Capítulo II - A Menina Enterrada
2 Anos Atrás
Sun estava frente a frente com seu inimigo. Se encontrava em posição de ataque aguardando quando ele começaria seu primeiro movimento. O oponente era um homem. No entanto, não era possível ver mais nada, pois ele vestia armadura e elmo. Ele mantinha a espada na mão, nervosamente analisando os movimentos de sua rival. Em posição de ataque, investiu para a frente, atacando quando se aproximou de Sun que se encontrava ainda parada. Ela abaixou-se no momento que a lâmina cortou o espaço acima de sua cabeça e com um golpe dado com o cabo de sua espada, derrubou o elmo do oponente no chão. Ele deu dois passos para trás. Sun o olhou e sorriu, correu para sua direção e girou a espada, parando a centimetros de seu pescoço.
- Ótimo - uma voz feminina falou atrás de Sun. - Muito bem Sun, como esperado.
Sun se virou e encarou a mulher de cabelos pretos na altura do ombro que se aproximava, vestindo também uma armadura e carregando uma espada na mão.
- Comandante Bela - Sun virou-se, sorrindo. - Obrigada.
- Ora, não me agradeça. É verdade. Você tem muito potencial como guerreira. E evolui rápido. Provavelmente em menos de três anos se tornará comandante também. Pode ficar com minha vaga. Seria uma ótima substituta.
- A comandante vai mesmo sair? - Perguntou Sun, guardando a espada na bainha.
- Oh sim. Sabe, fui pedida em casamento. Sempre sonhei em ter uma vida doméstica com um homem que amo. - o rosto dela estava radiante.
- Se for o caso, por que o posto de comandante?
- Por mais que eu sonhasse com isso, nunca imaginei que se tornaria verdade. Além disso, foi aqui que conheci ele afinal, por isso não me arrependo. Espero que tenhamos um filho, talvez dois, sempre quis ser mãe. Não pretende ter filhos Sun?
- Não - Sun olhou para baixo, pensativa. - Sou como minha mãe, eu acho. Ela não deveria ter tido filhos, não cometerei o mesmo erro dela.
- Ah, isso é triste...
- Além do mais - falou Sun decidida. - Não me dou bem com crianças...
Presente
Sun estava parada no buraco que abriu quando sua espada tocou a terra. Sem acreditar no que estava a sua frente, parecendo algo ilógico demais. Uma menina de aproximadamente dez anos, com cabelos pretos lisos compridos, tão compridos que tocavam a terra no chão dela. O rosto sujo de terra. Vestia trapos que visivelmente haviam sido feitos por alguém sem nenhuma experiência, também estavam imundos. Os olhos azuis claros em contraste com os cabelos pretos. Ela parecia com um rosto espantado, talvez curiosa.
Ela olhou para o alto, de onde a luz do sol entrava no buraco que era profundo. De onde estavam, era impossível alcançar a superfície.Seu rosto se iluminou em um sorriso e ela levantou a pequena mão suja de terra para cima, deixando os raios de sol passarem através dela.
- Então, isso é luz? - falou, com sua voz infantil.
Sun a olhou curiosa, mas nada disse.
- Aquilo é céu? Ali é terra? - apontando dessa vez para o chão.
- E o que seria? - perguntou Sun impaciente.
- E você é uma pessoa? - agora a menina olhava para a mulher de armadura na sua frente. - Eu sou uma pessoa também, a voz disse.
- A...voz?
- Sim, ela me falou sobre tudo. Sol, terra, céu, pessoas. Ela fala comigo todos os dias.
- Espere aí - Sun abaixou-se para ficar na altura da criança. - Quem fala com você?
- A voz.
- Uma voz? O que é essa voz?
- A voz é a voz.
Sun pensou por algum tempo, olhando confusa a menina que sorria e se impressionava com cada grão de terra que caía pelo buraco.
- Você sabe o que é um nome? - Sun perguntou então.
- Sim, a voz me ensinou.
- E essa voz tem um nome?
Dessa vez a menina que parou para pensar, olhando para Sun.
- Não - ela respondeu. - Nunca perguntei.
Sun suspirou.
- Certo. Então, você tem um nome?
- Sim. - ela respondeu radiante. - A voz me deu um nome. É Yuki!
- Ótimo Yuki, já é algo. Eu sou Sun, uma comandante de Khan. Me diga, de onde você é?
- De onde como?
- Como...por exemplo...onde mora sua mãe?
- O que é mãe?
Sun levantou e encostou as costas na parede de terra atrás de si.
- Onde você vive então? - perguntou, impaciente.
- Aqui...
- Quando diz aqui, você fala... - Sun olhou para o pequeno buraco e fez um gesto abrangendo ele todo. - Aqui? Esse buraco?
- É...Não sabia o que era na verdade. Mas agora que a luz chegou reconheço coisas que a voz me falou.
- Você está mesmo querendo dizer que viveu a vida toda aqui? Sem ver nada? Só falando com essa...essa tal de...voz?
- É... - Yuki sorria enquanto falava.
Atordoada, Sun passou a olhar a menina e percebeu que realmente ela não parecia conhecer nada. Agora ela tinha se abaixado vendo duas formigas andar pela terra com verdadeira admiração. Os cabelos da menina se arrastando pelo chão enquanto ela andava.
Abandonando a visão estranha de Yuki, Sun olhou para cima. Havia um problema. Escalar ali parecia impossível, pois a parede do buraco não havia lugares nos quais se apoiar, além do que a saída estava muito alta. Seja quem for que colocou aquela menina lá, não queria permitir que ela saísse.
- Yuki - Sun falou, ainda olhando para cima. - Sabe algum jeito de sair daqui?
- Sair por quê?
- Deixa pra lá.
* * *
Os outros já haviam voltado ao acampamento e Vlad estava agora fazendo novo fogo para assar dois coelhos que haviam caçado no caminho. Iwazaru estava sentado perto observando-o. Drake dava golpes com sua espada em uma árvore e Nani estava dentro de sua tenda.
Vlad era rápido com seu trabalho e logo o fogo se acendeu. Ele sentou-se e começou a cuidar para que a fogueira não se apagasse. Olhou para Iwazaru que estava concentrado nas chamas que subiam.
- Iwazaru, certo? - Vlad falou. - Não se preocupe. Sei que você não fala. Talvez por isso mesmo seja a pessoa mais indicada para se conversar aqui. Mas de fato estou curioso. É uma doença que o impede de ter voz?
Iwazaru só olhou para Vlad e abriu sua boca, revelando que onde deveria estar sua língua, não havia nada.
- Cortaram sua língua, é? - Vlad constatou. - Isso me faz imaginar quem seria capaz de tal atrocidade. Mas como você não pode me contar de qualquer modo, ficará sendo só uma curiosidade. Embora eu ache que sua amiga loira saiba do que aconteceu, não estou certo?
- Se está ou não certo não é um ponto importante - Vlad ouviu a voz de Nani por detrás de si enquanto sentiu a ponta de uma lança encostar em suas costas.
Quando ele virou-se, viu Nani sorrindo, apontando sua lança para ele. No entanto, ela retirou a lança e foi sentar-se ao seu lado, olhando-o com seus profundos olhos verdes.
- Sabe, estou curiosa - falou ela, sorrindo como sempre. - Por que Iwazaru? Por que conversar com alguém que não pode falar?
- Gosto de ouvir minha própria voz, madame. Embora sua voz seja mais doce.
Ela riu.
- Muito galanteador, senhor Vlad. No entanto, sou mais velha que você. E afinal, eu não cairia nessa. Apesar de achar que desse pequeno grupo você é a pessoa mais interessante.
- Devo discordar, madame.
- Eu sei. Percebo sempre tudo. Sei que há alguém nesse grupo que você admira. Sei também que está preocupado com essa pessoa e gostaria que ela estivesse aqui agora.
- De fato, gostaria que comandante Sun estivesse aqui. Ela tem sido uma boa amiga por todo esse tempo. E realmente gosto da presença dela. Também admito que estou preocupado, embora saiba que não tenho razões. Sun voltará logo, certamente. Mesmo se acontecesse de ela encontrar uma bruxa nessa floresta, ela a derrotaria. Ou, ao ver que é impossível derrotá-la, ela conseguiria escapar.
- Uma confiança e tanto que você deposita naquela jovem. Pessoalmente, eu não me espantaria se da próxima vez que adrentassemos essa floresta, achassemos o cadáver dela perto de alguma árvore ou jogado em algum buraco.
Vlad riu e olhou nos olhos de Nani.
- Você não conhece mesmo ela. - ele falou.
Foi quando ouviram um barulho de folhas se mechendo. Nani, Vlad e Iwazaru olharam atento para o local de onde vinha o som, enquanto Drake continuou a golpear a árvore, provavelmente não percebendo nada.
Por entre as folhas das árvores, em direção ao acampamento, uma silhueta de uma pessoa grande apareceu. Dessa vez Drake também percebeu e parou com seus golpes, olhando para a direção da mata de onde vinha um homem de físico forte, um pouco maior que Drake, armadura pesada, os cabelos pretos longos, caindo em volta do rosto, e com uma espada em mãos.
Vlad rapidamente se pôs em guarda, seguido por Iwazaru. Drake ainda observava de longe e Nani, com seu habitual sorrriso, continuava sentada.
- Quem é você? - perguntou Vlad.
- Órion. Fiel guerreiro sobre as ordens de Ártemis. - ele brandiu a espada para frente.
Ouviram uma risada feminina vindo de cima das árvores e uma voz de menina falou:
- Nos encontramos então.
* * *
Sun estava sentada no chão de terra do buraco, olhando para cima, pensando em uma maneira de escapar. Yuki corria para todo lugar ao seu lado, maravilhada pela luz. Pegava formigas e apertava-as, deixando seus pedaços caírem ao chão. Algumas a mordiam. Nessas horas ela dava um pequeno grito e soltava a formiga longe.
Impaciente, Sun levantou-se e começou a andar de um lado para outro, planejando. Sabia que ninguém viria por ela. A única pessoa na equipe que ela tinha certeza que se preocupava com ela era Vlad. E ele acreditaria que ela não precisaria de ajuda. Em outras situações, realmente não precisaria. Mas agora estava em um problema diferente. Não exatamente perigoso, mas impossível de se escapar.
- Eram esses os bichos que andavam encima de mim me encomodando. - Yuki falou. - Bichos feios e pequenos. Morrem fácil. E tem gosto ruim. A voz me falou deles. Mas são mais idiotas do que pensei.
- Menina - Sun falou então. - Estou muito feliz que está nessa descoberta ao seu pequeno mundo. Mas por favor, me deixe pensar em um modo de sair daqui. Só fale se souber de algum meio para escalarmos esse buraco idiota.
- Mas por que você quer sair?
Sun suspirou. Virou-se para Yuki e ajoelhou-se em sua frente.
- Você está gostando das coisas que está vendo aqui? - ela perguntou.
Yuki concordou com a cabeça.
- Pois é. Fora desse buraco, há um mundo muito maior. Um mundo gigantesco de coisas novas para você descobrir, brincar e matar. Fazer o que quiser. Essa sua amiga voz não falou disso?
- Falou sim. Sobre um mundo grande. Ele é maior que esse buraco?
- É muito, muito, muito maior. É imenso. E você pode viver sua vida inteira nele sem ter visto nem sua metade. Você gosta dessa idéia?
Yuki concordou radiante.
- Então, você quer ir para esse mundo imenso?
- Quero! - ela concordou imediatamente.
- Então me ajude a achar um jeito de sair. Deve haver algum modo. Essa sua...voz...ou seja lá o que for. Se algo vinha mesmo aqui, deveria entrar por algum lugar.
- Ela vem por ali. - falou Yuki, apontando para um dos lados da parede. - Eu ouço ela vindo.
Sun olhou para a grande porção de terra, incrédula.
- Bom, não podemos ir por ali - falou. - Mas deve haver outro jeito. Então me ajude a encontrar e não tire minha concentração.
- Tá - Yuki declarou, decidida. - Eu vou ajudar.
E então Yuki começou a examinar cada lado do buraco enquanto Sun pensava nas alternativas que tinha, embora não tivesse encontrado nenhuma que fizesse sentido ainda.
Depois de algum tempo, as duas se cansaram. Yuki deitou-se no chão enquanto Sun escorou-se na parede de terra. Simplesmente não haviam achado nada que pudesse sugerir um modo de escapar daquele buraco. Sun baixou a cabeça desanimada.
Mas então ouviu um som de passos acima de si, na floresta, como se alguém se aproximasse. Sabendo que não podia se tratar de Vlad, ela ficou em guarda, segurando a espada cautelosa e temendo, sendo que se viesse um ataque de cima, provavelmente não poderia evitar. Levantou os olhos para cima, assim como Yuki fez, embora a menina estivesse com uma expressão menos preocupada.
Sun fez sinal para que a garota ficasse em silêncio e ela assentiu com a cabeça sorrindo, parecendo achar que aquilo era uma brincadeira. Os passos se tornavam mais próximos e Sun imaginava o que faria se alguém a atacasse ali, naquela posição desfavorável em que se achava. segurou firme na espada e esperou que os passos chegassem.
Percebeu que a pessoa já estava em frente ao buraco. Nervosa, se preparou para atacar como pudesse quando de cima viu apontar um rosto olhando para dentro. Sun relaxou a mão ao ver o rosto de Grim analisar o fundo do buraco, confuso.
- Comandante? O que você faz aí embaixo? - ele perguntou.
- O que você acha? Exploração que não é. Eu caí. - ela respondeu, embaiando a espada. - Mas, ainda bem que você apareceu. Preciso de ajuda para sair daqui.
- Sim comandante! O que devo fazer?
- Procure algo que de para usar como corda. Algo que não vá arrebentar. E jogue para mim.
- Entendido comandante!
Falando isso, ele saiu. Alguns minutos depois, um forte cipó foi baixado para dentro do buraco.
Sun ajudou Yuki a agarrar-se na corda. Ela o fez maravilhada, enquanto subia para cima, para fora do buraco onde viveu a vida inteira. Após a menina subir, Sun agarrou-se na corda e também subiu, auxiliada por Grim que a puxava de cima.
Ao sair, Sun esticou os braços para frente e os movimentou. Yuki parecia hipnotizada, observando paralisada tudo que sua visão captava. Uma borboleta que passava voando, um lagarto entre as folhas, tudo era razão para se maravilhar.
- Muito bem Grim - Sun agradeceu, olhando para ele séria. - Aprecio o que fez aqui, um bom trabalho soldado. Será recompensado quando voltarmos. Mas então, por favor, se puder nos guiar até o acampamento...
- Não posso comandante. - Grim respondeu, sem mudar sua expressão.
Sun o olhou, esperando de novo ele complementar com algo, mas Grim ficou em silêncio.
- Só nos leve para o caminho por onde veio. - Ordenou então Sun.
- Isso será impossível, comandante.
- Hã? Impossível? Como assim? - Sun perguntou confusa.
Sem mudar de expressão, de forma calma, Grim respondeu:
- Não podemos usar o caminho por onde vim para voltar. Eu não conseguia achar a comandante. Procurei algum modo de atravessar o rio, mas não encontrei, e achei que não deveria demorar muito. Então voltei até onde a comandante caiu e me atirei, esperando que a água me levasse para até onde a comandante se encontrava. E foi isso, comandante.
Depois de alguns segundos em que Sun, incrédula, olhou para Grim, ela perguntou:
- Está brincando, não?
- Não comandante.
- Você realmente foi até a parte do rio que caí e se atirou?
- Precisamente comandante.
- Isso é... - Sun colocou a mão na testa e balançou a cabeça. Mas de subito parou e voltou a olhar para o guerreiro na sua frente. - Que seja, você foi de grande ajuda aqui ainda. Provavelmente não poderia sair desse buraco sem você. Por agora, vamos continuar procurando um modo de voltarmos ao acampamento. Grim, você irá atrás, eu irei na frente, fique atento. Já tive contato com nossa inimiga.
Grim assentiu.
- Yuki - Sun chamou, não conseguindo a atenção da garota que tentava pegar uma borboleta. - Yuki! - chamou de novo, dessa vez fazendo a garota se virar. - Vamos - ela ordenou então e a menina a seguiu.
* * *
Envolto pelas sombras de uma árvore acima, um homem observou enquanto Sun, Yuki e Grim se distanciavam do buraco e adentravam a floresta. Ele analisou o rosto de Sun e sentiu a mão tremer.
- O que está sentindo? - perguntou uma voz feminina atrás de si. - Alegria? Nostalgia? Ou saudade?
- Cale-se - replicou o homem rudemente.
- Me desculpe, Tsuki - a voz feminina desculpou-se então. - Você sabe, Órion e ela já foram encontrar os outros. Ela me ordenou que observasse você. Desculpe.
- Tudo bem.
- Você está mesmo bem com tudo isso?
Tsuki olhou para as árvores no qual Sun e os outros haviam sumido momentos atrás e respondeu:
- Sim Helen. Sigo as ordens dela, é só o que me resta agora.
- Então vamos.
E então os dois sumiram em meio aos galhos.
* * *
Sun andava na frente, atenta a qualquer movimento. Atrás dela, Yuki andava saltitando, se espantando até mesmo com o som que seus pés descalços faziam na mata. Algumas horas pisava em seu cabelo longo e desequilibrava, mas logo retomava controle e continuava a andar. Grim vinha atrás, de cabeça baixa, mas com ouvidos apurados a qualquer ruído ameaçador.
- E essa criança? - ele perguntou, após algum tempo de silêncio.
- Vivia naquele buraco - Sun respondeu. - Ela me disse que viveu a vida inteira lá, aos cuidados de uma tal de voz. Sinceramente, não faz sentido. Mas não podiamos deixá-la lá.
Yuki continuava andando despreocupada, provavelmente sem perceber que falavam dela.
- Comandante, me desculpe - Grim falou repentinamente.
Mesmo espantada por aquilo tão de repente, Sun não parou. No entanto falou:
- Tudo bem Grim. Já disse que foi de grande ajuda mesmo que não possa nos levar de volta.
- Não, não é isso. Me desculpe por...antes. Se eu tivesse sido mais rápido, a comandante não teria caído.
Parando de repente e se virando para encarar Grim, Sun estatou, curiosa:
- Isso? Tudo bem, foi descuido meu também. E nenhum dos outros nem mesmo chegou a ver algo vindo. Suas habilidades são incríveis de qualquer modo. Nem mesmo Vlad pareceu perceber.
- Mesmo assim, sinto muito por não poder proteger você. - Grim mantinha a cabeça baixa.
- Tudo bem...você é estranho.
Estatando isto, Sun voltou a andar.
Após alguns minutos de silêncio, não aguentando aquilo, Sun resolveu falar com Yuki. Tentava assim descobrir um pouco mais sobre o passado da garota também.
- Yuki - ela falou, e os olhos da menina viraram-se radiantes para ela. Ela parecia apreciar ouvir seu nome. - Você realmente não sabe quem são seus pais?
- O que são pais?
- Mãe e pai. Sabe, um homem e uma mulher que a criam e cuidam de você?
- Homem e mulher que criam... - Yuki falou pensativa. E então teve uma reação de descoberta ao falar: - Então a voz é meu pai...ou minha mãe...!
- De algum modo eu acho que seria estranho uma voz ter filhos - Sun constatou.
Animada por uma nova idéia, Yuki virou a cabeça para a direção de Grim.
- Você tem pais, pessoa? - ela perguntou.
- Tenho sim - respondeu Grim, levantando a cabeça para olhá-la. - E meu nome é Grim.
- Grim! E quem são seus pais?
- Meu pai é...um verdureiro. E minha mãe é...uma mulher estranha.
- Estranha como?
- Estranha.
- Ah... - dessa vez, Yuki virou a cabeça na direção de Sun. - E você Sun? Tem pais?
- É claro. Todos tem.
- E quem são eles?
Sun refletiu um pouco, e sentiu-se triste com a lembrança.
- Bom... - ela disse. - Meu pai desapareceu algum tempo atrás.
- E sua mãe?
Nessa parte, Sun baixou o rosto e falou nervosamente:
- Ela...morreu.
- Como?
- Ela...procurou o que teve. - Sun estava impaciente.
- Por quê?
- Ora, cale a boca! - gritou Sun com raiva e levantou sua mão ao virar-se para Yuki.
No entanto, no momento que Sun desceu o braço para dar um tapa na face da menina, sentiu a mão de Grim parando-a com força.
- Comandante - ele falou calmamente. - Devo supor que você não esteja querendo machucar esta criança.
Sun o olhou com olhos furiosos, mas então, voltando a si, acalmou-se e baixou o braço e o rosto com vergonha.
- Sim - ela falou, com voz baixa. - Eu nunca faria isso. Hã...vamos descansar um pouco. Yuki deve ter cansado.
Yuki não pareceu se abalar com a reação de Sun, pois ainda estava sorrindo e assentiu com a idéia.
A idéia de descançar de Yuki no entanto era diferente. Enquanto Grim e Sun estavam sentados silênciosos no chão, Yuki corria de um lado para outro saltitando. Sun a chamou umas três vezes, mas a menina parecia nunca cansar.
No entanto, depois de correr para vários lados ela parou. Imaginando que ela havia finalmente esgotado suas energias, Sun a chamou novamente. Mas Yuki somente apontou para a direção que estava olhando e falou:
- Veja, mais pessoas.
Grim e Sun levantaram com urgencia e ficaram em guarda com suas espadas. Grim havia sido mais rápidos e já havia se adiantado para frente. Levemente, empurrou Yuki para trás, fazendo-a ir para onde Sun estava em pé. Eles eram visíveis agora. Dez corpos de pele branca, vestindo trapos e andando pelo meio das árvores. Totalmente desarmados, mas com a boca aberta. O corpo de alguns havia ferimentos abertos. Mas deles, nenhuma gosta de sangue existia.
- Grim... - sussurrou Sun.
- Sim - ele falou. - Olhe para o rosto deles comandante. Olhe para seus olhos. Olhe para o jeito como se movem. Essas pessoas já estão mortas.
- Nunca vi mortos andarem...
- Também não comandante. Mas só estou esperando uma ordem e farei com que voltem a ficar parados.
Sun analisou a situação por um momento. Mas ao ver que eles chegavam cada ver mais perto, decidiu-se:
- Vá - ela ordenou. - Acabe com todos eles.
Empunhando sua espada, Grim avançou.
Sun percebeu como suas habilidades eram bem desenvolvidas. Ele acertava um alvo com perfeita precisão e desviava ao mesmo tempo das mordidas dos estranhos seres. A cada corte que ele dava, percebia que o corpo era totalmente desprovido de sangue.
Em poucos segundos, somente um cadáver restava em pé. E Grim avançou em seu ataque, ao mesmo tempo que ouviu o grito de Sun ordenando que parasse. Mas era tarde demais, e a espada dele cortou a carne branca de uma mulher de cabelos pretos com um furo no peito.
Ele viu quando Sun passou correndo por ele e segurou o cadáver antes que este tocasse o chão. Ela ajoelhou-se e deitou o corpo morto carinhosamente em suas pernas. E passou a mão pelo cabelo preto para ver melhor aquela face branca.
- M-Mãe? - ela falou baixinho.
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quinta-feira, fevereiro 5
sexta-feira, janeiro 23
quinta-feira, janeiro 22
Hope Woods - Capítulo I - A Caça à Bruxa
Bom, sou Gerson Carneiro de Souza, 19 anos. Gosto de fazer histórias e enfim...resolvi então fazer essa para esse blog.
Hope Woods se trata primeiramente sobre uma floresta perto de um reino onde surgem rumores da existência de uma bruxa. Preocupado, o rei manda um grupo de 6 pessoas para destruir investigar e eliminar a ameaça. No entanto, enquanto em missão, os 6 descobrirão coisas sobre seus passados, o passado de seus inimigos e do próprio reino que poderão mudar o rumo da missão.
Enfim...é isso.
Hope Woods
Capítulo I - A Caça à Bruxa
Há um reino chamado Kahn. Esse reino, estando sobre o comando do Imperador Atolic, era uma nação isolada do resto do mundo. Tratava negócios com outros reinos raramente, e produzia tudo para seu sustento próprio. Era bloqueado ao norte por uma imensa montanha que ninguém nunca teve coragem de tentar se aventurar. Ao oeste e ao sul era rodeado por um largo rio de nome Atlantis cuja correnteza tornava impossível para qualquer um atravessar, e cujas pontes eram constantemente vigiadas por guardas reais. Sendo assim, aqueles que eram condenados por seus crimes com pena de morte em Kahn e se aventuravam a fugir da prisão e escapar, só tinham um caminho para o qual correr: Hope Woods. Esta era uma floresta que ficava ao leste. Embora fosse a única esperança para os prisioneiros que se aventuravam a procurar outras terras, o imperador nunca mandou soldados para vigiá-la. Isso porque nunca ninguém havia encontrado outra saída de Hope Woods. A floresta era absurdamente extensa e todos que nela entravam para achar seu outro lado acabavam com duas opções: encontrar a morte dentro dela ou voltar depois de semanas para Kahn para lá ser executado.
Mas recentemente, Imperador Atolic começou a demonstrar preocupações com Hope Woods, a partir do momento em que rumores de uma bruxa ser vista no interior dela começaram a aparecer. Com isso, foi montado um pequeno grupo de seis guerreiros para entrar na floresta e eliminar a ameaça.
Após andar por um dia até chegar a Hope Woods e mais meio dia até achar um local plano, seguro e não muito longe da entrada e do rio, a comandante do grupo ordenou que armassem acampamento...
* * *
A menina abriu os olhos e a escuridão de sempre cobriu sua visão. Levantou a mão mas ainda não havia nada para segurar a não ser terra. Tentou ouvir a voz mas ela ainda não estava lá. Ficou então imóvel para viver mais um dia na escuridão.
* * *
As seis tendas do acampamento estavam erguidas e o sol estava quase se pondo. Um dos guerreiros, com cabelos longos e castanhos presos com uma pequena fita preta, os olhos castanhos claros, vestindo um longo manto preto e a bainha com a espada escondida atrás dele, estava sentado em um tronco de árvore caído, acabando de acender uma fogueira.
Do lado esquerdo dele estava sentado um guerreiro vestindo uma armadura leve cinza, com os cabelos pretos desarrumados e olhando para o chão, sentado enquanto se apoia em sua espada cravada no chão à sua frente.
E do outro lado um guerreiro de cabelos loiros e olhos castanhos, vestindo uma armadura pesada prateada, olhando para frente com um rosto sem expressão.
De uma das tendas saiu um guerreiro de físico forte, com cabelos castanhos, vestindo uma pesada armadura preta e carregando nas costas um escudo e uma espada.
Chegando, se sentou no tronco em frente do guerreiro de cabelos longos e soltou um demorado suspiro.
- Ahhhhhh! - ele falou. - Não acredito que finalmente vou conseguir descansar. Dá para imaginar? Andar por um dia e meio e depois ainda ser ordenado a montar uma tenda?
Ninguém falou nada, fazendo ele continuar:
- Mas isso não é problema. Quero dizer, somos soldados, não? É para isso que fomos treinados. Mas ainda, tem algo que me irrita mais. Receber ordens de uma mulher. Nunca pensei que teria de me sujeitar a isso. Ainda mais uma garota como ela. O que vocês acham?
O único a falar algo foi o guerreiro com o manto preto, que sorrindo, comentou:
- Não acho um problema. Afinal, ela é habilidosa, sabe comandar, é forte, além de ser bonita. Pessoalmente, me sinto confiante com uma comandante como ela.
- Bom, eu não me sinto assim... - ele se inclinou para frente. - Quero dizer, já não me casei para não ter uma mulher mandando e mim. E...sei lá...não foi para isso que me tornei soldado. Não sei se conseguirei levar a sério ordens de uma menina. Sinceramente, não acho que ela irá durar muito...
- É melhor falar mais baixo - uma voz feminina falou por trás dele.
Assustado, ele se virou rapidamente. Mas a mulher atrás dele não era a comandante. Era uma mulher loira, com os cabelos armados em uma trança e rosto gentil com olhos verdes. Ela vestia uma espécie de vestido branco, longo, dos ombros até os pés. Carregava na mão uma lança.
Ela deu uma risada ao ver o susto que havia dado.
- Se a comandante escuta você, creio que terá problemas - ela falou. - Ela parece ser uma mulher muito fria e provavelmente cruel. Bom, não sei. Talvez aplique castigos como pendurar encima de uma árvore e deixar que os ursos venham lhe devorar a carne. Espero sinceramente que você não seja ouvido. Não gosto de perder companheiros...assim tão rápido. - ela sorriu de novo, de um modo que pareceu cruel.
Deixando isso de lado, ela postou-se ao lado deles na fogueira. Ficou a ver o fogo queimar enquanto todos ainda estavam em silêncio. Até o guerreiro com o escudo havia ficado quieto, parecendo desconcentrado com algo.
Finalmente, de uma das tendas do fundo, saiu a última guerreira. A comandante do grupo tinha cabelos longos, pretos e ondulados. Carregava uma espada embaiada na cintura e vestia uma armadura leve azulada. Os olhos castanhos escuros eram frios.
Ela chegou perto do grupo, fazendo com que todos se levantassem e formassem uma linha na frente dela sem que ela precisasse ordenar nada. Passando por cada um e analizando-os, ela finalmente parou no meio deles e preparou-se para falar.
- Me chamo Sun Lune e tenho vinte e dois anos, como já devem ter sido informados - ela começou a falar, em tom alto. - Estarei no comando dessa missão e espero que cheguemos ao sucesso dela. Mas para isso, gostaria de saber exatamente com quem estou trabalhando. Sei que vossa majestade já me falou seus nomes, mas pedirei que se apresentem novamente. Bom...primeiramente...você. - ela apontou para o homem que falava dela antes.
- Meu nome é Drake Fargo senhora comandante! - ele falou, alto e nervoso, mantendo-se reto.
- Pois bem... - ela disse, indiferente. - Idade.
- Trinta e dois anos, senhora comandante!
- Corte o senhora, por favor... - ela pôs a mão na cabeça. - Enfim, tem experiência em batalhas?
- Estive em uma guerra senh...hã...comandante. Já estive em uma guerra antes.
- Ah, lutou na guerra?
- Não s...comandante. Eu...hã...eu não fui chamado. Mas eu tive o treinamento, comandante!
- Como? Quer dizer que é um novato?
- É..bom, de certa forma...
Sun suspirou. Fez sinal para que Drake se calasse e olhou para o próximo. O homem de cabelos pretos desarrumados.
- Pois bem, você. Nome.
- Grim Grave.
- Idade.
- Vinte e sete.
- Experiência.
- Sou um guarda do palácio.
- E...?
- Só, comandante.
Ela parou para algum momento, observando o rosto impassível de Grim.
- Bom, pelo menos, quem treinou você?
- Meu pai.
- E o que seu pai faz?
- Verdureiro.
Ela parou por alguns segundos e perguntou novamente:
- Quê?
- Ele vende verduras comandante.
Ela olhou-o esperando que ele dissesse que era uma brincadeira. O rosto de Grim porém continuou do mesmo modo que antes, fazendo-a desistir e passar para o próximo. O homem com o cabelo preso.
- Sei que isso vai parecer estranho, mas...pode se apresentar?
- Vlad Tempire, cara comandante. Vinte e Sete anos. Seu velho amigo a seu serviço. - fez uma mesura.
Sun baixou a cabeça e a balançou.
- Ok, ok - falou, impaciente. - Que seja. Agora o próximo é...você. - apontou para o homem de cabelos loiros.- Começamos por seu nome.
Ele nada falou.
- Idade?
Silêncio.
- Ah, comandante - a mulher loira ao lado dele falou. - Ele não fala.
- O quê? Espera, mas...isso é verdade?
Ele acenou a cabeça positivamente.
- Bom, você sabe escrever pelo menos?
Ele abanou negativamente. Sun suspirou e murmurou:
- Gostaria de pelo menos conseguir um nome.
- O nome dele é Iwazaru comandante. - respondeu a mulher de trança loira, sorrindo.
- Você o conhece?
- Mais ou menos.
- Bom, e quanto a você. Seu nome.
- Nani, comandante. Tenho trinta e cinco anos. Seria a mais velha daqui, mas Iwazaru tem trinta e sete.
- E sua experiência.
- Eu era guardiã de uma criança, comandante.
- Guardiã de uma criança? Como uma babá?
- É, comandante - ela sorriu. - Mas era uma criança problemática.
- E onde está a criança agora?
- Morta, comandante.
Sun parou. Olhou de novo para os membros de sua equipe.Baixou a cabeça e murmurou:
- O que sua majestade estava pensando?
- Comandante, importa-se se eu perguntar uma coisa? - Nani falou.
Sun a examinou e então ordenou:
- Fale.
- Espero que não me leve a mal, mas...A comandante não fica nervosa sendo a mais nova da equipe? - ela falou, sorrindo. Um sorriso vil.
- Não. - Sun respondeu firmemente. - Mas que bom que tocou nesse assunto. Perguntarei agora, e se ficarem calados, não vou tolerar reclamações futuramente. E podem responder sinceramente. Nesse momento, não haverá consequência. Algum de vocês tem algum problema com o fato de eu ser mais nova? Ou de eu ser uma mulher? - olhou para Drake na última pergunta.
Todos ficaram calados por alguns segundos. Drake pareceu estar tentando falar algo, reclamar. Mas parecia nervoso ou com medo. Percebendo isto, Sun dirigiu-se até ele e parou na sua frente. Encarou-o com olhos frios.
- Algum problema, Drake?
- N...n...não comandante.
- Ótimo então - falou se afastando de novo. - Sendo assim, não aceitarei reclamações desse tipo futuramente. Estou supondo que todos estão satisfeitos. Descansem por hoje, durmam. Amanhã nós sairemos para fazer um reconhecimento da área. Ficarei de guarda essa noite. Sintam-se livres para fazer o que quiserem, a partir de agora.
No que Sun terminou de falar, todos sairam de sua posição, enquanto ela retornava para a tenda. Uma vez lá dentro, ela tirou uma pequena caixa de metal de uma das sacolas que trouxe e ficou olhando, até ser interrompida por alguém que chamou de fora da tenda.
- Posso entrar comandante? - ouviu-se a voz de Vlad.
- Claro Vlad. E por favor, me chame de Sun como sempre.
- Mas você é a comandante - ele entrou e sentou-se na frente dela. - Não acho que seria apropriado chamá-la por seu nome, mesmo que nos conheçamos.
- Que seja. O que quer, Vlad? - ela falou impaciente.
- Comandante, vai mesmo ficar a noite toda acordada?
- Algum problema com isso?
- Não é isso. Mas se quiser que eu a ajude, ou fique para você.
- Tem medo que eu durma durante a noite, Vlad?
- Não, comandante. De modo algum. Mas você está provavelmente muito cansada. Andamos demais e...
- Vlad, estarei melhor acordada. Amanhã faremos um esquema para a vigia. Eu ficarei sozinha esta noite. Acredite, não estou com sono.
- Tudo bem, comandante. Só prezo por seu bem.
- Eu sei, Vlad. Agora me deixe sozinha por favor.
* * *
Durante a noite, Sun sentou-se na frente das tendas e pegou a pequena caixa de metal na mão. Segurou-a firme, abandonando a espada, cravada na terra. A lua no céu iluminava bem a floresta e ela podia ficar atenta a qualquer movimento. Inclinou a cabeça para baixo, sempre mantendo os olhos na pequena caixa.
- Pai. Se você estivesse aqui, ficaria orgulhoso de mim? Ou será que me criticaria? Afinal, onde você está? Eu queria te ver, queria que você me visse como comandante. Eu segui o que você sempre acreditou, a lealdade com nossa majestade. Pai, onde está você?
Ela limpou uma lágrima que escorria por seu rosto e olhou para o céu.
- Tsuki. Onde você está?
Outra lágrima molhou a terra abaixo de Sun.
* * *
Quando todos levantaram, Sun já tinha matado um coelho na floresta para comerem antes de partir. Após todos terminarem, e Drake reclamar da carne não estar bem assada, Sun os organizou para então adrentar a floresta.
Ela foi na frente, seguida por Drake e Nina, depois seguiam Grim e Iwazaru, seguidos por Vlad. Nessa formação, andavam ao comando de Sun, que passava por árvores cuidando atentamente os lados, esperando ver seu alvo, a bruxa. Ela não sabia como ela era, por isso ficava atenta a qualquer barulho que escutava. No caminho acabou matando cinco coelhos. Um urso que tentou atacá-la e foi cortado ao meio por Drake. Nina só observou a tudo sorrindo.
Depois de algum tempo andando e analisando as áreas, o grupo parou para descansar. Sun começou a passar um pote de água que havia pegado da parte do rio perto do acampamento para todos. Quando passou para Nina falou:
- Obrigada pela ajuda lá atrás.
- Não há de que comandante - ela bebeu um gole e então retornou. - Na verdade, acreditei em sua habilidade. De que eu não seria necessaria.
- Se você for mais rápida e impedir ferimentos desnecessários, eu não acharia um incomodo.
- Não queria interferir até saber como você luta.
- Era um urso, eu não ia lutar contra ele.
- Eu o matei comandante - Drake falou orgulhoso.
- E você quer o que? - Sun retrucou. - Todos vocês. - ela levantou. - Não estão aqui para ganhar prêmios nem gratidão. E sim para fazer seu trabalho. Se alguém reconhecerá isso depois, será sua majestade. Mas se não fizerem o que for possível. Se não fizerem tudo o que podem. Não podem se considerar soldados fiéis de Kahn e serão mandados de volta ou eu mesmo os mato aqui.
- Comandante - falou Vlad, levantando. - o som da água.
- Sim, estivemos seguindo o Rio Atlantis, então...
- Sim, eu sei. Mas esse som...está muito longe.
Sun levantou-se e foi até onde o local de onde o som vinha. Os outros a seguiram. Ela chegou perto da margem que deveria ser a margem direita do rio mas não o achou. Chegou mais perto e olhou para baixo visualizando um penhasco que levava para o rio muito abaixo.
- Subimos muito, nem percebi - Vlad estatou.
- Droga! - praguejou Sun. - Calculei mal. Havia mais subida do que pensei.
- No que isso muda? - perguntou Drake indiferente.
- Idiota! - Sun virou-se para ele quando gritou. - Precisamos de todos os detalhes. Estamos enfrentando uma provavel bruxa aqui. Essa batalha será provavelmente muito imprevisivel. Se vocês não entendem a gravidade da situação...
- Comandante! - Grim gritou de repente.
Ele jogou a espada que carregava no chão mas pareceu ter errado o alvo porque olhou preocupado para onde o alvo provavelmente se dirigia.
Ninguém viu nem sabia no que ele havia mirado até uma serpente saltar do mato alto e pular na direção de Sun. Ela tentou cortá-la com a espada mas desequilibrou-se e caiu para trás, caindo do penhasco em direção ao rio. Todos correram para olhar só para ver que ela já havia sido levada pela água.
- Comandante! - gritou Drake. - Comandante Sun!
- Cale a boca - ordenou Vlad. - Ela se foi. Levada pelo rio.
- Ela morreu? - perguntou Nina, ainda sorrindo.
- Não mesmo. - Vlad discordou. - Sun está viva com certeza. - ele também sorriu. - Seria preciso mais do que uma queda para acabar com aquela garota. Vamos continuar fazendo o que podemos até que ela volte.
Grim caminhou até onde havia atirado sua espada e a retirou da terra.
- Esperá-la voltar? - ele perguntou. - Não vamos procurá-la?
- Aquela garota provavelmente terá mais chances de sobreviver do que nós se formos buscá-la. Acredite em mim, eu a conheço. Ela está bem.
Grim embaiou a espada nas costas e começou a andar para dentro da floresta.
- Eu vou atrás dela. Vocês podem voltar ao que estavam fazendo.
- Se você quiser, pode ir. Não sou um comandante e não serei eu a dar ordens. - Vlad falou e deu um passo à frente. - Saiba, porém, que isso não foi sua culpa.
Grim parou por um segundo e então, sem falar nada ou fazer algum gesto, seguiu em frente, adentrando a floresta.
* * *
Sun conseguiu segurar-se em uma rocha no caminho e encaminhou-se para a margem esquerda do rio. Com dificuldade, conseguiu deitar-se sobre o mato molhado. Ficou algum tempo deitada ofegando e olhando para o céu.
"Droga." pensou. "Isso sim foi descuido"
Ela levantou e olhou para os lados. Segurou o cabelo molhado e tirou dele o máximo de água que conseguia. Olhou para o outro lado do rio. Para retornar ao acampamento, precisaria atravessá-lo. Olhou para a correnteza violenta que a empurraria para frente se entrasse nele. Vendo não haver outra solução, decidiu aventurar-se a achar um caminho pela floresta.
Tentou encontrar algo que lhe desse idéia de como atravessar para o outro lado do rio. Porém, quanto mais pensava na possibilidade, mais impossível parecia. Depois de tanto andar, decidiu-se por descansar um tempo sentada ao pé de uma árvore. Já havia andado bastante, sempre cuidando para não se afastar demais do rio.
Pegou um pote que havia enchido de água e a bebeu. Sentiu uma pancada na cabeça e olhou para o chão no exato momento que uma maçã rolava. Ouviu uma risada feminina acima de si.
Levantou-se e olhou para o alto da árvore. Sentada sobre um dos galhos estava uma jovem garota de cabelos vermelhos e lisos muito compridos, tanto que colocados para frente, da maneira que estava, alcançavam seus pés. Ela tinha olhos muito escuros, com um brilho sobrenatural. Vestia-se com um vestido vermelho que cobria de seus ombros até onde começam os pés. Acima de si uma serpente, que Sun constatou parecer a mesma que havia provocado sua queda, se enrolava em alguns galhos enquanto observava quietamente para baixo.
- Você! - gritou Sun, se pondo em guarda com sua espada. - Você é a bruxa!
- Ora... - a voz de cima desceu até Sun, melodiosa. - Uma bruxa? Eu? Que rude!
Sun empunhou mais fortemente a espada e cerrou os dentes.
- Oh, entendi. Essa foi a ordem de sua majestade, não? Destrua a bruxa. Ah, ele nunca aprende. Mas sim, creio que sou bruxa de certo modo.
Ela desceu da árvore, deixando a serpente sozinha lá encima. Ao chegar mais perto, Sun percebeu que era uma jovem com aparentemente uns quinze anos.
A bruxa aproximou-se da comandante e tocou-lhe uma mecha de cabelo, fazendo-a recuar com pressa. Ela deu uma leve risada e continuou a falar.
- Medo? Bom, eu entendo de certa forma. - jogou os longos cabelos para trás do corpo. Deu uma mordida em uma maçã que tinha na mão. - Mas sabe, comandante Sun, não quero lutar com você agora. Para falar a verdade, estou interessada em saber como você luta e se poderia usar isso a meu favor. Também tenho interesse em alguns membros de sua equipe. Então, por favor, não morra até que eu a venha encontrar novamente.
Após uma brisa forte que fez com que Sun protegesse os olhos, a bruxa desapareceu. Olhando para cima, a comandante percebeu que a serpente também havia sumido. No entanto, não relaxou. Começou a andar pelas árvores novamente com um cuidado para com cada barulho que ouvia. Embora tivesse achado ser sincero o que a garota de cabelos vermelhos falou.
Após duas horas de caminhada, Sun novamente sentiu-se cansada. Sentou-se encostada a uma árvore e novamente começou a tomar água. Foi quando ouviu barulhos que pareciam vir debaixo da terra.
Curiosa, ela começou a identificar de onde vinham os ruídos. Tocando levemente com a espada ela seguiu o som e acabou achando um local onde a terra parecia estar mais macia e parecia oca. Encostou a cabeça no chão e tentou escutar melhor. Para sua surpresa, ouviu uma voz de criança que parecia cantarolar.
- Oi! - gritou Sun se sentindo uma idiota. No entanto, após alguns segundos chegou a resposta de uma voz infantil.
- Oi?
Espantada por imaginar que alguém poderia viver embaixo da terra, Sun ficou algum tempo sem ação. Pensou que poderia ser um truque da bruxa. No entanto, sua curiosidade venceu por fim.
- Você está mesmo aí? - ela perguntou.
- Aí onde?
- Embaixo da terra.
- Que terra?
Confusa, Sun levantou-se.
- Espera um pouco! - ela gritou.
Então, planejou cavar um buraco usando sua espada para descobrir quem estava lá dentro. No entanto, com só um golpe da espada no chão, a terra cedeu e ela desabou junto...
Hope Woods se trata primeiramente sobre uma floresta perto de um reino onde surgem rumores da existência de uma bruxa. Preocupado, o rei manda um grupo de 6 pessoas para destruir investigar e eliminar a ameaça. No entanto, enquanto em missão, os 6 descobrirão coisas sobre seus passados, o passado de seus inimigos e do próprio reino que poderão mudar o rumo da missão.
Enfim...é isso.
Hope Woods
Capítulo I - A Caça à Bruxa
Há um reino chamado Kahn. Esse reino, estando sobre o comando do Imperador Atolic, era uma nação isolada do resto do mundo. Tratava negócios com outros reinos raramente, e produzia tudo para seu sustento próprio. Era bloqueado ao norte por uma imensa montanha que ninguém nunca teve coragem de tentar se aventurar. Ao oeste e ao sul era rodeado por um largo rio de nome Atlantis cuja correnteza tornava impossível para qualquer um atravessar, e cujas pontes eram constantemente vigiadas por guardas reais. Sendo assim, aqueles que eram condenados por seus crimes com pena de morte em Kahn e se aventuravam a fugir da prisão e escapar, só tinham um caminho para o qual correr: Hope Woods. Esta era uma floresta que ficava ao leste. Embora fosse a única esperança para os prisioneiros que se aventuravam a procurar outras terras, o imperador nunca mandou soldados para vigiá-la. Isso porque nunca ninguém havia encontrado outra saída de Hope Woods. A floresta era absurdamente extensa e todos que nela entravam para achar seu outro lado acabavam com duas opções: encontrar a morte dentro dela ou voltar depois de semanas para Kahn para lá ser executado.
Mas recentemente, Imperador Atolic começou a demonstrar preocupações com Hope Woods, a partir do momento em que rumores de uma bruxa ser vista no interior dela começaram a aparecer. Com isso, foi montado um pequeno grupo de seis guerreiros para entrar na floresta e eliminar a ameaça.
Após andar por um dia até chegar a Hope Woods e mais meio dia até achar um local plano, seguro e não muito longe da entrada e do rio, a comandante do grupo ordenou que armassem acampamento...
* * *
A menina abriu os olhos e a escuridão de sempre cobriu sua visão. Levantou a mão mas ainda não havia nada para segurar a não ser terra. Tentou ouvir a voz mas ela ainda não estava lá. Ficou então imóvel para viver mais um dia na escuridão.
* * *
As seis tendas do acampamento estavam erguidas e o sol estava quase se pondo. Um dos guerreiros, com cabelos longos e castanhos presos com uma pequena fita preta, os olhos castanhos claros, vestindo um longo manto preto e a bainha com a espada escondida atrás dele, estava sentado em um tronco de árvore caído, acabando de acender uma fogueira.
Do lado esquerdo dele estava sentado um guerreiro vestindo uma armadura leve cinza, com os cabelos pretos desarrumados e olhando para o chão, sentado enquanto se apoia em sua espada cravada no chão à sua frente.
E do outro lado um guerreiro de cabelos loiros e olhos castanhos, vestindo uma armadura pesada prateada, olhando para frente com um rosto sem expressão.
De uma das tendas saiu um guerreiro de físico forte, com cabelos castanhos, vestindo uma pesada armadura preta e carregando nas costas um escudo e uma espada.
Chegando, se sentou no tronco em frente do guerreiro de cabelos longos e soltou um demorado suspiro.
- Ahhhhhh! - ele falou. - Não acredito que finalmente vou conseguir descansar. Dá para imaginar? Andar por um dia e meio e depois ainda ser ordenado a montar uma tenda?
Ninguém falou nada, fazendo ele continuar:
- Mas isso não é problema. Quero dizer, somos soldados, não? É para isso que fomos treinados. Mas ainda, tem algo que me irrita mais. Receber ordens de uma mulher. Nunca pensei que teria de me sujeitar a isso. Ainda mais uma garota como ela. O que vocês acham?
O único a falar algo foi o guerreiro com o manto preto, que sorrindo, comentou:
- Não acho um problema. Afinal, ela é habilidosa, sabe comandar, é forte, além de ser bonita. Pessoalmente, me sinto confiante com uma comandante como ela.
- Bom, eu não me sinto assim... - ele se inclinou para frente. - Quero dizer, já não me casei para não ter uma mulher mandando e mim. E...sei lá...não foi para isso que me tornei soldado. Não sei se conseguirei levar a sério ordens de uma menina. Sinceramente, não acho que ela irá durar muito...
- É melhor falar mais baixo - uma voz feminina falou por trás dele.
Assustado, ele se virou rapidamente. Mas a mulher atrás dele não era a comandante. Era uma mulher loira, com os cabelos armados em uma trança e rosto gentil com olhos verdes. Ela vestia uma espécie de vestido branco, longo, dos ombros até os pés. Carregava na mão uma lança.
Ela deu uma risada ao ver o susto que havia dado.
- Se a comandante escuta você, creio que terá problemas - ela falou. - Ela parece ser uma mulher muito fria e provavelmente cruel. Bom, não sei. Talvez aplique castigos como pendurar encima de uma árvore e deixar que os ursos venham lhe devorar a carne. Espero sinceramente que você não seja ouvido. Não gosto de perder companheiros...assim tão rápido. - ela sorriu de novo, de um modo que pareceu cruel.
Deixando isso de lado, ela postou-se ao lado deles na fogueira. Ficou a ver o fogo queimar enquanto todos ainda estavam em silêncio. Até o guerreiro com o escudo havia ficado quieto, parecendo desconcentrado com algo.
Finalmente, de uma das tendas do fundo, saiu a última guerreira. A comandante do grupo tinha cabelos longos, pretos e ondulados. Carregava uma espada embaiada na cintura e vestia uma armadura leve azulada. Os olhos castanhos escuros eram frios.
Ela chegou perto do grupo, fazendo com que todos se levantassem e formassem uma linha na frente dela sem que ela precisasse ordenar nada. Passando por cada um e analizando-os, ela finalmente parou no meio deles e preparou-se para falar.
- Me chamo Sun Lune e tenho vinte e dois anos, como já devem ter sido informados - ela começou a falar, em tom alto. - Estarei no comando dessa missão e espero que cheguemos ao sucesso dela. Mas para isso, gostaria de saber exatamente com quem estou trabalhando. Sei que vossa majestade já me falou seus nomes, mas pedirei que se apresentem novamente. Bom...primeiramente...você. - ela apontou para o homem que falava dela antes.
- Meu nome é Drake Fargo senhora comandante! - ele falou, alto e nervoso, mantendo-se reto.
- Pois bem... - ela disse, indiferente. - Idade.
- Trinta e dois anos, senhora comandante!
- Corte o senhora, por favor... - ela pôs a mão na cabeça. - Enfim, tem experiência em batalhas?
- Estive em uma guerra senh...hã...comandante. Já estive em uma guerra antes.
- Ah, lutou na guerra?
- Não s...comandante. Eu...hã...eu não fui chamado. Mas eu tive o treinamento, comandante!
- Como? Quer dizer que é um novato?
- É..bom, de certa forma...
Sun suspirou. Fez sinal para que Drake se calasse e olhou para o próximo. O homem de cabelos pretos desarrumados.
- Pois bem, você. Nome.
- Grim Grave.
- Idade.
- Vinte e sete.
- Experiência.
- Sou um guarda do palácio.
- E...?
- Só, comandante.
Ela parou para algum momento, observando o rosto impassível de Grim.
- Bom, pelo menos, quem treinou você?
- Meu pai.
- E o que seu pai faz?
- Verdureiro.
Ela parou por alguns segundos e perguntou novamente:
- Quê?
- Ele vende verduras comandante.
Ela olhou-o esperando que ele dissesse que era uma brincadeira. O rosto de Grim porém continuou do mesmo modo que antes, fazendo-a desistir e passar para o próximo. O homem com o cabelo preso.
- Sei que isso vai parecer estranho, mas...pode se apresentar?
- Vlad Tempire, cara comandante. Vinte e Sete anos. Seu velho amigo a seu serviço. - fez uma mesura.
Sun baixou a cabeça e a balançou.
- Ok, ok - falou, impaciente. - Que seja. Agora o próximo é...você. - apontou para o homem de cabelos loiros.- Começamos por seu nome.
Ele nada falou.
- Idade?
Silêncio.
- Ah, comandante - a mulher loira ao lado dele falou. - Ele não fala.
- O quê? Espera, mas...isso é verdade?
Ele acenou a cabeça positivamente.
- Bom, você sabe escrever pelo menos?
Ele abanou negativamente. Sun suspirou e murmurou:
- Gostaria de pelo menos conseguir um nome.
- O nome dele é Iwazaru comandante. - respondeu a mulher de trança loira, sorrindo.
- Você o conhece?
- Mais ou menos.
- Bom, e quanto a você. Seu nome.
- Nani, comandante. Tenho trinta e cinco anos. Seria a mais velha daqui, mas Iwazaru tem trinta e sete.
- E sua experiência.
- Eu era guardiã de uma criança, comandante.
- Guardiã de uma criança? Como uma babá?
- É, comandante - ela sorriu. - Mas era uma criança problemática.
- E onde está a criança agora?
- Morta, comandante.
Sun parou. Olhou de novo para os membros de sua equipe.Baixou a cabeça e murmurou:
- O que sua majestade estava pensando?
- Comandante, importa-se se eu perguntar uma coisa? - Nani falou.
Sun a examinou e então ordenou:
- Fale.
- Espero que não me leve a mal, mas...A comandante não fica nervosa sendo a mais nova da equipe? - ela falou, sorrindo. Um sorriso vil.
- Não. - Sun respondeu firmemente. - Mas que bom que tocou nesse assunto. Perguntarei agora, e se ficarem calados, não vou tolerar reclamações futuramente. E podem responder sinceramente. Nesse momento, não haverá consequência. Algum de vocês tem algum problema com o fato de eu ser mais nova? Ou de eu ser uma mulher? - olhou para Drake na última pergunta.
Todos ficaram calados por alguns segundos. Drake pareceu estar tentando falar algo, reclamar. Mas parecia nervoso ou com medo. Percebendo isto, Sun dirigiu-se até ele e parou na sua frente. Encarou-o com olhos frios.
- Algum problema, Drake?
- N...n...não comandante.
- Ótimo então - falou se afastando de novo. - Sendo assim, não aceitarei reclamações desse tipo futuramente. Estou supondo que todos estão satisfeitos. Descansem por hoje, durmam. Amanhã nós sairemos para fazer um reconhecimento da área. Ficarei de guarda essa noite. Sintam-se livres para fazer o que quiserem, a partir de agora.
No que Sun terminou de falar, todos sairam de sua posição, enquanto ela retornava para a tenda. Uma vez lá dentro, ela tirou uma pequena caixa de metal de uma das sacolas que trouxe e ficou olhando, até ser interrompida por alguém que chamou de fora da tenda.
- Posso entrar comandante? - ouviu-se a voz de Vlad.
- Claro Vlad. E por favor, me chame de Sun como sempre.
- Mas você é a comandante - ele entrou e sentou-se na frente dela. - Não acho que seria apropriado chamá-la por seu nome, mesmo que nos conheçamos.
- Que seja. O que quer, Vlad? - ela falou impaciente.
- Comandante, vai mesmo ficar a noite toda acordada?
- Algum problema com isso?
- Não é isso. Mas se quiser que eu a ajude, ou fique para você.
- Tem medo que eu durma durante a noite, Vlad?
- Não, comandante. De modo algum. Mas você está provavelmente muito cansada. Andamos demais e...
- Vlad, estarei melhor acordada. Amanhã faremos um esquema para a vigia. Eu ficarei sozinha esta noite. Acredite, não estou com sono.
- Tudo bem, comandante. Só prezo por seu bem.
- Eu sei, Vlad. Agora me deixe sozinha por favor.
* * *
Durante a noite, Sun sentou-se na frente das tendas e pegou a pequena caixa de metal na mão. Segurou-a firme, abandonando a espada, cravada na terra. A lua no céu iluminava bem a floresta e ela podia ficar atenta a qualquer movimento. Inclinou a cabeça para baixo, sempre mantendo os olhos na pequena caixa.
- Pai. Se você estivesse aqui, ficaria orgulhoso de mim? Ou será que me criticaria? Afinal, onde você está? Eu queria te ver, queria que você me visse como comandante. Eu segui o que você sempre acreditou, a lealdade com nossa majestade. Pai, onde está você?
Ela limpou uma lágrima que escorria por seu rosto e olhou para o céu.
- Tsuki. Onde você está?
Outra lágrima molhou a terra abaixo de Sun.
* * *
Quando todos levantaram, Sun já tinha matado um coelho na floresta para comerem antes de partir. Após todos terminarem, e Drake reclamar da carne não estar bem assada, Sun os organizou para então adrentar a floresta.
Ela foi na frente, seguida por Drake e Nina, depois seguiam Grim e Iwazaru, seguidos por Vlad. Nessa formação, andavam ao comando de Sun, que passava por árvores cuidando atentamente os lados, esperando ver seu alvo, a bruxa. Ela não sabia como ela era, por isso ficava atenta a qualquer barulho que escutava. No caminho acabou matando cinco coelhos. Um urso que tentou atacá-la e foi cortado ao meio por Drake. Nina só observou a tudo sorrindo.
Depois de algum tempo andando e analisando as áreas, o grupo parou para descansar. Sun começou a passar um pote de água que havia pegado da parte do rio perto do acampamento para todos. Quando passou para Nina falou:
- Obrigada pela ajuda lá atrás.
- Não há de que comandante - ela bebeu um gole e então retornou. - Na verdade, acreditei em sua habilidade. De que eu não seria necessaria.
- Se você for mais rápida e impedir ferimentos desnecessários, eu não acharia um incomodo.
- Não queria interferir até saber como você luta.
- Era um urso, eu não ia lutar contra ele.
- Eu o matei comandante - Drake falou orgulhoso.
- E você quer o que? - Sun retrucou. - Todos vocês. - ela levantou. - Não estão aqui para ganhar prêmios nem gratidão. E sim para fazer seu trabalho. Se alguém reconhecerá isso depois, será sua majestade. Mas se não fizerem o que for possível. Se não fizerem tudo o que podem. Não podem se considerar soldados fiéis de Kahn e serão mandados de volta ou eu mesmo os mato aqui.
- Comandante - falou Vlad, levantando. - o som da água.
- Sim, estivemos seguindo o Rio Atlantis, então...
- Sim, eu sei. Mas esse som...está muito longe.
Sun levantou-se e foi até onde o local de onde o som vinha. Os outros a seguiram. Ela chegou perto da margem que deveria ser a margem direita do rio mas não o achou. Chegou mais perto e olhou para baixo visualizando um penhasco que levava para o rio muito abaixo.
- Subimos muito, nem percebi - Vlad estatou.
- Droga! - praguejou Sun. - Calculei mal. Havia mais subida do que pensei.
- No que isso muda? - perguntou Drake indiferente.
- Idiota! - Sun virou-se para ele quando gritou. - Precisamos de todos os detalhes. Estamos enfrentando uma provavel bruxa aqui. Essa batalha será provavelmente muito imprevisivel. Se vocês não entendem a gravidade da situação...
- Comandante! - Grim gritou de repente.
Ele jogou a espada que carregava no chão mas pareceu ter errado o alvo porque olhou preocupado para onde o alvo provavelmente se dirigia.
Ninguém viu nem sabia no que ele havia mirado até uma serpente saltar do mato alto e pular na direção de Sun. Ela tentou cortá-la com a espada mas desequilibrou-se e caiu para trás, caindo do penhasco em direção ao rio. Todos correram para olhar só para ver que ela já havia sido levada pela água.
- Comandante! - gritou Drake. - Comandante Sun!
- Cale a boca - ordenou Vlad. - Ela se foi. Levada pelo rio.
- Ela morreu? - perguntou Nina, ainda sorrindo.
- Não mesmo. - Vlad discordou. - Sun está viva com certeza. - ele também sorriu. - Seria preciso mais do que uma queda para acabar com aquela garota. Vamos continuar fazendo o que podemos até que ela volte.
Grim caminhou até onde havia atirado sua espada e a retirou da terra.
- Esperá-la voltar? - ele perguntou. - Não vamos procurá-la?
- Aquela garota provavelmente terá mais chances de sobreviver do que nós se formos buscá-la. Acredite em mim, eu a conheço. Ela está bem.
Grim embaiou a espada nas costas e começou a andar para dentro da floresta.
- Eu vou atrás dela. Vocês podem voltar ao que estavam fazendo.
- Se você quiser, pode ir. Não sou um comandante e não serei eu a dar ordens. - Vlad falou e deu um passo à frente. - Saiba, porém, que isso não foi sua culpa.
Grim parou por um segundo e então, sem falar nada ou fazer algum gesto, seguiu em frente, adentrando a floresta.
* * *
Sun conseguiu segurar-se em uma rocha no caminho e encaminhou-se para a margem esquerda do rio. Com dificuldade, conseguiu deitar-se sobre o mato molhado. Ficou algum tempo deitada ofegando e olhando para o céu.
"Droga." pensou. "Isso sim foi descuido"
Ela levantou e olhou para os lados. Segurou o cabelo molhado e tirou dele o máximo de água que conseguia. Olhou para o outro lado do rio. Para retornar ao acampamento, precisaria atravessá-lo. Olhou para a correnteza violenta que a empurraria para frente se entrasse nele. Vendo não haver outra solução, decidiu aventurar-se a achar um caminho pela floresta.
Tentou encontrar algo que lhe desse idéia de como atravessar para o outro lado do rio. Porém, quanto mais pensava na possibilidade, mais impossível parecia. Depois de tanto andar, decidiu-se por descansar um tempo sentada ao pé de uma árvore. Já havia andado bastante, sempre cuidando para não se afastar demais do rio.
Pegou um pote que havia enchido de água e a bebeu. Sentiu uma pancada na cabeça e olhou para o chão no exato momento que uma maçã rolava. Ouviu uma risada feminina acima de si.
Levantou-se e olhou para o alto da árvore. Sentada sobre um dos galhos estava uma jovem garota de cabelos vermelhos e lisos muito compridos, tanto que colocados para frente, da maneira que estava, alcançavam seus pés. Ela tinha olhos muito escuros, com um brilho sobrenatural. Vestia-se com um vestido vermelho que cobria de seus ombros até onde começam os pés. Acima de si uma serpente, que Sun constatou parecer a mesma que havia provocado sua queda, se enrolava em alguns galhos enquanto observava quietamente para baixo.
- Você! - gritou Sun, se pondo em guarda com sua espada. - Você é a bruxa!
- Ora... - a voz de cima desceu até Sun, melodiosa. - Uma bruxa? Eu? Que rude!
Sun empunhou mais fortemente a espada e cerrou os dentes.
- Oh, entendi. Essa foi a ordem de sua majestade, não? Destrua a bruxa. Ah, ele nunca aprende. Mas sim, creio que sou bruxa de certo modo.
Ela desceu da árvore, deixando a serpente sozinha lá encima. Ao chegar mais perto, Sun percebeu que era uma jovem com aparentemente uns quinze anos.
A bruxa aproximou-se da comandante e tocou-lhe uma mecha de cabelo, fazendo-a recuar com pressa. Ela deu uma leve risada e continuou a falar.
- Medo? Bom, eu entendo de certa forma. - jogou os longos cabelos para trás do corpo. Deu uma mordida em uma maçã que tinha na mão. - Mas sabe, comandante Sun, não quero lutar com você agora. Para falar a verdade, estou interessada em saber como você luta e se poderia usar isso a meu favor. Também tenho interesse em alguns membros de sua equipe. Então, por favor, não morra até que eu a venha encontrar novamente.
Após uma brisa forte que fez com que Sun protegesse os olhos, a bruxa desapareceu. Olhando para cima, a comandante percebeu que a serpente também havia sumido. No entanto, não relaxou. Começou a andar pelas árvores novamente com um cuidado para com cada barulho que ouvia. Embora tivesse achado ser sincero o que a garota de cabelos vermelhos falou.
Após duas horas de caminhada, Sun novamente sentiu-se cansada. Sentou-se encostada a uma árvore e novamente começou a tomar água. Foi quando ouviu barulhos que pareciam vir debaixo da terra.
Curiosa, ela começou a identificar de onde vinham os ruídos. Tocando levemente com a espada ela seguiu o som e acabou achando um local onde a terra parecia estar mais macia e parecia oca. Encostou a cabeça no chão e tentou escutar melhor. Para sua surpresa, ouviu uma voz de criança que parecia cantarolar.
- Oi! - gritou Sun se sentindo uma idiota. No entanto, após alguns segundos chegou a resposta de uma voz infantil.
- Oi?
Espantada por imaginar que alguém poderia viver embaixo da terra, Sun ficou algum tempo sem ação. Pensou que poderia ser um truque da bruxa. No entanto, sua curiosidade venceu por fim.
- Você está mesmo aí? - ela perguntou.
- Aí onde?
- Embaixo da terra.
- Que terra?
Confusa, Sun levantou-se.
- Espera um pouco! - ela gritou.
Então, planejou cavar um buraco usando sua espada para descobrir quem estava lá dentro. No entanto, com só um golpe da espada no chão, a terra cedeu e ela desabou junto...
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