão enquanto ela andava.
Abandonando a visão estranha de Yuki, Sun olhou para cima. Havia um problema. Escalar ali parecia impossível, pois a parede do buraco não havia lugares nos quais se apoiar, além do que a saída estava muito alta. Seja quem for que colocou aquela menina lá, não queria permitir que ela saísse.
- Yuki - Sun falou, ainda olhando para cima. - Sabe algum jeito de sair daqui?
- Sair por quê?
- Deixa pra lá.

* * *

Os outros já haviam voltado ao acampamento e Vlad estava agora fazendo novo fogo para assar dois coelhos que haviam caçado no caminho. Iwazaru estava sentado perto observando-o. Drake dava golpes com sua espada em uma árvore e Nani estava dentro de sua tenda.
Vlad era rápido com seu trabalho e logo o fogo se acendeu. Ele sentou-se e começou a cuidar para que a fogueira não se apagasse. Olhou para Iwazaru que estava concentrado nas chamas que subiam.
- Iwazaru, certo? - Vlad falou. - Não se preocupe. Sei que você não fala. Talvez por isso mesmo seja a pessoa mais indicada para se conversar aqui. Mas de fato estou curioso. É uma doença que o impede de ter voz?
Iwazaru só olhou para Vlad e abriu sua boca, revelando que onde deveria estar sua língua, não havia nada.
- Cortaram sua língua, é? - Vlad constatou. - Isso me faz imaginar quem seria capaz de tal atrocidade. Mas como você não pode me contar de qualquer modo, ficará sendo só uma curiosidade. Embora eu ache que sua amiga loira saiba do que aconteceu, não estou certo?
- Se está ou não certo não é um ponto importante - Vlad ouviu a voz de Nani por detrás de si enquanto sentiu a ponta de uma lança encostar em suas costas.
Quando ele virou-se, viu Nani sorrindo, apontando sua lança para ele. No entanto, ela retirou a lança e foi sentar-se ao seu lado, olhando-o com seus profundos olhos verdes.
- Sabe, estou curiosa - falou ela, sorrindo como sempre. - Por que Iwazaru? Por que conversar com alguém que não pode falar?
- Gosto de ouvir minha própria voz, madame. Embora sua voz seja mais doce.
Ela riu.
- Muito galanteador, senhor Vlad. No entanto, sou mais velha que você. E afinal, eu não cairia nessa. Apesar de achar que desse pequeno grupo você é a pessoa mais interessante.
- Devo discordar, madame.
- Eu sei. Percebo sempre tudo. Sei que há alguém nesse grupo que você admira. Sei também que está preocupado com essa pessoa e gostaria que ela estivesse aqui agora.
- De fato, gostaria que comandante Sun estivesse aqui. Ela tem sido uma boa amiga por todo esse tempo. E realmente gosto da presença dela. Também admito que estou preocupado, embora saiba que não tenho razões. Sun voltará logo, certamente. Mesmo se acontecesse de ela encontrar uma bruxa nessa floresta, ela a derrotaria. Ou, ao ver que é impossível derrotá-la, ela conseguiria escapar.
- Uma confiança e tanto que você deposita naquela jovem. Pessoalmente, eu não me espantaria se da próxima vez que adrentassemos essa floresta, achassemos o cadáver dela perto de alguma árvore ou jogado em algum buraco.
Vlad riu e olhou nos olhos de Nani.
- Você não conhece mesmo ela. - ele falou.
Foi quando ouviram um barulho de folhas se mechendo. Nani, Vlad e Iwazaru olharam atento para o local de onde vinha o som, enquanto Drake continuou a golpear a árvore, provavelmente não percebendo nada.
Por entre as folhas das árvores, em direção ao acampamento, uma silhueta de uma pessoa grande apareceu. Dessa vez Drake também percebeu e parou com seus golpes, olhando para a direção da mata de onde vinha um homem de físico forte, um pouco maior que Drake, armadura pesada, os cabelos pretos longos, caindo em volta do rosto, e com uma espada em mãos.
Vlad rapidamente se pôs em guarda, seguido por Iwazaru. Drake ainda observava de longe e Nani, com seu habitual sorrriso, continuava sentada.
- Quem é você? - perguntou Vlad.
- Órion. Fiel guerreiro sobre as ordens de Ártemis. - ele brandiu a espada para frente.
Ouviram uma risada feminina vindo de cima das árvores e uma voz de menina falou:
- Nos encontramos então.

* * *

Sun estava sentada no chão de terra do buraco, olhando para cima, pensando em uma maneira de escapar. Yuki corria para todo lugar ao seu lado, maravilhada pela luz. Pegava formigas e apertava-as, deixando seus pedaços caírem ao chão. Algumas a mordiam. Nessas horas ela dava um pequeno grito e soltava a formiga longe.
Impaciente, Sun levantou-se e começou a andar de um lado para outro, planejando. Sabia que ninguém viria por ela. A única pessoa na equipe que ela tinha certeza que se preocupava com ela era Vlad. E ele acreditaria que ela não precisaria de ajuda. Em outras situações, realmente não precisaria. Mas agora estava em um problema diferente. Não exatamente perigoso, mas impossível de se escapar.
- Eram esses os bichos que andavam encima de mim me encomodando. - Yuki falou. - Bichos feios e pequenos. Morrem fácil. E tem gosto ruim. A voz me falou deles. Mas são mais idiotas do que pensei.
- Menina - Sun falou então. - Estou muito feliz que está nessa descoberta ao seu pequeno mundo. Mas por favor, me deixe pensar em um modo de sair daqui. Só fale se souber de algum meio para escalarmos esse buraco idiota.
- Mas por que você quer sair?
Sun suspirou. Virou-se para Yuki e ajoelhou-se em sua frente.
- Você está gostando das coisas que está vendo aqui? - ela perguntou.
Yuki concordou com a cabeça.
- Pois é. Fora desse buraco, há um mundo muito maior. Um mundo gigantesco de coisas novas para você descobrir, brincar e matar. Fazer o que quiser. Essa sua amiga voz não falou disso?
- Falou sim. Sobre um mundo grande. Ele é maior que esse buraco?
- É muito, muito, muito maior. É imenso. E você pode viver sua vida inteira nele sem ter visto nem sua metade. Você gosta dessa idéia?
Yuki concordou radiante.
- Então, você quer ir para esse mundo imenso?
- Quero! - ela concordou imediatamente.
- Então me ajude a achar um jeito de sair. Deve haver algum modo. Essa sua...voz...ou seja lá o que for. Se algo vinha mesmo aqui, deveria entrar por algum lugar.
- Ela vem por ali. - falou Yuki, apontando para um dos lados da parede. - Eu ouço ela vindo.
Sun olhou para a grande porção de terra, incrédula.
- Bom, não podemos ir por ali - falou. - Mas deve haver outro jeito. Então me ajude a encontrar e não tire minha concentração.
- Tá - Yuki declarou, decidida. - Eu vou ajudar.
E então Yuki começou a examinar cada lado do buraco enquanto Sun pensava nas alternativas que tinha, embora não tivesse encontrado nenhuma que fizesse sentido ainda.
Depois de algum tempo, as duas se cansaram. Yuki deitou-se no chão enquanto Sun escorou-se na parede de terra. Simplesmente não haviam achado nada que pudesse sugerir um modo de escapar daquele buraco. Sun baixou a cabeça desanimada.
Mas então ouviu um som de passos acima de si, na floresta, como se alguém se aproximasse. Sabendo que não podia se tratar de Vlad, ela ficou em guarda, segurando a espada cautelosa e temendo, sendo que se viesse um ataque de cima, provavelmente não poderia evitar. Levantou os olhos para cima, assim como Yuki fez, embora a menina estivesse com uma expressão menos preocupada.
Sun fez sinal para que a garota ficasse em silêncio e ela assentiu com a cabeça sorrindo, parecendo achar que aquilo era uma brincadeira. Os passos se tornavam mais próximos e Sun imaginava o que faria se alguém a atacasse ali, naquela posição desfavorável em que se achava. segurou firme na espada e esperou que os passos chegassem.
Percebeu que a pessoa já estava em frente ao buraco. Nervosa, se preparou para atacar como pudesse quando de cima viu apontar um rosto olhando para dentro. Sun relaxou a mão ao ver o rosto de Grim analisar o fundo do buraco, confuso.
- Comandante? O que você faz aí embaixo? - ele perguntou.
- O que você acha? Exploração que não é. Eu caí. - ela respondeu, embaiando a espada. - Mas, ainda bem que você apareceu. Preciso de ajuda para sair daqui.
- Sim comandante! O que devo fazer?
- Procure algo que de para usar como corda. Algo que não vá arrebentar. E jogue para mim.
- Entendido comandante!
Falando isso, ele saiu. Alguns minutos depois, um forte cipó foi baixado para dentro do buraco.
Sun ajudou Yuki a agarrar-se na corda. Ela o fez maravilhada, enquanto subia para cima, para fora do buraco onde viveu a vida inteira. Após a menina subir, Sun agarrou-se na corda e também subiu, auxiliada por Grim que a puxava de cima.
Ao sair, Sun esticou os braços para frente e os movimentou. Yuki parecia hipnotizada, observando paralisada tudo que sua visão captava. Uma borboleta que passava voando, um lagarto entre as folhas, tudo era razão para se maravilhar.
- Muito bem Grim - Sun agradeceu, olhando para ele séria. - Aprecio o que fez aqui, um bom trabalho soldado. Será recompensado quando voltarmos. Mas então, por favor, se puder nos guiar até o acampamento...
- Não posso comandante. - Grim respondeu, sem mudar sua expressão.
Sun o olhou, esperando de novo ele complementar com algo, mas Grim ficou em silêncio.
- Só nos leve para o caminho por onde veio. - Ordenou então Sun.
- Isso será impossível, comandante.
- Hã? Impossível? Como assim? - Sun perguntou confusa.
Sem mudar de expressão, de forma calma, Grim respondeu:
- Não podemos usar o caminho por onde vim para voltar. Eu não conseguia achar a comandante. Procurei algum modo de atravessar o rio, mas não encontrei, e achei que não deveria demorar muito. Então voltei até onde a comandante caiu e me atirei, esperando que a água me levasse para até onde a comandante se encontrava. E foi isso, comandante.
Depois de alguns segundos em que Sun, incrédula, olhou para Grim, ela perguntou:
- Está brincando, não?
- Não comandante.
- Você realmente foi até a parte do rio que caí e se atirou?
- Precisamente comandante.
- Isso é... - Sun colocou a mão na testa e balançou a cabeça. Mas de subito parou e voltou a olhar para o guerreiro na sua frente. - Que seja, você foi de grande ajuda aqui ainda. Provavelmente não poderia sair desse buraco sem você. Por agora, vamos continuar procurando um modo de voltarmos ao acampamento. Grim, você irá atrás, eu irei na frente, fique atento. Já tive contato com nossa inimiga.
Grim assentiu.
- Yuki - Sun chamou, não conseguindo a atenção da garota que tentava pegar uma borboleta. - Yuki! - chamou de novo, dessa vez fazendo a garota se virar. - Vamos - ela ordenou então e a menina a seguiu.

* * *

Envolto pelas sombras de uma árvore acima, um homem observou enquanto Sun, Yuki e Grim se distanciavam do buraco e adentravam a floresta. Ele analisou o rosto de Sun e sentiu a mão tremer.
- O que está sentindo? - perguntou uma voz feminina atrás de si. - Alegria? Nostalgia? Ou saudade?
- Cale-se - replicou o homem rudemente.
- Me desculpe, Tsuki - a voz feminina desculpou-se então. - Você sabe, Órion e ela já foram encontrar os outros. Ela me ordenou que observasse você. Desculpe.
- Tudo bem.
- Você está mesmo bem com tudo isso?
Tsuki olhou para as árvores no qual Sun e os outros haviam sumido momentos atrás e respondeu:
- Sim Helen. Sigo as ordens dela, é só o que me resta agora.
- Então vamos.
E então os dois sumiram em meio aos galhos.

* * *

Sun andava na frente, atenta a qualquer movimento. Atrás dela, Yuki andava saltitando, se espantando até mesmo com o som que seus pés descalços faziam na mata. Algumas horas pisava em seu cabelo longo e desequilibrava, mas logo retomava controle e continuava a andar. Grim vinha atrás, de cabeça baixa, mas com ouvidos apurados a qualquer ruído ameaçador.
- E essa criança? - ele perguntou, após algum tempo de silêncio.
- Vivia naquele buraco - Sun respondeu. - Ela me disse que viveu a vida inteira lá, aos cuidados de uma tal de voz. Sinceramente, não faz sentido. Mas não podiamos deixá-la lá.
Yuki continuava andando despreocupada, provavelmente sem perceber que falavam dela.
- Comandante, me desculpe - Grim falou repentinamente.
Mesmo espantada por aquilo tão de repente, Sun não parou. No entanto falou:
- Tudo bem Grim. Já disse que foi de grande ajuda mesmo que não possa nos levar de volta.
- Não, não é isso. Me desculpe por...antes. Se eu tivesse sido mais rápido, a comandante não teria caído.
Parando de repente e se virando para encarar Grim, Sun estatou, curiosa:
- Isso? Tudo bem, foi descuido meu também. E nenhum dos outros nem mesmo chegou a ver algo vindo. Suas habilidades são incríveis de qualquer modo. Nem mesmo Vlad pareceu perceber.
- Mesmo assim, sinto muito por não poder proteger você. - Grim mantinha a cabeça baixa.
- Tudo bem...você é estranho.
Estatando isto, Sun voltou a andar.
Após alguns minutos de silêncio, não aguentando aquilo, Sun resolveu falar com Yuki. Tentava assim descobrir um pouco mais sobre o passado da garota também.
- Yuki - ela falou, e os olhos da menina viraram-se radiantes para ela. Ela parecia apreciar ouvir seu nome. - Você realmente não sabe quem são seus pais?
- O que são pais?
- Mãe e pai. Sabe, um homem e uma mulher que a criam e cuidam de você?
- Homem e mulher que criam... - Yuki falou pensativa. E então teve uma reação de descoberta ao falar: - Então a voz é meu pai...ou minha mãe...!
- De algum modo eu acho que seria estranho uma voz ter filhos - Sun constatou.
Animada por uma nova idéia, Yuki virou a cabeça para a direção de Grim.
- Você tem pais, pessoa? - ela perguntou.
- Tenho sim - respondeu Grim, levantando a cabeça para olhá-la. - E meu nome é Grim.
- Grim! E quem são seus pais?
- Meu pai é...um verdureiro. E minha mãe é...uma mulher estranha.
- Estranha como?
- Estranha.
- Ah... - dessa vez, Yuki virou a cabeça na direção de Sun. - E você Sun? Tem pais?
- É claro. Todos tem.
- E quem são eles?
Sun refletiu um pouco, e sentiu-se triste com a lembrança.
- Bom... - ela disse. - Meu pai desapareceu algum tempo atrás.
- E sua mãe?
Nessa parte, Sun baixou o rosto e falou nervosamente:
- Ela...morreu.
- Como?
- Ela...procurou o que teve. - Sun estava impaciente.
- Por quê?
- Ora, cale a boca! - gritou Sun com raiva e levantou sua mão ao virar-se para Yuki.
No entanto, no momento que Sun desceu o braço para dar um tapa na face da menina, sentiu a mão de Grim parando-a com força.
- Comandante - ele falou calmamente. - Devo supor que você não esteja querendo machucar esta criança.
Sun o olhou com olhos furiosos, mas então, voltando a si, acalmou-se e baixou o braço e o rosto com vergonha.
- Sim - ela falou, com voz baixa. - Eu nunca faria isso. Hã...vamos descansar um pouco. Yuki deve ter cansado.
Yuki não pareceu se abalar com a reação de Sun, pois ainda estava sorrindo e assentiu com a idéia.
A idéia de descançar de Yuki no entanto era diferente. Enquanto Grim e Sun estavam sentados silênciosos no chão, Yuki corria de um lado para outro saltitando. Sun a chamou umas três vezes, mas a menina parecia nunca cansar.
No entanto, depois de correr para vários lados ela parou. Imaginando que ela havia finalmente esgotado suas energias, Sun a chamou novamente. Mas Yuki somente apontou para a direção que estava olhando e falou:
- Veja, mais pessoas.
Grim e Sun levantaram com urgencia e ficaram em guarda com suas espadas. Grim havia sido mais rápidos e já havia se adiantado para frente. Levemente, empurrou Yuki para trás, fazendo-a ir para onde Sun estava em pé. Eles eram visíveis agora. Dez corpos de pele branca, vestindo trapos e andando pelo meio das árvores. Totalmente desarmados, mas com a boca aberta. O corpo de alguns havia ferimentos abertos. Mas deles, nenhuma gosta de sangue existia.
- Grim... - sussurrou Sun.
- Sim - ele falou. - Olhe para o rosto deles comandante. Olhe para seus olhos. Olhe para o jeito como se movem. Essas pessoas já estão mortas.
- Nunca vi mortos andarem...
- Também não comandante. Mas só estou esperando uma ordem e farei com que voltem a ficar parados.
Sun analisou a situação por um momento. Mas ao ver que eles chegavam cada ver mais perto, decidiu-se:
- Vá - ela ordenou. - Acabe com todos eles.
Empunhando sua espada, Grim avançou.
Sun percebeu como suas habilidades eram bem desenvolvidas. Ele acertava um alvo com perfeita precisão e desviava ao mesmo tempo das mordidas dos estranhos seres. A cada corte que ele dava, percebia que o corpo era totalmente desprovido de sangue.
Em poucos segundos, somente um cadáver restava em pé. E Grim avançou em seu ataque, ao mesmo tempo que ouviu o grito de Sun ordenando que parasse. Mas era tarde demais, e a espada dele cortou a carne branca de uma mulher de cabelos pretos com um furo no peito.
Ele viu quando Sun passou correndo por ele e segurou o cadáver antes que este tocasse o chão. Ela ajoelhou-se e deitou o corpo morto carinhosamente em suas pernas. E passou a mão pelo cabelo preto para ver melhor aquela face branca.
- M-Mãe? - ela falou baixinho.

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